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A' Cerca de Coimbra



Terça-feira, 16.02.16

O passado e o presente da Canção de Coimbra como Oferta Turística, 6.ª feira 18h00

 

Ciclo de conversas: Canção de Coimbra – Cultores e Repertórios
No âmbito da animação do Núcleo da Guitarra e do Fado de Coimbra do Museu Municipal, instalado na Torre de Anto, promovida pela Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra

Primeira sessão: 19 de Fevereiro de 2016, 6.ª feira, pelas 18h00, na Torre de Anto

Tema: O passado e o presente da Canção de Coimbra como Oferta Turística
A decorrer em dois tempos: o primeiro em que será abordada, de uma forma necessariamente muito simples o que se julga ser a informação teórica mínima para uma discussão adequada do tema; um segundo tempo, o de debate, em que se procurarão alcançar algumas conclusões.

Responsável pela reflexão e animação do debate: Rodrigues Costa
Nascido na Alta de Coimbra, liderou a equipa que organizou e realizou os primeiros Seminários de Fado. Professor jubilado do ensino superior, na área do turismo.

 

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por Rodrigues Costa às 10:38

Segunda-feira, 15.02.16

Coimbra: os serviços de incêndios

 

O primeiro testemunho para a organização do serviço de incêndios na cidade, remonta a 13 de Março de 1781, quando … a Rainha D. Maria I concedeu ao juiz do povo autorização para que da receita do real-de-água se comprassem duas bombas para acudir aos incêndios.
O pedido … tivera origem na consequência nefasta de um violento incêndio, ocorrido em 22 de Novembro de 1778 que manifestou numas casas do bairro baixo (a Baixa) que arderam completamente e onde ficaram sepultadas três pessoas. Apesar do Mosteiro de Santa Cruz possuir, então, uma bomba de incêndios, havia dificuldade no empréstimo, pelo que se tornou indispensável oficializar o serviço, tornando-o público e da responsabilidade da autarquia.


… Em 1824, a Câmara encarregou … de tomar conta da conservação das duas bombas e de prover a construção de uma outra, esta com características que pudessem levá-la até ao interior das casas.
… Gradualmente, as vereações melhoraram o serviço, sobretudo a partir de 1836 … em 1858/59 … mandar construir uma nova bomba … além de duas mangas de salvação, um carro para a condução de uma pipa com água e, ainda, outro veículo com arcas para transportar areias … em 1872/73, provocou um grande incremento ao serviço de bombeiros com a aquisição de diverso material apropriado, construção de dois tanques de lona, compra de uma bomba de esgoto, execução de duas macas de campanha … em 6 de Julho de 1898, o serviço foi repartido em três secções e provido de um efetivo de quarenta militares, entre oficiais e praças. Denominada, depois, por Inspeção de Serviços de Incêndios, Corpo de Salvação Pública, Corpo de Bombeiros Municipais, adotou, finalmente, desde 1978, a designação de Companhia de Bombeiros Sapadores.
E os melhoramentos continuaram … que souberam traduzir na prática a necessidade de prover a corporação de meios e homens dinâmicos e conhecedores que fizeram uma corporação ativa e moderna ao serviço da população.

Nesta evolução do serviço de incêndios que acontecida em Coimbra, registe-se a fundação da Associação dos Bombeiros Voluntários, em 7 de Abril de 1889, com tentativas anteriores de criar um corpo de voluntários, em 1881, 1883 e 1884, que não resultaram, uma Associação que ajudou, sobremaneira, ao impulso e valorização da Corporação dos Municipais pelo dinamismo e saber que imprimiu ao seu trabalho.

Nunes, M. 1998. Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Coimbra, Das origens aos nossos dias. (1889-1998). Páginas para a história de Coimbra. Coimbra, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Coimbra. Pg. 25 a 28

 

 

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por Rodrigues Costa às 21:20

Sexta-feira, 12.02.16

Coimbra: os grandes incêndios ocorridos no século XX 2

Incêndio do Colégio dos Órfãos
… ocorrido na noite de 16 de Janeiro de 1967 e que transformou num montão de ruínas, o Colégio dos Órfãos de S. Caetano, da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra.
A ala poente do grande edifício não tardou a ficar envolta em chamas, que irromperam através das janelas e do último piso e do telhado com extraordinária violência, oferecendo um espetáculo pavoroso. Dir-se-ia a cidade ter-se transformado num vulcão.
… O fogo começara na Capela da Secção Feminina … As chamas alastravam já assustadoramente de um extremo ao outro da ala nascente, com uma frente de mais de cem metros, para a Rua dos Coutinhos.
Impôs-se defender as casas vizinhas … e houve que evacuar algumas das moradias da Rua Corpo de Deus … foi poupada a Igreja da Misericórdia, bem como os claustros que são monumento nacional … Durou mais de quatro horas o ataque ao violento incêndio … Só cerca das 8 horas começou o rescaldo, mas ainda nessa altura, aqui e ali iam surgindo novos focos … só às 18 horas … retirou do Colégio dos Órfãos o último piquete dos bombeiros.

Seja-me permitida uma nota pessoal.
Como já tive ocasião de aqui dizer o meu Pai era funcionário da Misericórdia e um profundo conhecedor do edifício ardido e, em ordem a este incêndio, há que não esquecer a sua dedicação àquela Instituição.
Ele sabia melhor do que ninguém onde se encontravam guardados os objetos mais preciosos, ou seja, numa arrecadação junto ao local onde hoje se encontra a entrada da Faculdade de Psicologia.
Morando na Cerca do Colégio dos Órfãos, quando se apercebeu do incêndio correu para aí. E uma vez, e outra vez e outra vez entrou do edifício … até ser impedido pelos bombeiros de continuar nessa tarefa, dado o risco eminente de uma derrocada, a qual veio a acontecer. E assim, com algumas queimaduras e alguns ferimentos ligeiros, de lá retirou tudo o que pode de uma forma abnegada e pondo em risco a sua própria vida. Por iniciativa própria e sem qualquer reconhecimento.

Outros incêndios de grande dimensão

- na Rua do Guedes, em casa do fotógrafo José Sartoris, em 7/7/1900, quando alguns bombeiros correram perigo …
- na estalagem de João de Aveiro, no Largo da Fornalhinha, um dos maiores de Coimbra …
- em 7/2/1904, na Rua da Gala, na Casa de pasto do Grazina, que obrigou os moradores a serem salvos pela manga de salvação …
- incêndio do Palace-Hotel, Avenida Navarro … (hoje Café Internacional), que destruiu dois terços do edifício, sinistro ocorrido de 29 para 30/4/1919 …
- Em Agosto (1925), a Alquilaria Camões. Sita na Avenida Navarro (terreno do antigo Tivoli e, hoje, pronto-a-vestir Zara) foi pasto das chamas que a deixaram reduzida a cinzas … morreram seis cavalos … os melhores trens, entre eles o luxuoso carro conhecido pelo carro dos casamentos; ficaram gravemente feridos dois bombeiros…
- em 29 de Março (de 1929) … pavoroso incêndio na Rua das Padeiras e Rua do Paço do Conde que destruiu dois grandes prédios, n.ºs 47 a 51. Ali funcionava a padaria de Juventino Pais Martins dos Santos …
- incêndio ocorrido na Rua da Moeda, em 1 de Setembro de 1935 … onde funcionava a padaria Moderna …
- incêndio na Couraça de Lisboa, em 4 de Setembro (de 1940), em prédio do Seminário agarrado ao CADC, lojas e dois andares com carvoaria e hóspedes …
- violento incêndio registado em 27 de Setembro (de 1940), reduzia a cinzas a estância de madeiras … frente às Fábricas Triunfo, na Rua dos Oleiros. Um incêndio tão pavoroso que obrigou os comboios a deixar de circular …
- violento incêndio na Empresa Lusitânia de Cerâmica, junto à Estação Velha, em 13 de Novembro de 1946…
- Em 7 de Dezembro de 1949 … Um incêndio na Estatuária Artística de Coimbra, nas Lajes, assumiu proporções pavorosas …
- Incêndio no prédio da Casa das Lãs … o prédio n.º 73 da Rua Visconde de Luz foi pasto das chamas (em 26/1/1980) … houve 11 intoxicações … duas crianças e uma jovem foram retiradas do 4.º andar pela manga de salvação.

Nunes, M. 1998. Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Coimbra, Das origens aos nossos dias. (1889-1998). Páginas para a história de Coimbra. Coimbra, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Coimbra. Pg. 48, 63, 70, 78, 112, 129, 136, 161 a 168, 181

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por Rodrigues Costa às 12:02

Quinta-feira, 11.02.16

Coimbra: os grandes incêndios ocorridos no século XX 1

… os sinais de alarme nas torres das igrejas (badaladas), em caso de incêndio, e que eram os seguintes: «Sé Nova, 10 badaladas; Sé Velha, 11; S. Bartolomeu, 12; Santa Cruz, 13; Santa Clara, 14; e Santo António dos Olivais, 15».

- Incêndio na Escola Brotero
… pelas 3.45 horas (12 de Janeiro (de 1917) um violentíssimo incêndio destruiu completamente a Escola Brotero e as instalações da Hidráulica. Não houve mortos. Na Escola Industrial estavam matriculados 442 alunos que vão ficar sem aulas.
… O fogo principiou no arquivo da 2.ª Direção dos Serviços Fluviais e Marítimos e propagou-se rapidamente ao laboratório químico … teve uma extensão de 100 metros, chegando a ameaçar os paços municipais.

- Incêndio na Tabacaria Crespo
… violento incêndio … edifício ficava na Rua Ferreira Borges … hoje Papelaria Cristal.
Na madrugada de 23 de Fevereiro, cerca de 1 hora (23/2/1923) os «toques a incêndio emanaram das torres da cidade e os gritos da população anunciaram a mais negra cena lutuosa, que há memória na cidade» … «O foco incendiário teve origem no 2.º andar (morada dos proprietários e criados). Envoltos em fogo, Eduardo Crespo lançou para a rua um filho de 6 meses, recuperado pelo ’chauffer’ Alberto Baptista (o 1.º que deu pelo sinistro) e Eduardo saltou atrás do filho, estatelou-se no lajedo e morreu 3 horas depois.
… A população tentou retirar e proteger alguns bens … e foi surpreendida pela derrocada dos andares superiores … 14 mortes a lamentar com funerais municipais.

- Incêndio nos Correios
Um pavoroso incêndio acontecido a 2 de Janeiro de 1926 … destruiu completamente a estação telégrafo-postal, bem como os serviços telefónicos que ali estavam instalados … pelas 4 e meia horas da madrugada a torre de Santa Cruz deu sinal de incêndio … As labaredas envoltas em negras nuvens de fumo fundiram vários fios e próximo da Manutenção Militar caíram dois postes, um deles no telhado do mercado do peixe … O rescaldo durou alguns dias.

- Incêndio no Coliseu de Coimbra
… incêndio, em 4 de Abril de 1935, que devorou a praça de touros de Santa Clara, denominada de Coliseu de Coimbra e que fora inaugurada em 26 de Julho de 1925 … «As labaredas atingiram alturas elevadíssimas e espessos rolos de fumo preto elevaram-se no espaço … meia-hora depois do início do incêndio a vasta praça era um braseiro imenso. Ficou apenas de pé a cabine cinematográfica construída em cimento armado … A última tourada que ali se realizou foi em 17 de Julho de 1934. A lotação era de 10.000 pessoas. A arena era a maior de todas as praças do País. Com o desaparecimento do Coliseu perdeu a cidade um magnifico recinto de espetáculos, onde não só se levaram a efeito algumas das mais grandiosas e importantes touradas realizada no País, como grandes festas desportivas, etc., não levando em conta as sessões cinematográficas durante a quadra estival que levaram o público a afluir em massa».

- A tragédia de 6 de Julho de 1938
»… os Bombeiros Municipais que tinham recebido algum material novo quiseram testar o mesmo, incluindo no programa das festas da Rainha Santa um exercício de ataque a fogo real.
Ergueu-se para o efeito, na Praça da República, uma casa-esqueleto de 17 metros de altura, cujos três andares foram ocupados por 13 jovens que se faziam passar por inquilinos.
O guião do exercício consistia em deitar fogo ao prédio e recolher, sãos e salvos, os seus moradores.
A partir de um monte de lenha e de estopa embebida em gasolina e do riscar de um fósforo foi fácil criar o incêndio. Dominá-lo é que se tornou impossível.
… Alguns, já feitos tochas humanas, atiraram-se de 17 metros de altura, morrendo ao embater no solo. Outros, sem coragem para tal gesto, pereceram carbonizados.
Salvou-se, apenas um por não ter sofrido ainda queimaduras saltou em último lugar. A lona estava, nessa altura, suficientemente tensa para amparar.
… Os funerais das 12 vítimas realizaram-se no dia seguinte para o cemitério da Conchada, com milhares de pessoas incorporadas no cortejo fúnebre.

Nunes, M. 1998. Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Coimbra, Das origens aos nossos dias. (1889-1998). Páginas para a história de Coimbra. Coimbra, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Coimbra. Pg.44, 48, 61 e 62, 64 a 66, 71, 86 e 87

 

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por Rodrigues Costa às 10:58

Quarta-feira, 10.02.16

Coimbra e as suas personalidades: Pompeu Aroso

Antes de concluir apenas gostaria de prestar a minha singela homenagem a um grande mestre do ferro forjado, que foi José Pompeu Aroso (13.7.1910-26.2.1986). Trabalhou o ferro desde os 14 anos de idade e dedicou-se à arte do ferro forjado até ao fim dos seus dias. Em 1984 fora-lhe atribuída a Medalha de Ouro da cidade de Coimbra. Foi para mim uma experiência inesquecível ter visitado a sua oficina, tendo-o como guia, em Fevereiro de 1982. Ao tempo, o Mestre Pompeu Aroso ainda alimentava uma esperança, embora ténue, de os seus colaboradores poderem vir a manter a oficina em laboração, mesmo após o seu desaparecimento. Isso, infelizmente, não se verificou. Entretanto ofereceu-me, gentilmente, uma síntese da sua biografia, em verso, datada de 4-7-1978, à qual deu o título «É assim uma vida». É com esse testemunho, que considero de relevância para o conhecimento do homem e do artista, no seu percurso por este mundo, que termino este trabalho.

É ASSIM UMA VIDA

Sou de Coimbra de ferro torto
Tenho os brasões em pessoa

Mestres Machados e Gonçalves
Pioneiros de Belas Artes
Chaves de Almeida e Rodrigues
E saudoso Albertino Marques

Com amor e sacrifício
De muitos anos vincados
Este serralheiro de ofício
Aquém dos seus antepassados

Autor de vários cinzeiros
O carro de mão e o gato
É do signo dos caranguejos
E do bacalhau sem pataco

Ferro frio mal tratado
Quando se pensa em casa
Para ser bem forjado
Só obedece estando em brasa

Nada tenho nada valho
Por tudo aquilo que fiz
De bigorna martelo e malho
Neste século dos xis-xis

O’ Coimbra minha terra
Da cultura e da arte
Da tradição o que se espera
É deixar morrer a “Forjarte”
Eu trabalho sim senhor
Quando não tenho que fazer
Luto sempre com amor
Sempre e sempre até morrer

4-7-78
José Pompeu Aroso

Mendes, J.A. 2000. O Ferro na História: Das Artes Mecânicas às Belas-Artes. In Gestão e Desenvolvimento, 9 (2000), 301-318. Pg. 312 e 313

Uma nota pessoal.
Tive ocasião de conviver com Pompeu Aroso e de visitar diversas vezes a sua oficina. Aquando da homenagem que lhe foi prestada pela Cidade e da consequente organização da exposição "Serralharia Artística. Homenagem da CMC a José Pompeu Aroso", esse conhecimento transformou-se em amizade. Fui, também, testemunha da sua esperança que a Forjarte continuasse.
Tinha já adquirido os atrás referidos cinzeiros “O carro de mão … o signo dos caranguejos … e o bacalhau sem pataco”. Um dia, menos de uma semana antes da sua morte, fui surpreendido no meu gabinete por Mestre Aroso que me disse que fazia questão de me oferecer uma peça.
A peça – uma simples mas muita bela candeia – ainda hoje está em local destacado em minha casa.

 

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por Rodrigues Costa às 11:16

Terça-feira, 09.02.16

Coimbra, a “cidade das grades” 2

… No que ao ferro forjado diz respeito, foi também a partir dos inícios do século que aquela arte mais se desenvolveu, graças à Escola Livre das Artes do Desenho (criada em 1878) e ao Mestre António Augusto Gonçalves

… Já em 1906, Joaquim Martins Teixeira de Carvalho (Quim Martins), no trabalho intitulado «Os serralheiros da Escola de Coimbra», aludia a nomes destacados da arte do ferro forjado, alguns deles discípulos de António Augusto Gonçalves. Começa por se referir a Manuel Pedro de Jesus e a João Machado, que considerava cooperadores daquele mestre, «nesta obra de ressurgimento artístico». Menciona outros nomes, como António Maria da Conceição, António Couceiro e Lourenço d’Oliveira Chaves de Almeida, arquiteto Augusto da Silva Pinto Joaquim Mendes de Abreu e Joaquim Abreu Couceiro.
Ao concluir o seu artigo, Quim Martins sublinhava:
«E é, em minha opinião, o ensino de António Augusto Gonçalves o único que, no nosso país, mostra a compreensão inteligente das preocupações pedagógicas que têm reformado completamente no estrangeiro a educação artística do operário».

Como é sabido, a estes grandes mestres do ferro forjado, em Coimbra, outros se sucederam, ao longo de cerca de três quartos de século. A sua vida e obra constituem património cultural de grande relevância, sem esquecer um saber-fazer, ancestral, que é hoje pouco conhecido e divulgado. Além do estudo da obra feita por aqueles, devia manter-se viva a tradição, em oficina a funcionar nos moldes tradicionais, que fosse não só um museu vivo, mas também um centro pedagógico e cultural.

Mendes, J.A. 2000. O Ferro na História: Das Artes Mecânicas às Belas-Artes. In Gestão e Desenvolvimento, 9 (2000), 301-318. Pg. 310 a 312

 

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por Rodrigues Costa às 10:46

Segunda-feira, 08.02.16

Coimbra, a “cidade das grades” 1

Coimbra, a “cidade das grades”, como lhe chamou Vergílio Correia, tinha produção de ferro própria, embora insuficiente, para certas necessidades

… Com o intensificar do uso do ferro fundido, a partir de meados de Oitocentos, não surpreende que as oficinas localizadas em Coimbra se tivessem dedicado mais à obra em ferro fundido do que em ferro forjado. Contudo, ainda na segunda metade daquela centúria, se encontram algumas referências ao ferro forjado. Assim, José Bernardes Galinha apresentou, na Exposição Distrital de Indústria, Agrícola e Fabril e de Arqueologia (Coimbra, 1869), vários objetos de ferro fundido (fogões, inclusive um para trabalhar com gás, panelas, compassos, etc.), mas também «dois varões de ferro sextavados, e só forjados, para amostra».
Aquele, falecido em 1873, fez parte de uma dinastia célebre de artistas do ferro que, ao longo de quatro ou cinco gerações (desde Manuel Bernardes Galinha, autor do conhecido portão do Jardim Botânico, que falecera em 1864, e o seu descendente, Joaquim Ferreira Galinha, que viria a morrer em 1924), se dedicaram, em Coimbra, às artes do ferro.
Já no que concerne a outras oficinas, além de se mencionarem diversos tipos de objetos ou utensílios produzidos, em vários casos se refere, expressamente, a existência de fundição. Vejamos alguns exemplos:
- Oficina de carruagens, na rua da Sofia, de Manuel da Costa Soares (1876).
- José Alves Coimbra e seu irmão, António Alves Coimbra, com estabelecimento no Largo das Ameias, de fronte do Hotel Mondego (1879), onde faziam qualquer obra de ferro fundido (panelas, testos, fogareiros, fornalhas), encontrando-se, alguns anos mais tarde (1888), a produzir para o mercado de Lisboa.
- Oficina de serralharia, de António Bernardes Galinha (Rua de Quebra Costas, 29), na qual, além do mais, se produziam «camas de ferro, de novo gosto, superiores às de Lisboa e do Porto».
- Joaquim Augusto das Neves Eliseu (morador na Rua das Figueirinhas, 21), com a produção de vários objetos, em folha maneável ou por fundição.
. Oficina de Serralharia a Vapor, de Eduardo & Almeida (Rua da Madalena) que, além de outros artigos, produzia máquinas a vapor (de 1 a 15 cv.).

Pelos exemplos que acabo de referir, pode deduzir-se que, a avaliar pela oferta de diversos artigos, a “civilização do ferro” também ia chegando a Coimbra. Isto não obstante a lentidão com que, nas construções, a madeira ia cedendo o lugar ao metal. Assim, numa fonte dos finais do século (1894), pode ler-se: «Compreende-se que as construções civis ainda não deem entre nós um grande consumo ao aço, sob a forma de vigas, por exemplo, em que preenche o uso da madeira; começa-se a notar, no entanto, que algumas das mais cuidadas edificações, a despeito do sistema tradicional e tido entre nós como o melhor para prevenir os efeitos de certos acidentes, têm já empregado o vigamento metálico».

Em 1920, duma escritura de partilhas de bens, situados na Baixa de Coimbra, constam cinco serralharias localizadas, respetivamente, nas ruas do Arnado (3), da Nogueira (1) e da Madalena (1). Na Rua do Arnado situava-se ainda uma fundição.

Mendes, J.A. 2000. O Ferro na História: Das Artes Mecânicas às Belas-Artes. In Gestão e Desenvolvimento, 9 (2000), 301-318. Pg. 308 a 310

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por Rodrigues Costa às 12:27

Sexta-feira, 05.02.16

Coimbra e as suas estalagens

Coimbra, em 1269, não possuía ainda estalagens propriamente ditas, pelo menos na Almedina … Um século depois Coimbra possuía já estalagens «mui boas e tais em que bem poderiam pousar se quisessem» os fidalgos que chegavam à cidade. Ficavam no arrabalde, a par de S. Bartolomeu e de Santiago, em 1377 .
… por volta de 1585. Neste ano … a Câmara acordou, «para bom regimento e agasalho dos caminhantes e nobreza desta cidade», que era importante haver nela cinco estalagens, das quais uma em Santa Clara.
… O ano de 1617 apresenta nove nas quais poderão estar incluídas simples vendas. Neste cômputo, a partir de 1610 deverá contar-se a estalagem que Diogo Marmeleiro de Noronha fez na «estrada pública» da rua de Santa Sofia … em 1613 encontramos nomeados dois estalajadeiros no Paço do Conde. Um, na Rua de Santa Sofia. Outro na Rua de António Azevedo, freguesia de S. João de Almedina. Na Rua do Arco, da mesma paróquia, depara-se-nos o estalajadeiro e alugador de bestas António João … Em 1623 havia em Coimbra pelo menos onze casas que forneciam só comida. Oito outras unidades davam dormida. Seis, cama e mesa.

… O treslado do regimento devia ser pendurado, em cada venda ou estalagem, em sítio que se pudesse ler, «na primeira casa omde se recebe os ospedes». Dele constavam os preços das comidas e dormidas, cuja conta não devia ser dada «em soma senão pollo miúdo» … O regimento, quanto à comida, tabela pão, carne de vaca, de porco e de carneiro, pescada fresca e vinho. Cada posta cozida, de carne ou peixe, devia pesar um quarto de arrátel (cerca de 115 gramas) e custava cinco réis. O regimento não faz referência explícita ao «azeite para o prato». Mas embora não o nomeando, acusa a sua presença ao obrigar o estalajadeiro ou vendeiro a ter uma medida aferida do «real de azeite».
Se as refeições se resumiam à «ementa» do regimento, bem simples eram: um ou mais pedaços de carne ou peixe acompanhados de pão e vinho. As postas seriam dadas «com sua cozinha se lha pedirem».
O regimento não fala de assados ou fritos … Mas o consumo de peixe frito (ou assado) está documentado tanto antes, como depois de 1586 … As camas mais caras das estalagens, ao tempo deste regimento, custavam trinta réis por dia e noite: numa câmara fechada, uma cama de «emsergão colchão», dois lençóis de linho lavados, cobertor de papa ou de pano e travesseiro enfronhado. Havia «camas de somenos» com colchão, lençóis, cobertor ou manta, por 15 réis … Algumas pousadas, além das camas, tinham também esteiras. Outras só esteiras. A dormida numa esteira custava um real por pessoa.

Oliveira, A. 1971. A Vida Económica e Social de Coimbra de 1537 a 1640. Primeira Parte. Volume II. Coimbra, Universidade de Coimbra, pg. 59 a 62, 68 a 70

 

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por Rodrigues Costa às 09:57

Quinta-feira, 04.02.16

Coimbra, caminheiros e correios

Para enviar recados ou correspondência, no momento desejado, o público e as Instituições serviam-se dos caminheiros.

Na repartição das sisas de 1617 estão identificados 17. O conjunto, sem dúvida, seria mais numeroso.


A Universidade, como outras entidades, tinha caminheiros privativos … Os caminheiros situam-se nos estratos sociais mais baixos

… Pelas estradas percorridas por caminheiros e recoveiros seguiam também os correios ordinários e extraordinários.

Coimbra, em 1596, tinha já um assistente de correio-mor … Em 1606 … havia um correio ordinário semanal entre Lisboa e Porto. O correio vindo do Porto e trazendo o maço da correspondência de Aveiro, apanhava o de Coimbra e seguia para Alvaiázere. Até aqui chegava o de Lisboa

… Os correios postos pelo correio-mor podiam trazer punhal e espada, de dia e de noite, por todas as partes do Reino e senhorios e usavam o escudo das armas reais … podiam circular a pé ou a cavalo. Para este havia mudas ao longo do caminho.

Oliveira, A. 1971. A Vida Económica e Social de Coimbra de 1537 a 1640. Primeira Parte. Volume II. Coimbra, Universidade de Coimbra, pg. 51 a 54

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por Rodrigues Costa às 10:29

Quarta-feira, 03.02.16

Coimbra, recoveiros da Universidade

As viagens (dos recoveiros da Universidade) eram efetuadas nos tempos e prazos impostos pelos contratos.

Para Lisboa, segundo as obrigações assumidas em 1546, 1548 e 1556 haveria carreiras contínuas que duravam, entre a ida e a volta, de vinte e dois dias a um mês

… O recoveiro de Braga (Entre Douro e Minho), pelo contrato de 1549, faria também carreiras contínuas, presumivelmente, com duração de 15 dias … o número de viagens anuais … aparece regulamentado, de modo geral, entre quatro a seis. A primeira e a última destas viagens costumavam efetuar-se no começo e no fim das aulas. As restantes pelo Natal, Entrudo e Páscoa

… A chegada e os dias que antecediam a partida deviam ser assinalados pelo recoveiro. Uma bandeira ou outro sinal adequado devia ser posto em lugar público e corrente, «para mais azinha vir a notícia das pessoas que ouverem de mandar recado e poderem receber o fato e a fazenda».

Em Coimbra, segundo um contrato de 1575, deviam ainda ser colocados «escritos» na porta das Escolas e do Colégio das Artes.

Oliveira, A. 1971. A Vida Económica e Social de Coimbra de 1537 a 1640. Primeira Parte. Volume II. Coimbra, Universidade de Coimbra, pg. 43 a 46

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por Rodrigues Costa às 09:56



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