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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 12.12.19

Coimbra: Tascas que já não existem 5

- TASCA DO PINTO
Localização: Rua do Cabido

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Tasca do Pinto

Localizada no extremo da Rua do Cabido, junto ao Largo de S. Salvador, no centro nevrálgico da Alta, sempre teve com a comunidade universitária.
A Tasca do Pinto, O Pinto, ou O Pintos, como mais normalmente é designada, embora o nome oficial seja Casa Pinto, Comidas & Petiscos, primeiramente tinha como fregueses funcionários da Universidade e dos Hospitais da Universidade, que gradualmente foram sendo substituídos por estudantes.
Os HUC e algumas faculdades foram transferidos para outras zonas da cidade, os funcionários da Reitoria e das faculdades que ficaram foram perdendo o hábito de aí virem, mas deixaram uma marca da sua passagem. Foram os insistentes pedidos de ‘uma sopinha’ que fez juntar as refeições ao tradicional serviço de vinhos e petiscos.
A taberna que nos anos 40, O Espanhol aí criara num armazém de lenha para uso doméstico, viera substituir uma outra destruída pelo Estado Novo quando arrasou parte da 'alta' para edificar o complexo universitário.

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Tasca do Pinto, cartaz assinado por clientes

O casal Luís Pinto e Adelina tomou-a de trespasse em 1978, poucos meses após regressar de Moçambique, e conferiu uma nova identidade, à antiga taberna, transformando-a num ex-libris da 'alta'.
Coimbra que na sua vida viram apenas para tomar o comboio na partida para Moçambique, ficou na ideia deste casal do concelho de Meda, e para ela rumaram na esperança de dar um melhor futuro às filhas.

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Tasca do Pinto, decoração

A Queima das Fitas, em maio, e a Latada, em outubro/novembro, em que a Universidade festeja a entrada de novos estudantes, eram momentos marcantes na taberna do Pinto. O movimento intenso de estudantes, que contava também com familiares e antigos estudantes que a frequentaram há 10, 20 e mais anos.
Nas paredes das duas salinhas, ornamentadas com meia dúzia de mesas, ficaram testemunhos da passagem – fotos, recortes de jornal, ou até desenhos e pinturas, algumas delas a evocar o tempo passado na Taberna do Pinto.
Por cima do balcão, tal como bandeiras desfraldadas, dezenas de pontas de gravatas negras testemunham a passagem por aí de estudantes a festejar o rasganço do traje académico, quando terminam o curso.
Acabaram as tradicionais pipas de vinho, tal como o progresso as fez desaparecer de outras tascas da cidade, mas o vinho continuava a ser servido ao copo, a acompanhar os já confecionados petiscos que faziam crescer a água na boca: a sardinha frita de escabeche, a sardinha albardada, o carapau frito ou as iscas de fígado.
Nas refeições faziam honras da casa, o arrozinho de pimentos e a bifaninha, bem temperada com alho, sal, um pouco sal, colorau e vinho branco.
A vida do casal Adelina e Luís, estava dentro daquelas portas!


- TASCA DA PALMIRA, depois MIJA-GATO
Localização: Rua do Carmo
Pelos anos vinte e trinta do século XX, ao fim do dia, quando as oficinas se iam fechando a tasca da Palmira era passagem obrigatória dos mestres serralheiros Daniel Rodrigues e Albertino Marques. Era raro o dia que não aparecesse também o pintor Álvaro Eliseu e o canteiro João Machado Júnior para petiscar, beber um copo e cavaquear.

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Tasca do Mija-Gato

Mais tarde este lugar de encontro na rua do Carmo, com uma mudança de proprietários passou a chamar-se “Mija-Gato”, com a iconografia do nome estampado no vidro das portas texanas.
O espaço foi recentemente comprado pelo proprietário do adjacente Restaurante Cantinho dos Reis.

Carlos Ferrão

 

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por Rodrigues Costa às 11:24

Terça-feira, 10.12.19

Coimbra: Peças levadas do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra

Numa entrada publicada há algum tempo que teve por base uma comunicação da Senhora Dr.ª Ana Paula Machado, Conservadora no Museu Nacional de Soares dos Reis, do Porto, abordava a existência de uma série de 24 placas de esmalte pintado “subtraídas” ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
Prometi, então, voltar a este tema.

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Cena da Verónica, integra a série de vinte e seis placas de esmalte pintado

A razão dessa promessa decorreu de, na referida publicação, essa série de placas ser classificada como datando do 1.º terço do Século XVI e como sendo uma das séries sobreviventes mais completa pelo que constitui hoje uma referência incontornável entre as suas congéneres europeias; mais à frente, a autora refere que este conjunto não encontrou na última revisão de programas e percursos do Museu Soares dos Reis, enquadramento adequado, estando presentemente em reserva.
Quer isto dizer, traduzindo para uma linguagem entendível por não especialistas, que as referidas peças estão, há largos anos, devidamente acondicionadas e guardadas, longe dos olhares do público.
Confesso que, ao aperceber-me desta situação, senti uma grande revolta, tendo mesmo escrito uma petição, dirigida ao Ministério da Cultura, que teria d ser, obviamente, apoiada pelo Bispado e pela Câmara de Coimbra, no sentido de solicitar o regresso das referidas placas, ora acondicionadas num qualquer caixote, ao local de onde haviam sido retiradas, isto é, ao Santuário do Mosteiro de Santa Cruz.

Acabei por arquivar a petição, porque já não acredito na eficácia desta forma de participação cívica.
Sinceramente, por esta e por outras razões similares, estou cansado de lutar contra os moinhos de vento da ignirância, do imediatismo da política e do desinteresse dos decisores políticos – de todos os quadrantes – pela nossa história, pelo nosso património e pela nossa cultura.
Peço desculpa pelo meu desabafo.

Em ordem a este tema pretendo hoje chamar a atenção para um estudo – a que voltarei – de Rocha Madail, e no qual colhi as seguintes informações:

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«Casa das reliquias» de Santa Cruz

Os esmaltes, que o próprio Diretor interino da Academia de Belas Artes do Porto em 1864 aceitava «terem estado na banqueta do Altar do mesmo Santuário» de Santa Cruz de Coimbra, são vinte e seis preciosíssimas laminas de cobre esmaltado com viva policromia e ouro, medindo 8x10 cm cada, agrupadas em políptico sobre tabuleiro de madeira, e representando cenas da vida de Cristo.
Trabalho das célebres oficinas de Limoges da primeira metade do século XVI, o seu finíssimo desenho segue muito de perto outros tantos passos da coleção conhecida por «pequena Paixão de Cristo», de Albrechr Durer.
Joaquim de Vasconcelos ocupou-se deles no fasciculo 9 da «Arte Religiosa em Portugal», e o Sr. Dr. Armando de Matos dedicou-lhe desenvolvido estudo de identificação em 1934 na revista «Museu»; por informação que então lhe fornecemos, extraída do presente inventário, já nessa data ficou incontroversamente regista a sua proveniência, que Joaquim de Vasconcelos suspeitava ser a «casa das reliquias» de Santa Cruz.

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«Casa das reliquias» de Santa Cruz, pormenor 1

 

Igreja de Santa Cruz. Santuário 06 a.jpg

«Casa das reliquias» de Santa Cruz, pormenor 2

Fico com a esperança de que este meu lamento incentive outros, mais jovens e com mais força, a lutarem pela devolução das peças ao local de onde nunca deviam ter saído.

. Madail, A. G. R. 1938. Inventário do Mosteiro de Santa Cruz à data da sua extinção em 1834.
. Machado, A.P. A propósito de três itens de inventário. In: O Património Artístico das Ordens Religiosas entre o Liberalismo e a atualidade, n.º 3. 2016. Pg. 161-172

 

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por Rodrigues Costa às 10:39

Quinta-feira, 05.12.19

Coimbra: Tascas que já não existem 4

- COVA FUNDA DO CAREQUINHA
Localização: Av. João das Regras, um pouco mais a jusante, da antiga ponte de ferro.

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Cova Funda, publicidade

À saída da Ponte de Santa Clara, ficava a taberna de Manuel Claro, o conhecido "Carequinha", que possuía magnificas e aprazíveis retiros. O seu proprietário era um homem com muita piada que se tornou popular por mascarar-se todos os anos pelo Carnaval percorrendo as ruas da cidade.

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Cova Funda, publicidade

A Cova Funda do “Carequinha” era construída em madeira, género barracão, tinha umas pequenas vitrinas onde expunha brinquedos de lata e de celuloide, bijutarias, alguns artigos religiosos e pequenos livros de histórias que vendia ali e também na Feira de São Bartolomeu. Quem ficasse encantado com o canto dos canários do “Carequinha”, era também ali que os vendia com ou sem gaiola. A taberna, ficava na cave ao fundo de uma escadaria, espaçosa tinha mesas de pinho e bancos. A Cova Funda era um estabelecimento característico, de certa originalidade, em que o cliente encontrava belos petiscos, saborosas frutas, ótimos vinhos das melhores procedências do país e interessantes distrações proporcionadas pelo seu proprietário, Sr. Manuel Fernandes Claro.
Nos dias das feiras dos 7 e 23 a casa estava particularmente cheia, mas era um local muito escolhido para se organizarem almoços de datas comemorativas de formatura e outros.
A Cova Funda do “Carequinha” como era conhecida a casa, acabou em 1951.

- ZÉ NETO
Localização: Rua das Azeiteiras
No princípio, era uma taberna e casa de pasto.
Um dia, em 1956, para melhor receber os clientes, Zé Neto decidiu transformar a taberna e abrir um restaurante.

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O Zé Neto. pintura de S. Harrison, 1965 (Coleção Particular)

Eram vários os fatores que tornaram o "Zé Neto" um local de referência. A qualidade e frescura dos produtos, a cozinha familiar e, claro, a presença simpática e diária do Senhor Zé Neto, um homem simples, que faleceu em 2017 com 89 anos e que muito acarinhava todos os que visitavam a sua casa.

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O Zé Neto

O ambiente familiar e acolhedor, manteve-se com a sua única filha, D. Esmeralda, licenciada em Engenheira Química, que abdicou da carreira para apoiar os pais no restaurante, e garantia na cozinha, a melhor comida tradicional portuguesa, que marcava todos os clientes e os obriga a voltar.
A sala sempre foi pequena, mas nunca faltou espaço para acolher os amigos que se reuniam em jeito de tertúlia, onde as conversas fluíam entre uma petinga frita ou jaquinzinhos, a famosa açorda de coentros e um bom copo de vinho tinto.
A 3 de Agosto de 2019, foi o último dia que o número 10 da rua das Azeiteiras abriu as portas para servir os clientes.
A alma da Baixa da cidade ficou mais pobre. O Restaurante “Zé Neto” fechou!

Carlos Ferrão

 

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por Rodrigues Costa às 10:37

Terça-feira, 03.12.19

Coimbra: Por portas travessas. Histórias de miúdos da velha Baixa de Coimbra

Com esta entrada pretendo chamar a atenção de todos aqueles que, como eu, se assumem como coimbrinhas, sejam salatinas, chibatas ou da baixa, para um livro recentemente reeditado, com o título Por portas travessas. Histórias de miúdos da velha Baixa de Coimbra. É um relato, escrito na primeira pessoa, das vivências de infância e juventude do Carlos António Pinto dos Santos, nado e criado na Rua das Padeiras.
Estou convicto que o gostarão de ler.

Por portas travessas, Capa.jpg

Por Portas Travessas, capa
.

A cabra equilibrista

O toque alegre do pandeiro atrai a nossa atenção. Chegam e instalam-se no largo, mas não há um apresentador que nos diga quem são, de onde vêm, em que cama de estrelas dormiram, que estradas tomarão ao amanhecer de outro dia.
O espetáculo desenrola-se à altura dos nossos olhos que captam, ao pormenor, o esforço abnegado dos artistas em conquistar mais do que a mera simpatia da assistência.
O profissionalismo surpreendente da cabra, a esmerar-se no seu número de equilíbrio, girando as quatro patas sobre a pequena base; a agilidade do macaco, fazendo por ignorar a tensão da corrente que o agarra àquela forma de vida; o som virtuoso do pandeiro a marcar o ritmo dos acrobatas.

A cabra equilibrista.jpgO Homem do pandeiro, a cabra Lolita e a macaca
(Na Alta era chamada de Dona Fabela)

A Lolita, equilibrista, ė a estrela da companhia. Altiva no seu papel, sabe da vida que hoje é estrela, amanhã pele de pandeiro.
Mas o macaco, que se limita a levar as mãos à cabeça, a dar cambalhotas no chão e a saltar para os ombros do homem, dá-lhe a graça do palhaço pobre que vive das gargalhadas infantis.
A carreira artística, que lhes roubou a quietude e os largos horizontes só alcançáveis do alto das montanhas e do cimo das árvores, é uma opção antinatural ditada pela necessidade de sobreviverem juntos por estradas e lugares que lhes são estranhos. O homem pouco fala, mas parece ter um sotaque raiano, e o macaco parece interrogar-nos com o olhar, sobre o porquê de o chamarmos de Barnabé.
Entregues ao seu ofício, mal se dão conta do prestígio que é estar ali, em representação de uma antiga arte de rua que não se rende.

Termina o espetáculo. Ninguém recusa as palmas e, respondendo à nossa súplica silenciosa para que desabe uma chuva de prata sobre quem tanto precisa e merece, caem, condescendentes, umas quantas moedas pretas no púcaro empunhado pelo macaco, deixando-nos abalados e pensativos sobre o poder efetivo das preces.
O homem do pandeiro agradece descobrindo a cabeça, volta a colocar o chapéu, pega no banco às costas e os três, seguidos pela miudagem, dirigem-se rua abaixo ao encontro de um mundo mais generoso, que pode estar ali mesmo, ao virar da esquina.
E é assim até ao fim do dia. Talvez até ao fim da vida.

Santos, C.A.P. 2018. Por portas travessas. Histórias de miúdos da velha Baixa de Coimbra. 2.ª edição. Coimbra, Edição de autor

O livro pode ser adquirido pela módica quantia de 5,00 €. Para o fazer basta contactar o autor Pinto dos Santos (Toni) nas redes sociais. É uma excelente sugestão de oferta de Natal, para quantos viveram Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 09:40

Quinta-feira, 28.11.19

Coimbra: Tascas que já não existem 3

- TIAS CAMELAS
Localização: Ruas Larga e do Borralho, hoje desaparecidas

Rua do Borrralho.jpgRua do Borralho, onde se localizava a tasca das Tias Camelas. In: A Velha Alta … Desaparecida

As Tias Camelas, eram consideradas as Mães da Academia. Tinham a sua taberna na esquina oposta da Associação Académica na Rua Larga também com entrada pela Rua do Borralho.

Sede da AAC, na rua Larga.jpgSede da AAC, na Rua Larga. In: A Velha Alta … Desaparecida

Um cubículo onde apenas cabia a pipa do vinho, o fogareiro e com dificuldade se acomodavam os frequentadores. Ali, comia-se e bebia-se à farta. Quem não tinha dinheiro não pagava, ou pagava quando podia, às vezes no fim do mês, quando chegava a mesada. As Tias Camelas só recomendavam é que não se esquecessem de pôr um pataco para o Azeiteiro. O Azeiteiro era um Santo António de barro, sempre alumiado por uma torcida de candeia de azeite!
Apesar de ser uma lojinha escura e cheia de fumo, celebrizou-se pelo seu bom peixe frito, vinho e os rapazes literatos e boémios que ali se juntavam. Certamente não faltaram às diversas noites de tertúlia Camilo, Guerra Junqueiro, Trindade Coelho, Gonçalves Crespo ou Silva Gaio. António Nobre deixou-a para sempre imortalizada no seu livro Só e Eça de Queirós recordaria na sua obra A Correspondência de Fradique Mendes.
… tias Camelas, essas encantadoras velhas, que escrupulosamente, através de lascivas gerações de estudantes, tinham permanecido virgens, para poderem no Céu, ao lado de Santa Cecília, passar toda uma eternidade a tocar harpa... Era uma das suas memórias melhores de Coimbra essa taverna das tias Camelas, e as ceias desabaladas que custavam setenta reis, comidas ruidosamente na penumbra fumarenta das pipas, com o prato de sardinhas em cima dos joelhos, por entre temerosas contendas de Metafísica e de Arte. E que sardinhas! Que arte divina em frigir o peixe!”.
A tasca das Tias Camelas foi por assim dizer o cenáculo literário da academia da segunda metade do séc. XIX e João Penha era na Tasca das Tias Camelas o pontífice máximo. As suas palavras de conforto e salvação sossegavam Maria Camela que era uma velhinha magra, um pouco corcovada, de cabelos brancos, olhos grandes e orbitas vermelhas e humedecidos pelo fumo da frigideira. Nunca sentira amor mundano e não sabia para que servissem os homens, a não ser para fregueses de peixe frito e vinho. Acreditava piamente na existência de um coro celeste de onze mil virgens, entre as quais sabia que tinha um lugar... Lamentou-se um dia de já não ser jovem e, assim, não poder candidatar-se ao celeste coro. Para a tranquilizar, João Penha confortou-a com os seus obscuros conhecimentos, dizendo-lhe: sossegue, Tia Maria, eu garanto-lhe que terá o seu lugar reservado num coro muito distinto. Acredite no que lhe digo: há o coro das virgens que o foram por acaso, e o das virgens pelas forças das circunstâncias...

Carlos Ferrão

 

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por Rodrigues Costa às 11:06

Terça-feira, 26.11.19

Coimbra. História breve de Coimbra, sua Fundação, Armas…

Numa edição patrocinada pelo Dr. Mário Torres acaba de ser reeditada a obra História breve de Coimbra, sua Fundação, Armas, Igrejas, Collégios, Conventos e Universidade.

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Capa do livro ora editado

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Contracapa do livro ora editado

Trata-se de mais uma iniciativa que Coimbra fica a dever ao Dr. Mário Torres e soma-se ao trabalho, tão meritório, que vem realizando destinado a divulgar factos e gentes da nossa Cidade.
Quero expressar o meu agradecimento por esta iniciativa, divulgando o que sobre a mesma é dito na badana do livro.

A «História breve de Coimbra, sua Fundação, Armas, Igrejas, Collégios, Conventos e Universidade, que em 1773 foi editada em Lisboa, na Oficina Ferreirinha, foi a «primeira publicação em ordem cronológica que expressamente se fizera sobre a história de Coimbra», no dizer de António Francisco Barata, que acrescenta que «do merecimento deste livrinho diremos apenas que ainda não houve quem escrevesse sobre a cidade de Coimbra ou que o não citasse ou que dele não mostre conhecimento».

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Frontispício da edição de 1773 da História breve...

O nome que surge como seu autor Bernardo de Brito Botelho – é manifestamente um pseudónimo, permanecendo as dúvidas sobre a sua verdadeira identidade.
Generalizou-se o entendimento, com base em menções de Joaquim da Silva Pereira («Coimbra Gloriosa») e Diogo Barbosa Machado («Biblioteca Lusitana»), reproduzidas por Inocêncio Francisco da Silva («Dicionário Bibliográfico Português») que seria Frei Bento da Cunha, hipótese que é de rejeitar: o autor de «História Breve de Coimbra» apresenta-se como natural de Miranda do Douro, onde foi juiz dos órfãos, depois de se formar na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra; Frei Bento da Cunha nasceu em Coimbra, em 1672, onde estudou no Colégio da Companhia de Jesus, e professou na Ordem da Santíssima Trindade, em Santarém.
O exemplar da primeira edição da «História breve» com anotações manuscritas seguramente feitas pelo seu autor, a preparar uma reedição, foi adquirido em Lisboa por António Francisco Barata, que, com base nele, promoveu, em 1873, a sua segunda edição, amplamente enriquecida com anotações da sua lavra, corrigindo inexatidões, suprindo falhas e atualizando informações.

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Frontispício da edição de 1873 da História breve...

Reproduzem-se agora as duas edições (a primeira em «fac-simile»), que possibilitam o conhecimento, não só da história de Coimbra, mas como ela foi vista pelo seu autor original, em 1733, e pelo anotador em 1873.

Botelho, B.B. (pseudónimo). 1773 / Barata, A.F. (anotador da 2.ª edição). 1873. História breve de Coimbra, sua Fundação, Armas, Igrejas, Collégios, Conventos e Universidade. 2019. Lisboa, Edição de Mário Torres

 

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por Rodrigues Costa às 11:16

Quinta-feira, 21.11.19

Coimbra: Tascas que já não existem 2

- JOAQUINA CARDOSA
Localização: R. do Paço do Conde

Tasca da Joaquina Cardosa, finais do séc. XIX.jpg

Tasca da Joaquina Cardosa, finais do séc. XIX

A Joaquina Cardosa, do Paço do Conde foi um dos mais procurados lugares da Coimbra boémia e noctívaga.
A Piedade, a criada da tia Joaquina, uma doce morena de olhos tristes e magoados, punha naquele ingénuo cenário uma nota cheia de pureza e gravidade. Não houve poeta que por lá fosse que a não cantasse e aí está, entre tantas outras, a atestá-lo, essa deliciosa quadra de Afonso Lopes Vieira:

Maria da Piedade
Que nome te foram por,
Tu que não tens piedade
De mim que te tenho amor.

A Piedade, ouvia indiferente todos os galanteios, afável e carinhosa, entre condescendente e compassiva, mas se alguém soltava algum dito mais forte logo discretamente ela desaparecia, silenciosamente.

Tasca da Joaquina Cardosa, inicios do séc. XX.jpgTasca da Joaquina Cardosa, inícios do séc. XX

A boa e prazenteira tia Joaquina (Cardosa Marques) retirou-se do negócio nos primeiros anos do século XX, descansando de uma vida de trabalho e retirando-se para uma aldeia nos arredores da cidade. Tão amorável para todos, ainda mais para os seus “filhos” da academia, bem merece, que em sua memória, fique a notabilidade quase glorificadora dos admiradores da sua culinária e da sua resignada paciência…

- MANEL DO SEMINÁRIO
Localização: Rua dos Militares, já desaparecida

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Tasca do Manel do Seminário

Em 1896 um antigo “moço de recados” do Seminário Episcopal montou, a meio da Rua dos Militares, por baixo da Real República Ribatejana, a “Loja do Povo”, mercearia, taberna e carvoaria que veio a ser uma das mais famosas tascas da Alta desaparecida e conhecida como “O Manel do Seminário”.

Rua dos Militares, hoje desaparecida.jpgRua dos Militares, hoje desaparecida. In: A Alta Desaparecida

Após a sua morte, o filho, que ficou com a alcunha do pai manteve o negócio que incrementou e uma das iniciativas de modernidade que tomou foi comprar em 1939 um rádio (novidade nas tascas da Alta) na altura da II Grande Guerra para o fregueses ouvirem os noticiários da BBC. Fechou, já nos anos 50, aquando das últimas demolições da Velha Alta.

Carlos Ferrão

 

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por Rodrigues Costa às 10:08

Quarta-feira, 20.11.19

Coimbra: Igreja de S. Bartolomeu

É a igreja de S. Bartolomeu talvez a de mais antiga história na cidade. Já existia em 957, pois, em 2 de novembro desse ano, foi doada ao mosteiro de Lorvão pelo presbítero Samuel, por mando do presbítero Pedro, em risco de morrer. Antes tinha sido dedicada a S. Cristóvão. A doação incluía também a igreja de S. Cucufate, com todas as suas vinhas e hortas que se encontravam em redor. O grande chefe mouro Almançor conquistou e arrasou Coimbra em 987. A igreja de S. Bartolomeu não deve ter sido poupada, pois que a vemos novamente doada a Lorvão em 1109, o que indica reconstrução. A doação de 1 de janeiro de 1109 é feita pelo presbítero Aires e nela são citados os ornamentos, móveis e imóveis.
Estas primitivas igrejas, cujos vestígios arqueológicos se encontram sob o pavimento da atual, depois de escavações levadas a cabo em 1979 e 1980, mas nunca publicadas, tinham entrada para poente e não para o lado da praça. No século XVIII a igreja ameaçava ruir, pelo que em 5 de junho de 1755 se fez a trasladação do SS. e das imagens de Cristo e Nossa Senhora para o antigo Hospital Real, donde passaram para a Misericórdia, iniciando-se de imediato a demolição do velho edifício românico. A primeira pedra da igreja atual foi lançada em 16 de julho de 1756, sendo arquiteto Manuel Alves Macomboa.

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Igreja de S. Bartolomeu, vista aérea

A planta do novo edifício é de grande simplicidade, articulando em retângulo a nave com a capela mor. Amplas janelas inundam e unificam o interior de uma luz homogénea, bem característica da época rococó em que se fez a reedificação.

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Igreja de S. Bartolomeu, torre sineira

A fachada enobrece o topo da praça, com suas duas torres sineiras coroadas de fogaréus e cúpula bolbosa. No século XIX construíram a casa da esquina com a rua dos Esteireiros, que lhe rouba parte da monumentalidade. O portal é ladeado por colunas dóricas onde assenta uma varanda de balaústres em forma de vaso chinês, diferentes dos da balaustrada que une as duas torres.

Igreja S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos lateIgreja de S. Bartolomeu, capela-mor e retábulos laterais

O interior é sóbrio apenas se destacando as cantarias dos púlpitos, portas, janelas e arcos das capelas. O arco da capela-mor é em asa de cesto, sobre entablamento peraltado, assentando em pilastras mais cuidadas. O retábulo-mor domina todo o espaço, captando a atenção. Foi executado pelo notável entalhador de Coimbra João Ferreira Quaresma, contratado em 20 de dezembro de 1760, com a obrigação de consultar o arquiteto Gaspar Ferreira, para que ficasse como o de Santa Cruz. A fortíssima impressão causada pelo retábulo de Santa Cruz fez dele o pai de imensa prole que se estendeu de Coimbra a todas as Beiras, originado o estilo do rococó coimbrão. O mesmo João Ferreira Quaresma executou as cadeiras do coro e os arcazes da sacristia. O retábulo tem dois pares de colunas por banda, sobre alto embasamento. O coroamento, em frontão interrompido, de elaboradas formas, abriga glória solar ladeada de anjos com palmas. Marmoreados e dourados dão realce a todo o conjunto e emolduram a boca da tribuna, preenchida com uma tela de Pascoal Parente, representado o martírio de S. Bartolomeu.

Igreja de S. Bartolomeu. capela lateral do SagradoIgreja de S. Bartolomeu, capela lateral

Os retábulos colaterais seguem o mesmo estilo, simplificado. Duas capelas laterais apresentam retábulos recuperados da igreja antiga. O do lado nascente é ainda maneirista, dos finais do século XVI, adaptado ao espaço. Conservou, além da estrutura, duas pequenas pinturas sobre tábua. A capela fronteira tem um retábulo de colunas salomónicas de finais do século XVII, época de D. Pedro II.
A igreja tem ainda no seu espólio belas sanefas de concheados, das melhores peças da cidade, feitas por Bento José Monteiro, mas certamente com desenho de Gaspar Ferreira. Salientam-se ainda outras pinturas de Pascoal Parente com Cristo crucificado e Anunciação.

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Igreja de S. Bartolomeu, lustre e órgão

O templo é indissociável da praça onde se insere, outrora chamada praça de S. Bartolomeu. Nesta praça se fez durante séculos, até 1867, o mercado. Aqui se correram touros. Aqui se situou o paço dos tabeliães. Aqui funcionou a junta dos vinte e quatro dos mesteres e o paço do concelho. S. Bartolomeu é o patrono dos açougueiros e magarefes, cujos talhos estavam na praça e ruas confinantes, isto é, junto da igreja do seu santo padroeiro: principal justificação para a sua edificação neste local.

Nelson Correia Borges

Publicado em Correio de Coimbra, n.º 4761, de 7 de novembro de 2019, p. 8.

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por Rodrigues Costa às 10:22

Quinta-feira, 14.11.19

Coimbra: Tascas que já não existem 1

Com esta, iniciamos aqui uma série de entradas que publicaremos às 5.ªs feiras, dedicadas às tascas de Coimbra. Trata-se de um trabalho de Carlos Ferrão que recolheu as imagens e coligiu os textos.
O A’Cerca de Coimbra fica aberto – como sempre está – a acrescentos e outras eventuais participações.

- TASCA DO PRATAS
Localização: R. José Falcão, edifício do antigo Colégio da Trindade

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Tasca do Pratas, anos 50 do Séc. XX

Não era uma extensão da Biblioteca Geral como alguns lhe chamavam, nem tão pouco o um lugar onde se preparasse as frequências.
Numa dependência do Colégio da Trindade, com frente para a rua José Falcão, a famosa tasca “O Pratas” deixou mil estórias envolvendo estudantes, professores, funcionários e futricas.

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Ana e Armando Pratas

A D. Ana e o Sr. Armando Pratas estavam sempre de sorriso pronto para acolher quem os escolhia para uma "bucha e um copo". Não lhe faltava uma paciência de santo para a estudantada que ali fazia alguns rituais praxistas a mando dos “doutores”, mas sempre de olho nos excessos, nunca deixando ferir a dignidade do caloiro.

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Tasca do Pratas, finais do século XX

E assim foi até 2001, quando os "jaquinzinhos", as pataniscas ou as sandes de queijo da Idanha, servidos no “Pratas”, ficaram para a memória!

- JOÃO DE BRITO
Localização: R. de Baixo

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Tasca do João de Brito

Nos finais do séc. XIX, o João (Francisco) de Brito era um maravilhoso retiro junto do velho mosteiro de Santa Clara. Era um verdadeiro cenário de balada!
Uma latada, quatro mesas de pinho, uma nora gemente. Ao fundo o rio sereno e doce e lá no alto erguendo-se dominadora a cidade.
Os poetas Eugénio de Castro, Manuel da Silva Gaio, Afonso Lopes Vieira, Guedes Teixeira, D. Tomás de Noronha e tantos outros foram durante anos os seus mais assíduos frequentadores.
Só mesmo quem por lá passou, nos conseguiu deixar com fidelidade uma ideia da poesia estranha nas tardes no João de Brito!
Carlos Ferrão

Fontes: Vicente Arnoso, Tascas de Coimbra em Ilustração Portuguesa, nº 101 de 27 de Janeiro de 1908, citado por Manuel Alberto Carvalho Prata em A Academia de Coimbra (1880-1926): contributo para a sua história.

 

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por Rodrigues Costa às 10:01

Quarta-feira, 13.11.19

Casa da Escrita: Conversas abertas, 6.ª feira, 15.11.2019, 18h00


Recorda-se: A ULTIMA CONVERSA ABERTA DESTE ANO É JÁ DEPOIS DE AMANHÃ, 6.ª FEIRA, ÁS 18H00

Casa da Escrita 05.jpgCasa da escrita
(Rua Dr. João Jacinto Nº 8, telefone 239 853 590)

Tema: JOÃO DE RUÃO UM ESCULTOR DE COIMBRA
Palestrante: NELSON CORREIA BORGES

ncb.jpg

Natural de Lorvão, concelho de Penacova, é professor aposentado do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Fez doutoramento em História da Arte, tendo apresentado a dissertação intitulada Arte Monástica em Lorvão. Sombras e Realidade.
É académico correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa e fundador de quatro associações de defesa do património: o GAAC - Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, a Associação Pró-Defesa do Mosteiro de Lorvão, o Grupo Folclórico de Coimbra e a Confraria dos Sabores de Coimbra. É membro da Comissão Diocesana de Arte Sacra.
Coimbra, a arte monástica e conventual, o Barroco e o Rococó, designadamente a arquitetura e a talha, são os campos a que mais se tem dedicado, tendo apreciável número de trabalhos publicados sobre estas matérias, bem como nas áreas de Arqueologia e Antropologia Cultural, designadamente Etnografia e Folclore, que igualmente lhe têm servido de tema para palestras, conferências e participação em reuniões científicas.
De entre as monografias publicadas podem destacar-se:
João de Ruão, escultor da Renascença Coimbrã (1980)
A Arte nas festas do casamento de D. Pedro II (1983)
História da Arte em Portugal — Do Barroco ao Rococó (1987)
Coimbra e Região (1987)
Arquitectura monástica portuguesa na época moderna (1998)
Arte Monástica em Lorvão. Sombras e realidade. (2001)
Doçaria conventual de Lorvão. (2013, 2017)

MNMC. Deposição do tumulo, João de Ruão.jpgDeposição no tumulo, obra de João de Ruão

S. Catarina de Dornes, obra de João de Ruão.JPGS. Catarina de Dornes, obra de João de Ruão

Após a intervenção inicial, seguir-se-á um debate, estimulado pelos participantes.
Entrada livre.
Organização: Casa da Escrita de Coimbra, com o apoio do Blogue A’Cerca de Coimbra.
Tags: Coimbra séc. XVI, Casa da Escrita, João de Ruão, Renascença Coimbrã

 

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por Rodrigues Costa às 10:56


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