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A' Cerca de Coimbra



Segunda-feira, 16.11.15

Coimbra na Revolução Industrial 1

Coimbra, do ponto de vista dos ideais, das novas correntes estéticas e das ideias políticas, fervilhava, no terceiro quartel do século XIX … Todavia o seu tecido produtivo continuava a ser o artesanal, muito semelhante ao que sempre fora, desde a Idade Média. Mesmo a Fábrica de Sabão, fundada em 1871 por Augusto Luiz Martha, em Santa Clara (nas proximidades da Feitoria dos Linhos e junto ao futuro Portugal dos Pequenitos) não contribuía para alterar o panorama. Com efeito, aquela não passava de uma grande oficina, que produzia sabão manualmente, como aliás continuaria a fazer, durante mais de um século, mesmo após ter instalado a linha de produção automática … nas unidades artesanais conimbricenses produziam-se artigos de primeira necessidade, sobretudo os relativos à alimentação, ao vestuário, ao alojamento e pouco mais. As fontes coevas mencionam, por exemplo: padarias, refinarias de açúcar, pastelarias e confeitarias, unidades de produção de gasosas, trabalhos de construção civil, alfaiatarias e sapatarias, cordoarias e pirotecnia.
Os produtos destinavam-se, fundamentalmente, ao mercado local ou ao autoconsumo.
… Ao aproximar-se o final de Oitocentos, chegam finalmente a Coimbra os primeiros ecos da Revolução Industrial, através da famosa Fábrica de Lanifícios de Santa Clara que, durante cerca de um século, produziu tecidos de lã, de elevada qualidade, que rivalizavam com o que de melhor se fazia no mundo … A fábrica começou a laborar em 1888 … quando foi constituída a firma “Peig, Planas & C.ª” … tendo encerrado no final dos anos de 1980.
… Além dos lanifícios, a têxtil algodoeira foi igualmente uma das indústrias-piloto da primeira fase da industrialização … Foi a firma Aníbal de Lima & Irmão (sociedade em nome coletivo, estabelecida em 1867) que introduziu a indústria de malhas em Coimbra … instalando a respetiva fábrica, sucessivamente, no Largo do Romal … no Rego de Benfins … e finalmente, na Rua do Gasómetro (futura Rua João Machado).
As suas instalações foram edificadas em 1906-1907, onde se manteve em laboração até 1978.
… Também o Banco Comercial de Coimbra … lutou com enormes dificuldades para sobreviver cerca de um quarto de século (1879-1899).
… Indústria igualmente relevante, nesta fase do desenvolvimento industrial, foi a da cerâmica e da porcelana. Também neste domínio Coimbra tinha tradição. A primeira, que remonta à Idade Média, viria a adquirir certo prestígio do século XVIII para o XIX, graças a Brioso e Vandelli. O seu legado, após uma longa interrupção, viria a ser retomado pela Cerâmica Antiga de Coimbra (Quintal do Prior, também conhecido por Terreiro da Erva), em cujo local se trabalhava o barro, pelo menos, desde 1867.
… merecem destaque, em Coimbra:

a) A Cerâmica Limitada, e a instalação da sua Fábrica no Loreto, junto à Estação de Coimbra B (em 1919), ainda recordada pelo painel de azulejos – visível da referida estação … nela chegaram a trabalhar 1.000 operários, tendo encerrado em 1980.
b) Por sua vez, em 1924, a Sociedade de Porcelanas, Ld.ª … introduziu o fabrico de porcelanas em Coimbra…

Mendes, J. A. 1910. Coimbra Rumo à Industrialização. 1888-1926. In Caminhos e Identidades da Modernidade. 1910. O Edifício Chiado em Coimbra. Actas. 1910. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 138 a 143

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por Rodrigues Costa às 12:35

Sexta-feira, 13.11.15

Coimbra e as suas personalidades: Miguel Torga

António Correia Rocha, nasce a 12 de Agosto de (1907) em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real … Frequenta o curso de Medicina (1928-1933) … Com o livro «A Terceira Voz» (em 1934), “despede-se” literariamente do nome civil que usou nas primeiras edições e adota o pseudónimo de Miguel Torga … Miguel Torga morre (em Coimbra) a 17 de Janeiro (de 1995). A 18, é sepultado em campa rasa no cemitério de S. Martinho de Anta.

 

Miguel Torga (por ele próprio)

Nasceu em S. Martinho de Anta, Trás-os-Montes.
Casado.
Altura: 1 metro 77.
Magro como um espeto.
Perfil de um contrabandista espanhol.
Médico.
Anda que se desunha.
Fuma, sobretudo quando está com amigos ou quando escreve.
Gostava de ser pintor, e chegou mesmo a pintar um autorretrato, que atirou ao mar, no Portinho da Arrábida.
Vai muito ao cinema, e ri-se perdidamente com os desenhos animados.
Só ajudou uma vez a mulher a enxugar a louça, e há dez anos que lhe mata o bicho do ouvido com essa avaria.
Na sua biblioteca, pequena porque não cabem mais livros na exígua casa da Estrada da Beira, em Coimbra, onde mora, contém o essencial das principais leituras do mundo.
Em pintura moderna admira Picasso, Siqueiros, Orozco e Portinari.
Tira o chapéu a Euclides da Cunha e a Machado de Assis.
Gosta de música, particularmente de Bach.
Mas o que gosta a valer, é de calcorrear os montes do seu Douro transmontano, os pauis dos campos do Mondego, à caça de perdizes e narcejas.
Nunca fez uma tratantice a um colega das letras. Em compensação, têm-lhe feito muitas.
Entre os autores que venera: Dostoiewski, Proust, Cervantes, Unamuno e Melville.
É contra os caçadores de autógrafos, contra os álbuns, contra a publicidade.
O “contra” é mesmo o seu forte.
Gosta de solidão, e preza muito quem lha respeita.
Não acredita em fantasmas.
Anda sempre a morrer, e não há ninguém que gaste mais energia.
Se pudesse recomeçar a vida gostaria de ser mais poeta ainda.
Um dos seus títulos de glória é ter passado a adolescência no Brasil (Leopoldina – Minas).
Vive pelos nervos.
Não há ninguém mais amigo dos seus amigos, e tão mal compreendido por eles.
A arte para ele não é uma ambição: é um destino.
A sua terra é para ele como uma planta: sítio de deitar raízes.
Tinha 20 anos quando escreveu o primeiro livro, que se chama «Ansiedade».
Portas brasileiros que admira: Manuel Bandeira, Cecília, Ledo Ivo.
Romancistas brasileiros que admira: Graciliano, Lins do Rego e Jorge Amado.
Gosta de deuses pagãos, a quem tem cantado nas suas Odes.
Mas não conta com eles para o dia da morte, que teme como uma noite sem madrugada.

 

Rocha, C. 2000. Miguel Torga. Fotobiografia. Prefácio de Manuel Alegre. Lisboa, Publicações D. Quixote. Pg. 13, 45, 58, 98 a 101, 183

 

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por Rodrigues Costa às 09:50

Quinta-feira, 12.11.15

Coimbra, Torga e a cidade 2

"De todos os cilícios, um, apenas,
Me foi grato sofrer:
Cinquenta anos de desassossego
A ver correr,
Serenas,
As águas do Mondego"
Miguel Torga

 

"Oito horas de sonambulismo nos campos do Mondego, cobertos de quietude e de toalhas de água, onde a alma se embebeda de silêncio e os choupos se narcisam.” ...

"Esta paisagem coimbrã tem o diabo dentro dela. No Alentejo caminho; em Trás-os-Montes, trepo; aqui, levito”, confessa Miguel Torga noutra passagem dos seus “Diários”.


Conheci Miguel Torga há cinquenta anos e, precisamente, em Coimbra. Recordo-me de o ver passar, como uma águia do Marão, pelas ruas da Baixa da cidade e de o ver, magnânimo e trágico, sentado no café, junto dos seus amigos de tertúlia: Paulo Quintela, Afonso Duarte, António de Sousa e outros mais.
… ao passar no Largo da Portagem, o via estático e sonhador, com o olhar distante, na janela do seu consultório. Realizaria, dentro de si aquilo que num dos seus romances o levou a escrever:

 

"À direita, a fachada lívida do Banco de Portugal, com o relógio no topo a marcar as horas sonolentas; à esquerda, a velha ponte de ferro a transpor a fita branca do areal por onde o Mondego serpeava minguado e preguiçoso; em frente, a verde perspetiva do horizonte rural, pasto bucólico de imaginação…”

Porque desde sempre a amou, Coimbra – e a sua tão lírica e bucólica região – tem sido para Miguel Torga quase uma paixão; ama-a porque a descobriu em todos os seus aspetos, porque a tem vivido e sentido. Coimbra – poderíamos dizer – é para Miguel Torga, em muitos aspetos, o brasão de Portugal e das gentes portuguesas. No seu impressionante livro “Portugal” – obra fundamental para o 'entendimento' do nosso País – Torga testemunha …

“Coimbra é uma linda cidade, cheia de significação nacional. Bem talhada, vistosa, favoravelmente colocada entre Lisboa e o Porto … Mais do que razões sociais, foram razões geográficas que a fadaram. Uma terra de suaves colinas, de verdes campos, banhada por um rio plano, sem cachões, a meio de Portugal, tinha necessariamente de ser a cidade espiritual, universitária, da pequena pátria lusa. Também a nossa alma é de suaves relevos, de frescas paisagens, e banhada por uma corrente doce de amor e conciliação. Nenhuma outra terra como Coimbra testemunha tão completamente, na sua pobreza arquitetónica, na sua graça feita de remendos e pitoresco, nos seus recantos sujos e secretos, os limites da nossa capacidade criadora, a solidão da nossa alma, e o camponês com que nascemos para tirar efeitos cénicos do próprio gosto de erguer uma videira.”

Ribas, T. (1991?). Coimbra Vista por Miguel Torga. Lisboa, Inatel, pg. 1, 5 a 8

 

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por Rodrigues Costa às 11:59

Quarta-feira, 11.11.15

Coimbra, Torga e a cidade 1

Muda-se para Coimbra (em 1940). Mora numa pequena casa no n.º 32 da Estrada da Beira, com vista das traseiras para os laranjais do Mondego. Aí recebe intelectuais e amigos: Ribeiro Couto, Eugénio de Andrade, Ruben A., etc.
… Coimbra é assim vista por Torga, no volume Portugal (1950:

Passeando Coimbra a certas horas do dia e da noite, é flagrante que um manto de luz sedativa a ilumina. Tanto o sol como a lua se esforçam por mantê-la numa irrealidade poética, feita do alvoroço das sementeiras e da melancolia das desfolhadas. Cenário para um perpétuo renascimento do espírito que, além da pureza de um céu límpido e aberto, poderia ter a Grécia e a Itália reunidas na mesma colina debruada de choupos e de oliveiras. Mas aproveitaram a oferenda apenas o ópio sentimentalista. E o Penedo da Meditação, a Lapa dos Esteios, o Jardim Botânico e o Parque de Santa Cruz vivem permanentemente num banho-maria nostálgico que, sendo uma realidade física local, é simultaneamente a atmosfera mental do português” (Portugal, Coimbra, 6.ª ed., 1993, p. 90).

 

Abre consultório no Largo da Portagem, n.º 45. Aí exercerá a especialidade de otorrinolaringologia durante mais de cinquenta anos … Torga vai todos os dias ao consultório, de elétrico ou de trolley, passando primeiro pela tipografia ou pelas livrarias da Baixa, e detendo-se na Central, e mais tarde no café Arcádia, onde se junta a uma pequena tertúlia.
Com vista sobre o rio e a cidade, o consultório é a sua “janela” sobre o mundo. É também um dos seus lugares de escrita, sobretudo nos últimos anos, quando tem menos clinica, e de encontro com amigos, intelectuais e políticos. Aí recebe jovens poetas que o procuram, admiradores conhecidos e desconhecidos, escritores estrangeiros e, mais raramente, jornalistas, em longas conversas por vezes documentadas nas páginas do Diário.
… Passa a morar (1953) na rua Fernando Pessoa, nº 3.

Rocha, C. 2000. Miguel Torga. Fotobiografia. Prefácio de Manuel Alegre. Lisboa, Publicações D. Quixote. Pg. 76, 80 e 81, 117

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por Rodrigues Costa às 22:54

Terça-feira, 10.11.15

Coimbra e as suas personalidades: Joaquim Martins de Carvalho

Joaquim Martins de Carvalho nasce em Coimbra, em 19 de Novembro de 1822 … Desde logo condenado à mediocridade financeira pelos direitos de primogenitura de um seu irmão e, por isso, destinado pelos seus pais à carreira do sacerdócio católico, o futuro decano dos jornalistas portugueses ver-se-ia obrigado a enfrentar desde muito cedo a dureza da vida. Órfão desde a mais tenra idade e impedido, por isso, de prosseguir os seus estudos com regularidade … exerceria na sua juventude as modestas profissões de empregado comercial e de funileiro, antes de conquistar na carreira do jornalismo, por mérito próprio, um lugar cimeiro e relevantíssimo.
… Na luta contra o cabralismo … irá evidenciar convicções políticas da maior intransigência democrática, batendo-se na primeira linha pelas reclamações do chamado «partido patuleia». Entre Fevereiro e Junho de 1847 paga no cárcere do Limoeiro o tributo do seu indefetível amor à Liberdade … desempenhará também um papel muito ativo no ano seguinte, quando em Coimbra decorrem secretamente os trabalhos de organização da Carbonária Lusitana. Dentro dos círculos carbonários … era o Benigno Primo «Ledru Rollin» e desempenhou os cargos … de Orador da «Choça 16 de Maio». Esta «Choça» … ponderou, em Dezembro de 1848, sobre a melhor forma de governo para Portugal, tendo preferido, por unanimidade, a forma republicana
… Historiador autodidata, polemista corajoso e publicista de grande envergadura … desenvolveria nas trabalhosas lides do jornalismo os vários aspetos do seu admirável talento. Colaborou, primeiro, no «Observador», jornal fundado em Coimbra, em 16 de Novembro de 1847. Depois, resolvido a furtar-se às pressões de notáveis locais a quem a sua independência incomodava, e que ameaçavam limitar-lhe a plena expressão do seu pensamento, fundou o «Conimbricense» … surgindo o seu primeiro número em 24 de Janeiro de 1854. A vida de Joaquim Martins de Carvalho passará, a partir deste momento, a identificar-se com a do seu jornal, do mesmo modo que este refletirá com o maior rigor as aspirações, projeto e iniciativas do burgo coimbrão e da sua zona de influência … desfere os mais certeiros golpes contra o banditismo que infestava a região das Beiras, invetivando a impunidade criminosa dos malfeitores João Brandão e António Rodrigues, o «Boa tarde» … que chegaram mesmo a projetar a sua eliminação física … nas numerosas controvérsias contra o legitimismo miguelista e contra o clericalismo ultramontano. Como historiador do liberalismo … estampou no «Conimbricense», sob a forma de artigos de fundo e de notas soltas, os volumosos resultados das suas pacientes investigações … Quando a morte o ceifou, em 18 de Outubro de 1898, não era apenas Coimbra que pranteava um dos seus mais dedicados filhos, mas também a opinião genuinamente liberal que via sumir-se uma das suas mais sonoras e cristalinas vozes.

Homem, A.J.C. A Exposição Distrital de Coimbra em 1884. In 1.º Centenário da Exposição Distrital de 1884. Coimbra. Simpósio. 30 de Junho e 1 de Julho de 1984. Coimbra, Edição do Secretariado das Comemorações, p. 51 e 52

 

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por Rodrigues Costa às 09:37

Segunda-feira, 09.11.15

Coimbra e as suas personalidades: Edmundo de Bettencourt

Alto, muito alto, no dizer de José Régio, ergue Edmundo de Bettencourt os seus gorjeios de cristal e oiro, em voos de tal envergadura que apenas podiam acompanhá-los as flutuações da sua lírica inspiração, pois Bettencourt foi tão grande cantor como poeta, integrado nesse movimento que, após o ciclo do Orpheu, se definiu como o mais salutar e arejado nas letras portuguesas – o movimento «presencista».
No conjunto dessas aptidões se vertebrou a formação do mais intelectual trovador que passou por Coimbra, senão o de mais larga projeção em todo o Portugal … um cantor sadio, sugestivo, original!
… Em Edmundo de Bettencourt vincam-se essencialmente estas duas diretrizes, em que se definiu como único: - Preocupação seletiva e intensidade vocalista.
No que respeita à primeira manifestou a tendência, a que foi fiel, para se libertar do recurso a tudo quanto, em outros cantores, se enformasse do estilo mavioso, romântico, embalador ou puramente enternecedor … A inclinação para temas populares, mais compreensíveis e de mais rápida fixação memorial, marcam-lhe a primazia dum reinado, em que será soberano.
… Intensidade vocalista: Nela reside a segunda das apontadas características deste cantor, traduzida na impetuosidade, agressividade até, com que ataca as frases iniciais, um apelo às reservas de sonoridade de que as cordas vocais são capazes, quase que um grito, nunca caindo, até ao fim, na dolência embaladora, de que outros fatalmente lançariam mão.

Sousa, A. 1981. O Canto e a Guitarra na Década de Oiro da Academia de Coimbra (1920-1930). Coimbra, Comissão Municipal de Turismo, pg. 28 a 30

Edmundo Bettencourt (Funchal, 1889 — Lisboa, 1973) foi um cantor e poeta Português notavelmente conhecido por interpretar Fado de Coimbra e pelo seu papel determinante na introdução de temas populares neste género musical.
Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra, foi funcionário público, até ser despedido por o seu nome figurar entre os milhares de signatários das listas do MUD, desenvolvendo, então, a atividade de delegado de propaganda médica. Integrou o grupo fundador de Presença, cujo título sugerira, e em cujas edições publica O Momento e a Legenda. Dissocia-se do grupo presencista em 1930, subscrevendo com Miguel Torga e Branquinho da Fonseca uma carta de dissensão, onde é acusado o risco em que a revista incorria de enquadrar o "artista em fórmulas rígidas", esquecendo o princípio de "ampla liberdade de criação" defendido nos primeiros tempos"
… Frequentou os cafés Royal e Gelo, onde se reuniu a segunda geração surrealista, … Com efeito, o versilibrismo, o imagismo e certa atmosfera onírica e irreal conferem à sua poesia um lugar de destaque no segundo modernismo, estabelecendo, simultaneamente, a ponte com o vanguardismo de Orpheu e com tendências surrealistas e imagistas verificadas em gerações posteriores à Presença.

Acedido em 21.10.2015, em https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmundo_Bettencourt

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por Rodrigues Costa às 20:09

Sexta-feira, 06.11.15

Coimbra e as suas personalidades: Artur Paredes

Artur Paredes … nasceu em Coimbra, onde num Colégio iniciou os seus estudos, duplamente órfão desde tenra idade. Em Coimbra viveu, bancário de profissão, até que, já no 1.º lustro da nova década (1920-1930), a subida de categoria o transferiu para Lisboa …
Posto que não chegasse a ingressar na nossa Academia, foi com académicos de sucessivas gerações que sempre conviveu, perfeitamente integrado no ambiente estudantil, como familiar académico sempre considerado, pois o seu coração, o seu temperamento, a sua sensibilidade nunca deixaram de cultivar essas relações opcionais, sendo certo que as entidades diretivas do nosso foro escolar nunca dispensavam a sua válida colaboração, colocado sempre à cabeça de qualquer programa, como atrativo cimeiro.
Mormente o Orfeon e a Tuna, nas consagradas digressões pelo país e estrangeiro – a Espanha, a França e o Brasil que o digam – faziam gala na ostentação da aura a que se guindara, como aval de um triunfo certo da embaixada! E nunca deixou de ser convidado, afastado muito embora da sua terra natal, a colaborar nas comemorações nas mais relevantes efemérides estudantis, em que esteve presente, ultimamente já na companhia de seu filho Carlos.
Precisamente por tudo isto é justamente considerado uma das glórias do património espiritual académico … Pertence a uma família de cultivadores da guitarra. Era guitarrista seu tio Manuel Paredes … Lembra-se ainda, como há dias me revelou, de ouvir tocar seu avô. Mas veio a receber, indubitavelmente, a veia artística que já convergia em seu pai, Gonçalo Paredes …
A glória de Artur Paredes não reside apenas na excelência da dedilhação, na performance imprimida aos motivos preferidos, quase todos da sua criação, ou no requinte da interpretação com que revestiu temas alheios, a que conferiu auréola de valorização.
Seria muito, mas não era tudo.
A dimensão do seu triunfo espraia-se também na inovação imprimida ao habitual sistema de utilização da mão esquerda, a que fez aliar modificações na estrutura do instrumento, na certeza de que só assim atingiria as coordenadas dum outro horizonte, a que nenhum coevo ou posterior epígono teria sido ou virá a ser capaz de subtrair-se.
E assim cuidou da modificação anatómica do instrumento, alargando-lhe a escala, elevando o nível da pontuação, aumentando a altura das ilhargas, no objetivo de uma maior pureza de notas, isoladas ou em associação, e de uma necessária ampliação do campo de ressonância …
Quanto ao outro aspeto, o referente ao efeito melódico, travejamento do tema, detonação da frase – a orquestração, digamos – atenda-se a que tudo ali era desenhado, orientado e executado num sentido profundamente «linear» …
Tal o segredo de Artur Paredes que, sem perder o sentido lírico ínsito na veia tradicional do nosso povo, arvorou o pendão da modalidade orquestral da guitarra portuguesa.

Sousa, A. 1981. O Canto e a Guitarra na Década de Oiro da Academia de Coimbra (1920-1930). Coimbra, Comissão Municipal de Turismo, pg. 20 a 23.

 

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por Rodrigues Costa às 10:45

Quinta-feira, 05.11.15

Coimbra e as suas personalidades: Flávio Rodrigues da Silva

Foi um importante compositor português e executante de guitarra portuguesa, variante Guitarra de Coimbra …
A sua influência no tocar e no compor de guitarristas estudantis revelou-se intensa.
Foi autor de «Variações em mi menor», «Variações em ré menor» (n.º 1, n.º 2, n.º 3 e n.º 4) e de diversas valsas, por vezes com origem em temas do folclore da região: «Valsa em Fá» (= «Canção de Bencanta»), «Valsa em Lá Menor», «Valsa em Sol Maior».
Normalmente não utilizava 2.º guitarra e era acompanhado por duas violas.
Entre os cantores que acompanhou podem mencionar-se Augusto Camacho e Fernando Rolim, enquanto que guitarristas como Abílio Moura, Manuel Branquinho (1929-1999) ou ... António Portugal (1931-1994) se podem enquadrar no número dos seus 'discípulos'.

Acedido em 18.10.2015, em https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Rodrigues_da_Silva 

Flávio Rodrigues da Silva nasceu em Coimbra, no dia 29 de Outubro de 1902, faleceu a 23 de Agosto de 1950.
Figura típica do imaginário romântico estudantil e memória grata à cultura popular coimbrã … Homem do povo, virtuoso da guitarra toeira, barbeiro humilde … representa bem o lado sombrio da Canção de Coimbra, sistematicamente negado pelos especialistas de serviço: uma guitarra de Coimbra que teria sido monopólio de estudantes universitários; uma guitarra de Coimbra que não teria existido antes de Artur Paredes ter norteado a intervenção do modelo hodiernamente consagrado.

Flávio e a sua época
Augusto da Silva Louro (violista)
Executante de violão, acompanhador de Flávio entre 1919 e 1927, funcionário dos Correios.

Fernando Rodrigues da Silva (violista)
Barbeiro, executante de violão, irmão e acompanhador de Flávio, tornou-se o principal ensinante de guitarra ativo na cidade entre 1947 e 1964

José Lopes da Fonseca (Trego) (violista)
Barbeiro, funcionário do Magistério Primário, ator amador, executante de violão, serenateiro.

Carlos da Silva Moreira (cantor)
Tenor, cantor de temas de serenata, cobrador e funcionário municipal

Alexandre da Silva Louro (cantor)
Alfaiate, cantor de temas de serenata e de opereta

Raúl de Carvalho Freitas (cantor)
Cantor futrica de árias da Canção de Coimbra

José Maria dos Santos (violista)
Executante de violão, acompanhador de Flávio Rodrigues, jornalista, funcionário do quadro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

Abílio Madeira (violista)
Executante de violão, acompanhador de Flávio Rodrigues nos anos vinte e trinta, funcionário administrativo da Imprensa da Universidade de Coimbra.

Divisão de Ação Cultural. 2002. Flávio Rodrigues da Silva. Centenário do nascimento do guitarrista. Coimbra. Câmara Municipal de Coimbra, pg. 16, 18 a 21

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por Rodrigues Costa às 10:09

Quarta-feira, 04.11.15

Coimbra e as suas personalidades: Nomes do fado de Coimbra

Quando, como escolar, me incorporei (Afonso de Sousa) na Academia de Coimbra, já dela, ou do seu ambiente artístico, se haviam afastado ou se avizinhavam da deserção credenciados cultivadores do canto e da guitarra, de cujas modalidades os da minha geração foram não menos reverenciados continuadores.
Enquadravam-se naquele afastamento os nomes de Manassés de Lacerda, António Menano, seus irmãos Francisco, Alberto e Paulo, Roseiro Boavida, Agostinho Fontes, Paulo de Sá, Borges de Sousa, plêiade de que ainda restavam, cursando estudos um Aires de Abreu, um Aduzindo da Providência, um Lucas Junot …
Em idênticas circunstâncias de temporalidade se deverão contar Edmundo de Bettencourt e Artur Paredes e que, já afamados em 1920, atravessaram todo este decénio …
Desconheciam-se ainda os futuros pares, adventícios reforços da mesma constelação, colunas de um empório cultural que a Academia jamais logrou superar … estou a lembrar-me dum Luís Goes, dum Zeca Afonso, dum Jorge Tuna e, sobretudo … desse genial Carlos Paredes, em cujas mãos se entregaram os últimos segredos dum sortilégio de que a guitarra, até Artur Paredes, se havia mostrado instrumento de cioso engenho.
Efetivamente, Armando Goes, Paradela de Oliveira, Albano Noronha, Almeida d’Eça, Laurénio Tavares, José Pais de Almeida e Silva surgiram ou evidenciaram-se só por volta de 1923/1924 … mas ainda dentro do aludido ciclo, se viram despontar – um Serrano Batista, um Lacerda e Megre, um Felisberto Passos, um Jorge Alcino de Morais (Xabregas), um Fernando Pinto Coelho, outros não citando porque Pinho Brojo. António de Portugal, João Bagão, Luís Goes, Fernando Rolim, embora próximos, se revelaram somente no ciclo ou ciclos imediatos.
A guitarra de Coimbra, como instrumento criador de arte, veículo de comunicação de arte, impulsionador de transportes emocionais auditivos, emancipou-se … criando nas paragens do Mondego, um estilo «sui generis», de «variações», composições parcelares curtas, mas que, num lógico encadeamento, estruturando uma característica composição a que o autor, consoante o estilo imprimido (alegre, triste, rápido ou aligeirado), atribuirá um título condizente.
Foram afamados executantes, a partir do já lendário Hilário, (que não se limitou a cantar) Alexandre de Rezende, mais compositor e cantor do que executante, Paulo de Sá, Francisco Menano, Sampaio Mansilha, Manuel Alegre, Borges de Sousa, João Duarte de Oliveira, suponho que também João de Deus Ramos … sendo de justiça não omitir, posto que não académicos, os nomes de Antero da Veiga, Gonçalo Paredes – o patriarca de uma geração inultrapassável -, seu irmão Manuel Paredes, Flávio Rodrigues.

Sousa, A. 1981. O Canto e a Guitarra na Década de Oiro da Academia de Coimbra (1920-1930). Coimbra, Comissão Municipal de Turismo, pg. 13 a 19

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por Rodrigues Costa às 21:13

Terça-feira, 03.11.15

Coimbra e o «Chamado Fado de Coimbra»

Fado de Coimbra?
Mas a toada coimbrã, apregoada sob essa designação e como tal já universalmente reconhecida, deverá, efetivamente, enquadrar-se na veia paradigmática do «Fado» propriamente dito?
Debrucei-me um pouco sobre … «fado lisboeta» para poder estabelecer uma linha de diferenciação com o «chamado fado coimbrão», ficando em melhores condições para justificar o cuidado que tive – e quero ter – em não utilizar a designação «Fado de Coimbra», antepondo ao título, cautelosa e restritivamente, o classificativo de «o chamado» - o «Chamado Fado de Coimbra».
E não é agora que se me antepõe a reticência. Num apontamento marginal de um livrito meu (quando a propósito da «revelada tendência de Luís Goes para a trova, balada ou canção, afirmei não hesitar tê-lo como um percursor das novas toadas, seu contemporâneo «Bettencourt»), já então escrevi: “E se não inculco este género de antípoda do «chamado» fado de Coimbra, é porque «verdadeiramente em Coimbra não houve fado», mas tão somente «canção», por vezes de reconhecida sentimentalidade, é certo, mas nunca enformada em temas trágicos ou fatalistas, tão específicos daquela efetivamente depressiva composição, em que Lisboa se louva e a minha sensibilidade também não enjeita”.
… Ao contrário do que sucede com a lisboeta, os compositores de Coimbra constroem as suas composições «abstratamente» (música por música), isto é, valem-se de uma fonte instintivamente criadora, dum espontâneo fogo interior, «sem disporem ainda de um tema literário a musicar», seja a tradicional quadra, seja outro poema,( «exceção para o soneto, em que se revelou mestre D. José Pais de Almeida e Silva, infelizmente sem continuadores; exceção ainda para as conhecidas «Carta da Aldeia» e «Carta de Longe», realçadas na voz de oiro de António Menano).
Não é curial, nem didática, a invocação do próprio testemunho. Releve-se-me, pois, a citação: Duas canções que vejo gravadas em discos por Almeida d’Eça, António Bernardino, Armando Goes e Luís Goes, compu-las quando ainda não tinha premeditado a letra, pelo que julgo da mesma forma terem procedido outros compositores.
Enfim: libertos desse condicionalismo, tantas vezes prejudicial à espontaneidade criacional – e na espontaneidade é que se revelam a garra, o talento e o génio – as composições resultam necessariamente «mais leves, menos arrastadas, consequentemente mais acessíveis e perduráveis».
… Estamos, assim, nitidamente, face aos primeiros pontos de divergência … na congénere coimbrã, toda cançonetista, airosa e leve, a que bem assenta a designação de «canção», a «Canção de Coimbra», ou mesmo, (por condescendência a uma tradicional nomenclatura, arreigada no tempo), «Fado Canção de Coimbra».
E isto se diga em defesa da pureza daquilo que eu considero o «Chamado Fado de Coimbra»

Sousa, A. 1981. O Canto e a Guitarra na Década de Oiro da Academia de Coimbra (1920-1930). Coimbra, Comissão Municipal de Turismo, pg. 5, 8 a 13

 

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por Rodrigues Costa às 11:28



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