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A' Cerca de Coimbra



Quarta-feira, 16.09.15

Coimbra, conflitos na Sé diocesana

Mas os indivíduos que deviam repetir com melhor fortuna os ataques contra a coroa já ocupavam as duas principais sés do reino, a de Braga e a de Coimbra: aquela metropolita; esta a da capital
… Por morte do célebre Estêvão Cabral, o cabido de Braga elegera arcebispo Silvestre Godinho, que partindo para Roma a receber o pálio, só de lá voltara em 1231. Entretanto, o bispo D. Pedro, que no meio da sua loucura fora mais prudente que os outros prelados, evitando as lutas com o poder civil, evitava também agora as consequências da animadversão do clero contra ele por esse facto, dirigindo-se à Itália a depor perante o pontífice o báculo pastoral. Como metropolita de Coimbra, o sucessor de Estêvão Soares foi então incumbido de executar o castigo que o papa resolvera dar àqueles membros do clero conimbricense que com o seu bispo haviam preferido a tranquilidade a correrem os riscos que o resto da sua classe afrontara sem titubear. Gregório IX, encarregando este negócio ao novo arcebispo, ordenava-lhe que expulsasse dos respetivos benefícios todos aqueles que houvessem sido providos pelo bispo depois da sua traição à causa da Igreja; que restituísse os que tinham sido expulsos e atrozmente perseguidos por não quererem obedecer aos ímpios mandados do seu chefe; que desse por nulas as excomunhões fulminadas por D. Pedro depois da sua deslealdade a Estêvão Soares; que, finalmente, privasse do governo da diocese dois sobrinhos do arrependido prelado que este, partindo para Itália, deixara por seus vigários. Se o arcebispo executou à risca as determinações da Cúria ou se na aplicação as modificou, é o que ignoramos. Sabemos só que, falecendo D. Pedro em 1233, antes de dois anos um novo bispo, mestre Tibúrcio, estava eleito para aquela diocese. Era este prelado um dos que no futuro deviam preparar com a queda do trono (deposição de D. Sancho II) a vingança que por anos debalde tentara obter a Igreja.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. IV. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 59 e 60.

 

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por Rodrigues Costa às 11:26

Terça-feira, 15.09.15

Coimbra, a lenda de Martim de Freitas

Diz-se que, nos últimos tempos, de todas as povoações importantes do reino apenas restava ao rei a capital. Uma tradição, cujos fundamentos são, aliás, incertíssimos, vai acorde com este sucesso, que também carece de certeza absoluta. Refere-se que, partindo Sancho II para Castela, deixara por alcaide de Coimbra um certo Martim de Freitas. Pôs o conde de Bolonha estreito assédio ao castelo. Nem as promessas, nem os combates puderam reduzir os cercados, que no meio das maiores privações resistiram por largo tempo, até que chegou a nova da morte de Sancho em Toledo. Então o leal alcaide, pedindo seguro a Afonso de Bolonha, passou pelo campo dos sitiadores e, dirigindo-se à antiga capital de Espanha, fez abrir o túmulo do rei para com os seus próprios olhos saber se, na verdade, morrera. Certificado do triste sucesso, meteu no braço do cadáver real as chaves do castelo, cuja guarda lhe fora confiada. Depois, tirando-lhas de novo, voltou a Portugal e entregou-as a Afonso, abrindo as portas aos seus soldados; e como o príncipe, admirado de tanta fidelidade, quisesse conservar-lhe a alcaidaria, ele, longe de aceitar, amaldiçoou qualquer dos seus descendentes que recebesse castelo de rei algum e por ele fizesse menagem. A história do cerco de Coimbra, sem ser impossível, não é, porventura, mais que uma destas lendas em que o povo costuma resumir os factos que caracterizam uma época notável e atribuir a um indivíduo só, poetizando-as, as ações que diversos praticaram. Martim de Freitas é o símbolo dos homens que, na queda de Sancho, souberam respeitar o pundonor de cavaleiro e a religião do juramento. Que importa se o cerco de Coimbra foi como a tradição o refere ou se o povo o moldou pelas formas da sua rude mas generosa poeira? Que importa, sequer, que Martim de Freitas existisse, quando os monumentos nos asseguram que Afonso encontrou naquela obra de usurpação a repugnância de muitos ânimos firmes na sua lealdade?

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. IV. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 113 e 114

 

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por Rodrigues Costa às 20:27

Sexta-feira, 11.09.15

Coimbra, rapto da rainha D. Mécia

O argumento, porém, mais decisivo de que todos os meios serviam aos inimigos de Sancho (II) para o oprimir e assegurar a seu irmão a posse do supremo poder, não transitória, mas irrevogável, seria o que se refere acerca do rapto de D. Mécia dos paços de Coimbra, acontecimento que, a ser verdadeiro, devia ocorrer durante a guerra civil de 1246 … Diz-se que Raimundo Viegas de Portocarreiro, um dos irmãos do arcebispo de Braga, acompanhado, provavelmente de outros, entrara disfarçado em Coimbra de envolta com alguns esquadrões de homens de armas do valido Martim Gil de Soverosa. A plena confiança que o rei tinha na gente de guerra deste nobre e valente fidalgo facilitava aos conjurados o acesso do paço, e eles puderam uma noite arrancar dali a rainha e, fugindo, conduzi-la à forte vila de Ourém. Debalde marchou o rei a libertar sua mulher: as tropas do conde de Bolonha, já assenhoreadas do castelo, responderam com tiros e arremessos às intimações do príncipe que, sem forças para os combater, teve de retirar-se. Foi a rainha verdadeiramente roubada? A liberdade com que nos fins deste ano, quando já a Estremadura e boa parte de Portugal obedeciam ao conde de Bolonha, ela dispunha pacificamente em Ourém de várias propriedades, rodeada de parentes e compatrícios seus, um dos quais exercia aí o mais alto cargo militar, a omissão da menor referência a Sancho no diploma que nos instrui do facto, a dificuldade, enfim, de arrancar uma mulher do leito conjugal legitimam as suspeitas de que, a ser exata a tradição, a sua partida de Coimbra fosse mais fuga que rapto. Não devia Afonso (III) poupar os meios de todo o género para assegurar para si a herança do trono, no que, como vimos, logo pensara, e as restrições impostas pela bula de deposição tornavam indispensável, para obter esse fim, impedir que Sancho tivesse um sucessor. Embora o seu primeiro passo na conjuração a que se associara houvesse consistido em promover contra o rei um processo de divórcio, a conclusão da causa seria em todo o caso demorada, e se, antes disso, Sancho tivesse um filho este poderia de futuro invocar contra o conde ou contra a sua dinastia direitos que mais de um exemplo nos diversos reinos de Espanha lhe asseguravam.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. IV. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 107 e 108

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por Rodrigues Costa às 20:53

Quinta-feira, 10.09.15

Coimbra, cortes de 1228

João de Abbeville (Cardeal, legado do papa Gregório IX para a Península) tentava reparar os males morais do reino, no parlamento ou cúria solene convocada em Coimbra nos fins de 1228, e cuja reunião, talvez, em parte se deveria à sua influência, induzia o moço e inexperiente príncipe (Sancho II) a cuidar seriamente na repovoação de Portugal. Foi, pelo menos ele que naquela assembleia, em que se achavam juntos os prelados, os barões e a máxima parte da fidalguia, contribuiu principalmente para se tratar da restauração de Idanha-a-Velha, antiga sede do bispado egitaniense; restauração que indiretamente ia promover o aumento da população não só na Beira Baixa mas também no Alto Alentejo, para onde essa diocese se dilatava então.

O poder achava-se nos princípios de 1229 definitivamente constituído, em grande parte com os elementos do reinado anterior, o que tudo indica ter-se devido à assembleia de Coimbra, onde não podiam deixar de patentear-se na sua nudez os danos que os bandos civis haviam causado ao reino. Durante este ano e o seguinte vemos Sancho dedicar-se especialmente à repovoação dos territórios mais próximos das fronteiras do Alentejo e aos preparativos para novas expedições contra os muçulmanos.

Tomadas as providências para realizar o estabelecimento de novas colónias no Norte do Alentejo, o rei partiu (em 1232) de Coimbra e, dirigindo-se àquela província, abriu a campanha, renovando os melhores dias do reinado de Afonso I.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. IV. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 32, 34 e 51

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por Rodrigues Costa às 20:23

Quarta-feira, 09.09.15

Coimbra, conflito entre Afonso II e o bispo de Coimbra

Pedro, bispo de Coimbra, depois de ter assistido ao IV Concílio lateranense (1215) voltara a Portugal. Aqui, não sabemos ao certo por que motivo, suscitaram-se entre ele e o rei sérias desavenças que levaram Afonso II a declarar-lhe crua guerra. Era o prelado de espíritos apoucados, e o terror obrigou-o a encerrar-se nos paços episcopais. Para o conservar ali como preso não foi necessário ao rei pôr-lhe guardas. Bastou dizer um dia, apontando para residência do bispo: «Aqui está o falcão e ali a garça; se a garça se mover, o falcão há-de apanhá-la». Desde então ninguém mais se atreveu a entrar no paço do bispo senão algum clérigo. Quando D. Pedro chegou a sair trazia as barbas crescidas e no ombro a cruz vermelha de cruzado. A sua inteligência começava já ou começou desde então a obscurecer-se, chegando por vezes a praticar atos de rematada loucura. Por este ou por outro motivo o rei deixou de persegui-lo, e ele submeteu-se a tudo.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. III. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 172

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por Rodrigues Costa às 11:55

Terça-feira, 08.09.15

Coimbra, início do reinado de Afonso II

Afonso, o herdeiro da coroa, contava vinte e cindo anos quando seu pai faleceu … Afonso II não podia ter sido educado (por razões de saúde), como Sancho I, nos campos de batalha.
… Todavia, apenas começou a reinar, Afonso II … tinha a peito um negócio não menos importante para ele do que o averiguar os agravos mútuos com os eclesiásticos … A prova de que, cedendo às circunstâncias, não fazia senão adiar a luta é que o chanceler de seu pai, o velho Julião, o qual, evidentemente, fora a inteligência que dirigira o duro braço de Sancho, longe de perder o valimento do novo monarca, recebia deste elogios … E, na realidade, à influência do chanceler poderemos sem receio de erro atribuir uma resolução que … se promulgou na assembleia de Coimbra (realizada em 1211) … Aí apareceram as primeiras tentativas de uma lei de amortização, isto é, de uma lei que combatesse o rápido incremento da propriedade eclesiástica, proibindo às igrejas o adquirirem novos bens de raiz, por título de compra

… Sobre a questão do privilégio do foro … tomou-se uma resolução média, determinando que nas causas das violências, injúrias e desafios os clérigos respondessem perante os respetivos bispos e nas causas sobre bens móveis ou propriedades perante os tribunais seculares.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. III. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 105 a 107

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por Rodrigues Costa às 21:52

Segunda-feira, 07.09.15

Coimbra, morte de Sancho I, o Povoador

Nos fins de Março de 1211 Sancho I, na idade ainda robusta de cinquenta e sete anos, cedera ao mal interno que o devorava. Apenas um mês ou pouco mais antes de ir repousar debaixo das abóbadas de Santa Cruz de Coimbra em sono perpétuo, recebia de Roma o arcebispo de Compostela o encargo de desagravar o clero português, com o qual, aliás, o príncipe falecera inteiramente conciliado … Havia dois anos que Sancho não só legara a Inocêncio III cem marcos de ouro no seu testamento, mas aí mesmo lhe rogava que sustentasse e fizesse respeitar as disposições nele contidas … serenados os ódios e restabelecida a paz com os prelados do Porto e de Coimbra, ele a pediu ao papa e, conjuntamente, a da absolvição que obtivera do eleito de Braga pelo arrependimento e penitência dos excessos passados.

O valor histórico dos vinte e seis anos que durou o reinado do filho de Afonso I não é, porventura menor que o do dilatado governo deste; mas os caracteres das duas épocas são tão diferentes quanto o foram os dotes e os génios dos dois príncipes que presidiram à vida política de cada uma delas. Menos hábil capitão que seu pai … Sancho I ficou mui longe de obter o renome como conquistador … Vingou-se ele, porém, nobremente, trabalhando por adquirir, e merecendo com efeito, apelido de Povoador.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. III. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 95 a 97

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por Rodrigues Costa às 12:56

Sexta-feira, 04.09.15

Coimbra, D. Afonso Henriques rei de Portugal

… os primeiros cuidados de Afonso Henriques foram o fortificar as fronteiras meridionais dos seus estados. O castelo de Leiria, que ficara destruído na passada algara dos sarracenos, considerava-se como a chave do país por este lado … A sua importância era tal que num documento pouco posterior os alvazis e demais membros do conselho municipal de Coimbra declaravam que os homens de armas do concelho que tentassem ir combater pela fé na Palestina fossem defender a Estremadura e em especial Leiria, onde, se morressem, obteriam a remissão dos seus pecados do mesmo modo que em Jerusalém.

O cardeal Guido de Vico viera por aquele tempo a Espanha como legado de Inocêncio II … O imperador (Afonso VII, de Leão) e o rei de Portugal dirigiram-se nessa conjuntura a Zamora para numa conferência assentarem as condições de duradoura concórdia. Guido, provavelmente como representante do pontífice, foi chamado a assistir à conferência dos dois príncipes que, segundo parece, resolveram amigavelmente as controvérsias… o imperador reconheceu o título de rei que seu primo tomara, e que este recebeu dele o senhorio de Astorga, considerando-se por essa tenência seu vassalo.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. II. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 114, 115

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por Rodrigues Costa às 22:12

Quinta-feira, 03.09.15

Coimbra, local da corte de D. Teresa

D. Teresa tinha-se apossado, segundo todas as possibilidades em 1116, de uma parte do território da Galiza, e com certeza era senhora de Tui e Orense no ano de 1119, em que os bispos daquelas duas dioceses seguiam a sua corte e confirmavam em Coimbra as mercês que ela fazia aos seus súbditos de Portugal. … Na assembleia de Oviedo a infanta dos portugueses tinha de certo modo definido a sua situação política relativamente a D. Urraca: a independência completa de Portugal, a sua desmembração da monarquia não estava consumada.

Os escritores modernos … esqueceram-se de lhe fazer justiça como rainha ou regente de Portugal … Todavia, durante catorzes anos os atos da viúva do conde Henrique mostram bem a perseverança e destreza com que buscou desenvolver e realizar o pensamento de independência que ele lhe legara. Cedendo à força das circunstâncias, não duvidava de reconhecer, a supremacia da corte de Leão para obter a paz quando dela carecia. Associando-se habilmente aos bandos civis que despedaçavam a monarquia leonesa, ia criando no meio dela para si e os seus uma pátria. Apesar das invasões de cristãos e sarracenos e das devastações e males causados por uns e por outros nos territórios dos seus estados, estes cresceram em população, em riquezas e em forças militares.


Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. II. Lisboa, Circulo de Leitores, pg.57 e 79

 

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por Rodrigues Costa às 22:22

Quarta-feira, 02.09.15

Coimbra, cerco sarraceno de 1117

Enquanto D. Teresa buscava assim alargar ao norte os limites dos próprios estados, aproveitando as inquietações da monarquia, os sarracenos atravessavam os ermos que se estendiam entre as fronteiras portuguesas a sul e as praças do Gharb na margem direita do Tejo, e vinham cercar o castelo de Miranda … e acometer o castelo de Santa Eulália, junto de Montemor … Os sarracenos arrasaram-no até os fundamentos e depois, retrocedendo, dirigiram-se ao de Soure. Aqui, porém, o terror dos habitantes tornara inútil o cometimento; porque, lançando fogo àquela povoação e desamparando-a haviam-se acolhidos aos muros de Coimbra. Miranda, Soure, Santa Eulália, com outros castelos que por esses tempos existiriam, formavam uma linha curva de fortificações avançadas, que defendiam a capital do distrito pelo lado do oriente, meio-dia e poente. Destruídos eles, Coimbra ficava exposta ao primeiro embate dos inimigos. Esse, talvez, foi o objeto desta entrada, feita ainda em 1116

O amir de Marrocos resolveu passar à Espanha … reunindo numerosas tropas … encaminhou-se para Coimbra. Estava desguarnecida ou derribada a linha de castelos que a defendia, e Ali veio sem resistência assentar campo em volta dela (Junho, 1117). D. Teresa achava-se então aí. Tal e tão repentina foi a invasão dos sarracenos que a muito custo a rainha se pôde salvar dentro dos mutos da cidade. Os arrabaldes ficaram reduzidos a cinzas e as fortificações foram combatidas durante vinte dias sem interrupção de um só. Defenderam-se, porém, os cercados vigorosamente, e o amir, conhecendo que era inútil o insistir, retirou-se, assolando tudo a tal ponto – diz um escritor árabe – subsistiram por largo tempo claros vestígios daquela terrível entrada. De feito, ainda sete anos depois o lugar onde existira Soure achava-se convertido em habitações de feras.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. II. Lisboa, Circulo de Leitores, pg.53, 54

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por Rodrigues Costa às 20:14



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