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A' Cerca de Coimbra



Domingo, 21.06.15

Coimbra, revolta dos seus moradores

Séculos obscuros, (a primeira Idade Média) na verdade, entre as sucessivas e violentas invasões, a fome, a peste, a rapacidade dos (vários) coletores, as fraturas litúrgicas e religiosas, a crescente ruralização da vida urbana (mesmo relativizada, caso a caso) e a incapacidade do «Estado» visigótico, ante a cupidez dos senhores «feudais», de assegurar a coesão administrativa do seu «Reino». Circunstâncias que poderão explicar, numa cidade sem bispo e a despeito da relevância que se tem pretendido atribuir-lhe, a escassez reconhecida de marcas arquitetónicas documentadas para este período.

Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg. 190

Segundo parece poder concluir-se … os moradores de Coimbra, oprimidos por uns certos Munio Barroso e Elbraldo ou Ebrardo, talvez chefes militares, exatores de fazenda, amotinaram-se, expulsando-os da cidade. Devia suceder isto na ausência do conde. Voltando, ele se dirigiu a Coimbra; mas os habitantes resistiram-lhe, e Henrique teve que pactuar com eles. O resultado destes sucessos foi obter a povoação uma carta de foral com amplos privilégios, especificando-se as contribuições e declarando-se expressamente que nem Munio Barroso nem Elbraldo tornariam a ser admitidos dentro dos seus muros, e que o conde, satisfeito de o haverem, enfim, recebido, poria em esquecimento tudo o que contra ele tinham até aquele dia praticado.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. II. Lisboa, Circulo de Leitores, pg.31 e 32

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:30

Sábado, 20.06.15

Coimbra no final do período romano

Não é hoje fácil, sem esforço de imaginação, reconstituir com verosimilhança o que foi o processo de implantação do «alcácer de Qulumryya». Como escreveu Borges Coelho … «é necessário, antes do mais, varrer da paisagem toda a imensa massa construída, apagar as casas e o asfalto, completar e aguçar os cabeços das colinas …»
… De facto, de origem antiquíssima, … tudo leva a crer, no qualificativo «oppidum» com que Plínio designara «Aeminium», naquela que constitui a sua mais antiga referência escrita e que a arqueologia, pouco a pouco, parece desvendar, Coimbra, erguida sobre um «monte redondo», como no século XII, a desenhava Idrisi; numa eterna confluência estratégica (de valor militar, económico e cultural) entre o sul e o norte, o litoral e o interior; «cidade-ponte», como alguém lhe chamou; ostentaria por certo, no declinar da Antiguidade, os vestígios grandíloquos do seu passado patrício, emergindo da ingrata topografia fornecida por uma colina, disposta, na verdade, em ferradura, vincada a meio da «cutilada» que a castiça expressão de Fernandes Martins consagraria: o fórum monumental, com o seu criptopórtico, o aqueduto, o cemitério, tudo leva a crer, junto a S. Bento; a ponte, também, unindo a estrada (de traçado polémico), que ligava «Ulissipo» e «Bracara Augusta»; um provável porto fluvial, umas termas, talvez, junto a Santa Cruz; talvez ainda um arco triunfal, ao cimo da couraça, um teatro, um circo, eventualmente; implantado tudo, num esquema de aproximada ortogonalidade; marcado tudo, já, sem dúvida, de um selo de declínio que os sucessos terminais do Império justificariam e a própria «domus» do Paço das Escolas fielmente testemunhará; como minado estaria (a ter existido) o «plano hipodâmico», pela utilização orgânica característica da Antiguidade Tardia, decorrente da contração demográfica e económica e da perda de relevo institucional. E muralhas ainda, parece, implicadas aparentemente na designação de «oppidum» exarada nas palavras de Plínio, a cuja sombra (como quer que tivesse sido) teria corrido a vida nos obscuros séculos da primeira Idade Média.

Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg. 190

 

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por Rodrigues Costa às 17:33

Sexta-feira, 19.06.15

Coimbra, comunidade judaica 3

Desde 1338, pelo menos, existia, porém, uma outra judiaria, intramuros, cuja existência foi revelada por J. Pinto Loureiro … Chamava-se Judiaria da Pedreira. Aquele investigador, citando documentos de 1338 a 1414, localizou-a, com muitas dúvidas, no troço superior da rua do Loureiro, entre a igreja de S. Salvador e o beco do Loureiro. Parece-nos, porém, que a pedreira que deu nome a esta judiaria era a de S. Sebastião. Esta ficava na área onde no século XVI se ergueu o Colégio das Artes e tomava seu nome de uma capela que aí havia dedicada àquele mártir e que foi demolida para se construir o colégio.

A delimitação dos bairros judaicos suscita-nos uma questão: seriam tais bairros circunscritos por algum muro, ainda que fraco e só simbólico?
Um documento de 1357 … a judiaria da rua do Corpo de Deus …(os judeus estavam) morando “em sa Cerca apartada e sso chave e guarda d’El-Rey”

J. Alarcão. As Judiarias de Coimbra. In Coimbra Judaica. Actas. 2009. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 25 e 26

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por Rodrigues Costa às 10:08

Quinta-feira, 18.06.15

Coimbra, comunidade judaica 2

Se D. Fernando, na década de 1370, demarcou uma outra judiaria na Rua Direita – bairro que na bibliografia coimbrã é conhecido como Judiaria Nova -, o antigo bairro judaico da Rua de Corpo de Deus não foi, porém, inteiramente abandonado … O Livro do Almoxarifado mostra que, em 1395, havia aí casas «derrubadas» … Mas havia ainda muitas casas habitadas, umas por Judeus, outras por Cristãos … regista também uma «albergaria» e uma «carniçaria» dos Judeus
… revela a existência de várias ruas na Judiaria … Quem sobe a rua atual, encontra à sua esquerda um curto beco. Este é, possivelmente, tudo quanto resta de uma antiga rua … Mas havia ainda, em 1395, uma rua da Moreira … outra da Marçaria (isto é de pequeno comércio), outra do Pintosinho, além das «azinhagas» que seriam becos sem saída.
A primitiva torre dos sinos de Santa Cruz, construída antes de 1166 em terrenos adquiridos a Judeus, ficava possivelmente nessa rua hoje desaparecida mas designada em 1395 como “caminho público que vai para a ermida do Corpo de Deus”.

Se é certo que ainda havia moradores na judiaria do Corpo de Deus em 1395, não é menos verdade que D. Fernando delimitou na rua Direita uma outra judiaria, que os historiadores da cidade de Coimbra designam por Judiaria Nova, mas a que documentos do século XV chamam “judiaria do arravalde”, “judiaria de Sansam” ou “judiaria acerca de Sansam”. Desta judiaria que D. Fernando mandou instalar do lado norte da rua Direita não são conhecidos os limites exatos. Talvez tenha sido demarcada pelas ruas que hoje se chamam Nova … Direita e do Arco do Ivo, bem como pelo Terreiro do Marmeleiro e pela travessa do mesmo nome
… Documentos do século XV (desde 1405) falam da Porta Mourisca para a Judiaria … Esta “porta” que já existia no século XII … ficava, talvez, na confluência das atuais ruas Direita e João Cabreira … A Judiaria de Sansão tinha a sua sinagoga.

J. Alarcão. As Judiarias de Coimbra. In Coimbra Judaica. Actas. 2009. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 21, 22, 24

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por Rodrigues Costa às 09:53

Quarta-feira, 17.06.15

Coimbra, comunidade judaica 1

No século XII, os Judeus de Coimbra viviam num bairro fora das muralhas, na encosta que tem hoje, como arruamento principal, a Rua do Corpo de Deus … O bairro tinha cemitério próprio, o seu almocávar … E tinha sinagoga no local (ou perto do local) onde, na década de 1360, se ergueu a ermida do Corpo de Deus
… Fora de Coimbra, mas no aro da cidade, também havia Judeus. Em 950 o Conde Ximeno Duas e sua mulher, Adosinda Guterres, doaram ao Mosteiro de Celanova (Galiza), prédios que haviam comprado a Judeus em Quites (Taveiro)

… Um documento de 968 refere-se ao Outeiro de illa Senoga, que parece corresponder a Cioga do Monte (Souselas)
… Antes de 1080, D. Sesnando autorizou o estabelecimento, em S. Martinho do Bispo, de colonos vindos do sul … mas com eles poderão ter vindo alguns Judeus, porque parece ter sido erguida, a par com a Igreja, uma sinagoga. Aliás, no livro antigo de matrizes prediais de S. Martinho do Bispo existe o microtopónimo Sioga ou Cioga. Os microtopónimos Cioga e Vale dos Judeus encontram-se também na freguesia de Santa Clara
… Em 1099, a aldeia de Enxofães (hoje freguesia de Murtede, concelho de Cantanhede) “é dita villa que est de illos Hebreus”
… Quanto à comunidade judaica urbana, é certamente muito anterior à data da sua primeira atestação documental, em 1139.

J. Alarcão. As Judiarias de Coimbra. In Coimbra Judaica. Actas. 2009. Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, pg. 21 e 22

 

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por Rodrigues Costa às 09:40

Terça-feira, 16.06.15

Coimbra e D. Sesnando

Sesnando … tinha sido introduzido na corte de Sevilha no tempo de Ibn Abbad e, pelos seus talentos e importantes serviços feitos ao príncipe sarraceno, chegara a ocupar o lugar de vizir no divã, esto é, ministro ou membro do conselho supremo do amir, que o distinguia particularmente entre os seus conselheiros. Sesnando tornou-se temido nas guerras com os inimigos de Ibn Abbad; porque nas empresas que dirigia obtinha sempre prósperos sucessos. O motivo por que abandonou o amir de Sevilha para entrar ao serviço de Fernando Magno ignora-se; mas o seu procedimento posterior persuade que alguma ofensa recebida dos sarracenos a isso o instigara … Porventura entre Sesnando e os muçulmanos limítrofes alguns recontros haveria, segundo parece indicá-lo o foral dado a Coimbra por Afonso VI … Sesnando serviu lealmente até o seu último dia a causa da monarquia cristã.

Um diploma exarado no mesmo dia em que, segundo a Crónica dos Godos, Santarém caía em poder dos muçulmanos alguma luz derrama para se descortinarem as causas que tolhiam ao conde o socorrer as suas fronteiras meridionais. É ele o foral de Coimbra, Sesnando, atraindo para ali a população cristã, não organizara o município, contentando-se os novos habitadores com lhes ser assegurado por um título geral a posse hereditária das propriedades rústicas ou urbanas que se lhes distribuíam.
Depois, por quase meio século, Coimbra fora a capital de um distrito, e ainda no tempo de Henrique se podia considerar como a principal cidade do condado ou província de Portugal; mas na tradição, que os documentos contemporâneos parece confirmarem, nos assegura que o genro de Afonso VI estabelecera em Guimarães a sua corte, se tal se pode dizer de uma residência incerta e quase anualmente interrompida. Coimbra, posto que, como vimos, fosse frequentada pelo conde, o qual por vezes fez aí larga assistência, tinha, como todos os lugares principais, governadores próprios sujeitos a ele, segundo sistema hierárquico da monarquia leonesa.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. II. Lisboa, Circulo de Leitores, pg.10, 31

 

 

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por Rodrigues Costa às 13:02

Segunda-feira, 15.06.15

Coimbra, a reconquista cristão vista pelo lado muçulmano

Com a morte de Almançor, em 1002, a rápida fragmentação do Califado de Córdoba, no âmbito da «2.ª fitna» e a formação do Reino aftássida de Badajoz, onde «Qulumbryya», juntamente com outras cidades do «Gharb» (Santarém, Lisboa, Sintra, Alcácer do Sal, Évora e Beja), se veria integrada a partir de 1022, é provável que a urbe não tivesse visto diminuída a sua importância militar … Desde 1057, aliás, Fernando I de Leão, atravessando o Douro, se apoderava sistematicamente de posições muçulmanas … Mas a importância que revestia a tomada de Coimbra é amplamente ilustrada pela amplitude da expedição em sua intenção, assumindo o soberano pessoalmente o comando das hostes e com esse fim se dirigindo à cidade em companhia da Rainha D. Sancha, de seus filhos e filhas e de diversos prelados … vindo a conquista a verificar-se em 10 de Julho de 1064.

segundo o relato de Ibn ‘Idari … : “E assim continuou o inimigo de Deus, Fernando – escreveria o cronista –, fortalecendo-se, enquanto os muçulmanos se debilitavam (…) até que o maldito sitiou a cidade de Coimbra (…) O maldito Fernando assediou-a agora até que a conquistou. E isso porque o seu «qa’id» - nesse tempo era um dos escravos de Ibn al-Aftas, que se chamava Randuh –, falou secretamente com Fernando para que lhe desse o «amãn» a ele e à sua família e se passaria a ele, desde a cidade, durante a noite. Então o maldito lhe deu o «amãn» e o maldito passou secretamente ao exército dos cristãos. Ao amanhecer, as gentes da cidade, já tinham feito os preparativos para a luta. Então lhes disseram os cristãos: como nos combateis quando vosso emir está connosco? A gente da cidade não tinha conhecimento daquilo e quando não o encontraram, souberam que a notícia era certa. Pediram ao estrangeiro o «amãn», mas não lhes foi concedido. Tinham-se esgotado as provisões e o inimigo de Deus sabia-o. Então esforçou-se em combatê-los, até entrar nela por assalto; como consequência, foram mortos os homens e cativas as crianças e as mulheres. E isto foi no ano 456”.
Com a conquista de Fernando Magno, encerrava-se a etapa islâmica da urbe, um amplo ciclo de três séculos e meio, longamente interrompido, entre 878 e 987, pela tomada de Afonso III e pelo domínio dos «condes de Coimbra»

Não é exatamente verdade que tenha deixado de “haver história da cidade nesse período” mesmo que esta, com efeito, se encontra praticamente por fazer … É, sobretudo, um facto, que o conjunto de informações reunido produz, essencialmente, uma sequência de «episódios», cujo real sentido em boa parte nos escapa e entre os quais, não obstante, figurará o que representa a «circunstância» que determinou a ereção do enigmático «alcácer».

Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg.164 e 165

 

 

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por Rodrigues Costa às 22:32

Domingo, 14.06.15

Coimbra, de novo cidade fronteira

Beneficiando da sua posição estratégica como cidade-fronteira – de relevância tal que a própria marca inferior («al-Tagr al Gharb») chegaria a ser designada de «al-Tagr-al-qulumriyya»; da vantagem que, em pleno «al-andalus», representava um clima atlântico e, por conseguinte, de rico alfoz proporcionado pelos campos do Mondego cujas «diferentes bondades» as várias descrições não deixariam de exaltar …; dominando uma extensa região … Coimbra mesmo que sem contabilizar, talvez, o avultado número de 5.000 habitantes que lhe tem sido atribuído, configurava, certamente, «a cidade mediterrânica implantada mais a norte no Garbe». Ao mesmo tempo e integrada embora num contexto de acelerada islamização, em particular depois da «submissão» das fronteiras levada a cabo nas primeiras décadas do século IX, a urbe parecia conservar o seu estatuto de luzeiro do moçarabismo no mundo muçulmano, como atesta, já no século X, o episódio relatado por al-Razi, a respeito de uma inscrição latina incorporada na muralha da alcáçova de Mérida e da incapacidade dos habitantes (e sua) para a decifrarem, bem como da convicção geral de que «apenas um clérigo que se encontrava em Coimbra a saberia ler». Porém, volvido um século sobre a conquista cristã, o «Gharb-al-Andalus» e, em particular, o troço que lhe correspondia da antiga «marca inferior», protagonizada por Coimbra, adquiririam uma importância súbita nos desígnios «omíadas», com a ascensão, a partir de 976, de Muhamad Ibn Abi’Amir, o poderoso «hayib» de Hisham II, no quadro da ofensiva contra os «infiéis» por ele delineada. De facto, é nesse contexto de «djihad» ou «guerra santa» que se opera a recuperação da cidade pelas forças muçulmanas, em 1 de Julho de 987 … Conquistada em três dias, segundo as crónicas, ao que parece com a cumplicidade da própria família condal, seria a urbe de novo destruída, presos (uma vez mais) os habitantes e deixada «deserta» pelo espaço de «sete anos». Contudo, a mais-valia que representava a sua situação, em pleno território de «entre Tejo e Douro», como base de apoio para novas incursões, ditaria o seu «repovoamento» (em 994?) à custa de moçárabes e muladis. Converter-se-ia então, nas palavras de Christophe Picard, na “grande place militaire musulmane d’où partaient les razias”.

Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg.163, 164

 

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por Rodrigues Costa às 10:31

Sábado, 13.06.15

Coimbra, instabilidade do domínio árabe

Desde 825/826 … parecem detetar-se perturbações em Coimbra, eventualmente justificativas da enigmática referência a um «rei mouro», de nome Alhamah, que Ramiro I de Lião teria vencido em 850 e obrigado a pagar-lhe «párias». Ao redor de 875, porém, a cidade surge designada nas fontes como capital da «cora» de Santarém, o que pressupõe uma ligação administrativa ao poder central, ao mesmo tempo que como sede do importante grupo berbere, «obediente a Córdova». No ano seguinte, contudo, era o seu território cenário das razias de Sadun al-Surumbaqui, (ou «Xurumbaqi»), apodado o «grande vagabundo», típico expoente das populações fronteiriças, explorando, em proveito próprio, as ambiguidades da malha administrativa, por seu turno aliado do muladi Abd al-Rahman b. Marwan, o «filho do galego», este em revolta aberta contra o poder omíada no quadro do surto irridentista da designada «1.ª fitna». A fidelidade «coimbrã» explicará, por certo, que, nesse mesmo ano, as tropas do general al-Barã b. Malik penetrem na Galiza «pela porta de Coimbra»; mas a atuação contínua dos rebeldes, assolando as regiões de «entre Douro e Tejo», terá minado qualquer tentativa de imposição da ordem cordovesa no extremo acidental da marca inferior, facilitando a conquista da cidade pelo conde galego Hermenegildo Guterres, ou Peres - «Tudæ et Portugaliæ Comes», às ordens de Afonso III de Leão, em 878, ficando a urbe, segundo os relatos, destruída e «erma» durante alguns anos.

Do lado cristão, desce também então, sobre a vida administrativa da cidade, um espesso véu, pouco mais se conhecendo que a transferência para Emínio, com as próprias autoridades eclesiásticas, do topónimo «Conimbriga», a breve trecho corrompido em «Colimbria» (antes de constituir a «Qulumriyya» da reconquista muçulmana) e a perpetuação do seu governo na estirpe de Hermenegildo Guterres, na qualidade de «condes de Coimbra», numa situação de autonomia em relação à Corte de Oviedo/Leão, que não deveria diferir muito, afinal, da que os Bani Danis haviam observado em relação a Córdova.


Pimentel, A.F. 2005. A Morada da Sabedoria. I. O Paço real de Coimbra. Das Origens ao Estabelecimento da Universidade. Coimbra, Almedina, pg.163

 

 

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por Rodrigues Costa às 22:24

Sexta-feira, 12.06.15

Coimbra árabe, pessoas e factos relevantes

… Logo depois desta conquista, o Algarve foi consideravelmente arabizado, sobretudo com árabes do Iémene … Na zona do Tejo e até Coimbra distribuíram-se, em grandes massas, os Berberes. Os Masmudas estavam em Alcácer e em Coimbra.

Os novos cadernos do “Al-Mqtabis” de Ibn Hayyân falam-nos na presença do príncipe de Coimbra Abu Danis ben Áwsaja, em Coimbra, na época de Ibn Marwân al-Jilliqi. A “Jamhara” de Ibn Hazm diz-nos que os Banu Dânis se fizeram fortes em Coimbra e Alcácer

As figuras notáveis árabes de que se fala a propósito de Coimbra, são: a) Dawud bem Já’far ben al-Sagir, de Córdova, que ouviu lições de Málique e foi Cadi de Coimbra; Muhãriq ben al-Hakan ben Un´afiri al-Askãf, de gente de Córdova, que morreu mártir, lutando pela fé islâmica, em frente de Coimbra, muito provavelmente quando da conquista de Al-Mansur ben Abi ‘Ãmir; c) Nuhammad ben Abi’l Hasãn Tãhir al-Qaysl, de Múrcia de ascendência real, que tomou parte nas operações militares para a ocupação de Coimbra por Muhammad ben Abi âmir, al-Mansur, de Córdova …

Domingues, J.D.G. 1971. Aspectos da Cultura Luso-Árabe. Separata das Actas do IV Congresso de Estudos Árabes e Islâmicos, pg. 18 e 19.

… nas costas da Península apareceram pela primeira vez novos e inesperados inimigos … Eram estes os normandos. Aqueles bárbaros da Jutlândia, saindo do Báltico em frágeis barcas, espalhavam o terror … A Galiza foi o primeiro teatro das suas devastações. Desembarcados na Corunha (853), Ramiro I, que então reinava em Oviedo, enviou contra eles forças que os desbarataram … assolando de novo as costas do Gharb, enquanto Abdu r-Rahman mandava ordens aos caides de Santarém e de Coimbra para guarnecerem as praias e afugentarem estes incómodos hóspedes.

Herculano, A.1987. História de Portugal. Vol. I. Lisboa, Circulo de Leitores, pg. 114

 

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por Rodrigues Costa às 11:47



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