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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 24.06.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 25

Os estabelecimentos prisionais de Coimbra - Penitenciária

A Rua de Tomar, tal como a Garrett delimitam parcialmente, se é que assim se pode dizer, o Bairro de Santa Cruz e a primeira, conjuntamente com a Rua Pedro Monteiro e com a Rua Infantaria 23 contornam os estabelecimentos prisionais de Coimbra.

Na sequência da Reforma Penal e de Prisões acontecida em 1876, que avançava com uma nova maneira de olhar os reclusos e se debruçava sobre as condições físicas e morais em que estes eram mantidos, tornou-se premente renovar os edifícios prisionais.

Em Coimbra foi escolhido espaço pertencente outrora ao Colégio de Nossa Senhora da Conceição, de Tomar ou de Cristo, onde se instalavam os alunos pertencentes àquela Ordem e que frequentavam a Universidade.

Fig. 42. Colégio de Tomar. 1870. [Monumentos, 25,

Fig. 42 – Colégio de Tomar. 1870. [Monumentos, 25, p. 42]

A estrutura fora erguida no âmbito da transferência dos Estudos Gerais para a cidade, em 1537, por ordem de D. João III. Face ao processo de desamortização, em 1852, o Colégio a sua cerca foram vendidos a um particular e, posteriormente, adquiridos pelo município que acabou por ceder o espaço, a fim de nele ser construído um estabelecimento prisional.

A Penitenciária mondeguina segue o risco de Adolpho Ferreira de Loureiro, engenheiro que já anteriormente foi referido. Convém esclarecer que, bastas vezes, a autoria do projeto aparece, erroneamente, atribuído ao engenheiro Ricardo Júlio Ferraz (1824-1880).

Fig. 43. Penitenciária em construção [Revelar C

Fig. 43 – Penitenciária em construção [Revelar Coimbra, 46].

A cadeia Penitenciária de Coimbra começa a ser construída em 1876, inaugurou-se em 1894, mas só em 1901 entraram no estabelecimento os primeiros dez reclusos, embora o edifício, depois de concluídos os trabalhos, estivesse apto a receber mais oitenta presos.

Penitenciiária já concluída.jpg

Penitenciária já concluída.

O referido estabelecimento prisional segue o modelo panótico radial, de planta em cruz latina, e mostra “4 alas ortogonais em volumes de predominante horizontal, das quais 1 maior e 3 de média extensão, conjugadas com 4 alas menores inseridas em volume poliédrico octogonal, configuram um conjunto de 8 braços irradiando a partir de um ponto focal ou panóptico, assinalado por espaço de acentuada verticalidade”.

Na sua construção predomina o ferro, a madeira e o vidro, tendo o primeiro, nesta obra, um papel muito relevante bem visível na estrutura da cúpula ou nos pormenores (guardas, claraboias, óculos, etc.).

No caso conimbricense, a especificidade radica ainda no recurso ao vocabulário neogótico, presente nos vãos em arco quebrado, nos muros ameados e em outros elementos.

Pode afirmar-se que a este contexto não estará “seguramente, alheio o contributo dos mestres da Escola Livre das Artes do Desenho de Coimbra”.

Fig. 44. Penitenciária e Bairro de Santa Cruz. 19

Fig. 44 – Penitenciária e Bairro de Santa Cruz. 1915. [Monumentos, 25, p. 126].

A adaptação ao terreno envolvente, a erudição das casas do diretor e dos chefes de guarda, as oficinas (que tornaram este espaço numa cadeia-oficina) e os logradouros revelam um traçado erudito que reforça a originalidade do projeto.

A cúpula da Penitenciária, feita em 1887, saiu da forja de Manuel José da Costa Soares, dono de uma alquilaria, sita à Rua da Sofia, na inacabada igreja de S. Domingos e que, ao fundo, um pouco afastado da entrada, montara a fundição. Os seus trabalhos de ferro já eram conhecidos, pois, como referi, é também da sua responsabilidade a parte metálica do Theatro-Circo, erguido na Avenida Sá da Bandeira.

Fig. 45. Penitenciária. Cúpula. [Foto RA].JPG

Fig. 45 – Penitenciária. Cúpula. [Foto RA].

Construído expressamente para o efeito, este edifício prisional conserva as suas características originais, constituindo um dos três exemplos de planta radial existentes no nosso país.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf.

 

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por Rodrigues Costa às 10:59

Terça-feira, 22.06.21

Coimbra: “Elogio de Coimbra”

O Dr. Mário Araújo Torres juntou mais uma pedra, a sétima, ao monumento que, à sua custa, vem erguendo dedicado a obras relacionadas com Coimbra, todas elas deslembradas no tempo.

Agora coube a vez ao “Conimbricae Encomium” ou “Elogio de Coimbra”, publicado em 1554, da autoria de Inácio de Morais.

Elogio, capa corrigida.jpg

Capa do livro ora editado

O livro em causa, ora editado, não se remete a uma mera reprodução do texto inaciano, pois Mário Araújo Torres, após uma cuidada e vasta investigação, anexa um alargado conjunto de notas, passíveis de permitir não só enquadrar o escrito, mas também de facilitar ao leitor hodierno e sua compreensão. Além disso, insere a tradução do poema para português, feita por Alberto da Rocha Brito, e completa o volume com a apresentação de uma detalhada biografia e bibliografia relacionada com Inácio de Morais.

Na Nota Prévia, Araújo Torres, elucida-nos que Augusto Mendes Simões de Castro num artigo escrito para a revista “Instituto” havia referido ter adquirido “num leilão em Lisboa”…  “um livro muito interessante, que temos na conta dos de maior raridade, intitulado Conmbricae Encomium.

A convicção de que se trataria do único exemplar existente em Portugal, fundava-se em não ter achado tal obra nas Bibliotecas Nacional de Lisboa, da Universidade de Coimbra ou Municipal do Porto, nem nas boas livrarias de muito bibliógrafos que consultou, descobrindo apenas uma cópia manuscrita na Biblioteca Pública de Évora.

… O exemplar adquirido por Simões de Castro deve ser o que se encontra atualmente na Biblioteca Nacional de Portugal, único de que há registo nos catálogos disponíveis das bibliotecas portuguesas. 

Elogio, rosto.jpg

“Conimbricae Encomium”. 1544, rosto. Fl. 15

Elogio, dedicatória.jpg

“Conimbricae Encomium”. 1544, dedicatória. Fl. 16

elogio, primeira página.jpg

“Conimbricae Encomium”. 1544, página inicial. Fl. 17

Duas outras edições foram feitas do texto latino: a terceira, por Joaquim Alves de Sousa, em 1890; e a quarta por Mário Brandão, em 1938.

… “Encontram-se neste poema notícias curiosíssimas sobre a Coimbra do tempo de D. João III, quando este monarca transferiu para ali a Universidade então estabelecida em Lisboa. Referem-se vários usos e costumes da população académica, discente e docente, de alguns dos quais ainda hoje se conservam não poucos vestígios. Dá-se minuciosa informação das muitas casas religiosas de um e outro sexo ali existentes, de outros edifícios públicos notáveis e de alguns palácios de antigos fidalgos. Descreve-se a beleza dos horizontes, a salubridade dos ares, a fertilidade do solo, a amenidade dos arredores, a índole bondosa, pacífica e hospitaleira, e até a graça natural e folguedos populares dos habitantes da cidade ridente.

Da versão portuguesa apresentada no volume em apreço, de que Alberto da Rocha Brito é responsável, selecionamos um trecho que relata a lenda, mais uma, do brasão de Coimbra.

Elogio, rosto pormenor.jpg

Conimbricae Encomium. 1544, rosto, pormenor. Fl. 15

Em memória da sua Pirene ordenou aos conimbricenses que tivessem sempre na lembrança a sua história e um monumento da sua dor.

Por isso estão insculpidos nos muros urbanos as insígnias representando a urna, a coroa e o rosto da mutilada donzela, com a serpente de um lado e do outro o leão.  

Morais, I. Conimbricae Encomium. Elogio de Coimbra. Recolha dos textos e notas de Mário Araújo Torres. 2021. Lisboa, Edições Ex-Libris.

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por Rodrigues Costa às 20:35

Quinta-feira, 17.06.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 24

O monumento aos Mortos da Grande Guerra

A chamada Primeira Grande Guerra, que se desenrolou entre 1914 e 1918 envolveu as grandes potências de todo o mundo e o nosso país acabou por também não assumir uma posição neutral.

As primeiras tropas nacionais, pertencentes ao Corpo Expedicionário Português partiram, em 1917, para o campo de batalha; dirigiram-se, num primeiro momento, para a Flandres e passaram, posteriormente, a combater em França.

Dos quase duzentos mil homens que chegaram a estar mobilizados, cerca de dez mil perderam a vida e os feridos cifraram-se em vários milhares; além disso, os custos económicos e sociais gerados pela conflagração mostraram-se gravosos para Portugal.

O desejo de perpetuar a participação portuguesa no conflito levou a que se organizasse, em 1921, a Comissão dos Padrões da Grande Guerra que serviu de base à intenção do governo republicano de, por um lado, fazer perdurar e homenagear o nome daqueles que haviam perdido a vida na guerra e, por outro, veicular os valores nacionalistas de uma Pátria triunfante.

Em Coimbra começou-se, de imediato, a pensar em corporizar a ideia e, logo em 1922 aparece na imprensa o projeto de um monumento aos Mortos da Grande Guerra saído da mão do canteiro-escultor António Francisco dos Santos, Filho.

Projeto de António Francisco dos Santos, Filho.jp

Projeto de António Francisco dos Santos, Filho

A ideia não se concretizou e só anos mais tarde, a 05 de outubro de 1930, foi lançada a primeira pedra do padrão, não sem que antes se tivesse desenrolado uma forte polémica em torno da sua localização.

Acabou por ser erguido no jardim central da Avenida Sá da Bandeira, na zona fronteira ao que hoje é o quartel da Polícia Municipal.

A iniciativa da construção do monumento partiu da Câmara Municipal de Coimbra e da comissão da Liga dos Combatentes sediada na cidade e teve por base o projeto delineado pelo escultor Luís Fernandes de Carvalho Reis (1895-1954) e pelo arquiteto António Varela (1903-1962); a inauguração aconteceu a 10 julho de 1932.

Fig. 41. Monumento aos Mortos da Grande Guerra. [F

Fig. 41 – Monumento aos Mortos da Grande Guerra. [Foto Manuel da Costa].

Monumento aos Mortos da Grande Guerra [Foto RA].JP

Monumento aos Mortos da Grande Guerra. Foto RA

Monumento aos Mortos da Grande Guerra. Pormenor [F

Monumento aos Mortos da Grande Guerra, pormenor. Foto RA

Estamos perante um monumento, arcaizante, a filiar-se em modelos do final do século XIX, inícios do XX, constituído por sólidos blocos de pedra justapostos onde se destacam, encostados a um pedestal troncopiramidal quatro soldados em sentido, com indumentária da época, segurando a arma ao alto, junto do peito; além de mostrar uma certa rigidez plástica, encontra-se decorado com alguns símbolos nacionais e remata com a figuração de uma bala.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf.

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por Rodrigues Costa às 10:25

Terça-feira, 15.06.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos 3

As profissões ligadas à saúde, século XVI

. 1528, Agosto, 26, Coimbra. Registo da carta, passada a Catarina Fernandes, moradora em Coimbra, pelo físico-mor e cirurgião d’el rei, Doutor Mestre Gil, cavaleiro da Ordem de Cristo, para que ela possa “curar de boubas e chaguas per todos os reynos e señorios”, uma vez que a examinara e achara apta para o exercício dessa profissão, em 5 de Novembro de 1527.

Carta passada a Catarina Fernandes.png

AHMC/Registo, vol. 1, 1525-1538, fl. 38v-39

Transcrição

O doutor Mestre Gill, cavaleiro da Ordem de Christo e fisico d’ el Rey Nosso Señor e seu colorgião moor, faço saber aos que esta mynha carta virem e o quanto della pertencer, que eu dou lugar e licença a Caterina Fernandez, moradora na cidade de Coimbra, que ela posa curar de boubas e chaguas per todos os reynos e senorios do dito Señor, sem embarguo de quaesquer leix e hordenações que hy aja em comtrairo, porquanto eu a eixasameney e achey auta e sofeçiente pera poder usar e praticar das ditas enfermidades…

Traje e máscara para tratar doentes com peste.png

Traje e máscara para tratar doentes com peste. Séc. XVIII. http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/OBRAS/Ocidente/Ocidente_1889.htm

Notar a proteção dos olhos em cristal e o nariz coberto com um longo reservatório onde se colocavam perfumes. Grav. francesa da obra Traité de la Peste, de 1721, publicada O Occidente, Setembro, 1911.

. 1562, Agosto, 27, Lisboa. Registo da carta de cirurgião e sangrador, passada a Manuel Gonçalves, morador em Coimbra, pelo licenciado Gaspar da Costa, físico-mor e cirurgião d’el rei “para que elle possa sangrar e sarafar e tirar dentes, lançar ventosas, por todos estes reinos” uma vez que o examinara e achara apto para o exercício dessa profissão.

Anexo sem nome 00005.jpg

Carta de Cirurgião

 

Transcrição

[fl. 212] Carta de selorgiam a Manuel Gonçalvez

O licenciado Gaspar da Costa, fisico e selujião moor d’ell rey Nosso Señor, faço saber ha todollos señores juizes e justiças e outras quaesquer offiçialles a que esta mha carta for mostrada e o conto dela pertençer que eu dou lugar e liçença a Manuel Gonçalvez, morador na cidade de Coimbra, que elle possa sangrar e sarafar e tirar dentes lançar ventosas por todos estes reynos e cousas, por quanto examiney e achey auto e sofyçente pera usar do que dito he.

A sangria.png

La Saignée, Grav. de Abraham Bosse (1606-1676). https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b8403217z.item 

A sangria era um dos tratamentos utilizados para doentes com peste bubónica.

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Catálogo da Exposição. Textos de transcrições de Paula França, Maria Fernanda Ribeiro, Soraia Pimentel. 2021.Coimbra, Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 21:45

Quinta-feira, 10.06.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 23

A Escola Industrial Brotero deambula pela cidade (continuação)

Martins de Carvalho, no ano de 1891, em O Conimbricense fazia a apologia do ensino industrial ministrado pela escola, escrevendo que “hoje já se não comprehende um operario sem instrucção artistica. É mister progredir, e não se progride sem estudo. As differentes terras do reino procuram desenvolver e aperfeiçoar as suas industrias; e por isso a cidade de Coimbra não póde nem deve ficar-lhes inferior, quanto o permita a sua esphera de acção. O conhecimento do desenho é absolutamente indispensavel aos operarios; e esse conhecimento podem elles obtel-o na Escóla industrial Brotero. Chamâmos toda a attenção dos operarios, dos paes de familia e dos chefes dos estabelecimentos para este ponderoso assumpto”.

No contexto de modernização escolar delineada pela Coroa, a que já me referi, foi importada “mão-de-obra” específica, destinada a integrar o corpo docente desses estabelecimentos de ensino industriais, então a conhecerem, no país, um considerável impulso. Para Coimbra, de acordo com A Voz do Artista (1889.08.31) e O Conimbricense (1889.08.24), a fim de lecionar na Escola Industrial de Brotero vieram vários professore estrangeiros: Charles Lepierre (francês), contratado em Paris para o ensino da química aplicada à indústria; Leopoldo Battistini (italiano), contratado em Roma, para ensinar desenho decorativo; Hans Dickel (austríaco), contratado em Viena, seria o responsável pelo ensino do desenho de arquitetura; Emile Lock (austríaco), contratado em Viena, regeria o ensino da física mecânica e suas aplicações industriais, devendo também ocupar-se do curso de desenho de máquinas.

Charles Lepierre.jpg

Charles Lepierre

Hans Dickel, pouco depois de ter chegado a Coimbra, foi encarregado (1889) de riscar o projeto de um edifício destinado a albergar a Brotero, mas a verdade é que ele jamais saiu do papel, se é que alguma vez lá esteve, embora aparecesse sempre referenciado na imprensa local como sendo “de grandiosas dimensões”.

Mais tarde, em 1910, também sem qualquer resultado visível, o “distinto arq. Adães Bermudes” deslocou-se a Coimbra, a fim de coligir os apontamentos indispensáveis para a elaboração do risco do novo edifício e o dr. Sidónio Pais, no ano seguinte, depois de ter sido nomeado ministro do Fomento, encarrega o arquiteto Silva Pinto de apresentar um outro projeto que “ficará situado entre a Praça da Republica, rua Oliveira Matos e estrada de Entre Muros, com a fachada principal voltada para a Avenida Sá da Bandeira”. A impressa local publicou o alçado que por aí se quedou.

A impressa local publicou o alçado que por aí se

A impressa local publicou o alçado que por aí se quedou.

Em 1917 as chamas consumiram as alas do claustro da Manga que a Brotero ocupava, ocasionando graves prejuízos e deixando a escola sem instalações.

Mas goraram-se as expectativas de que o incêndio tivesse sido ‘providencial’ e obrigasse à construção do novo imóvel, porque a Escola passou a utilizar o edifício onde funcionara a Direção das Obras Públicas, nas proximidades da Praça da República; isto é, na ‘Casa de Férias’ do prior de Santa Cruz.

Em 1921, quando foi criado o Instituto Industrial e Comercial de Coimbra, o Governo determinou que a Brotero deixasse as instalações da Rua Oliveira Matos e passasse a ocupar o edifício fronteiro ao Jardim da Manga.

Fig. 40. Em 1921 a Escola Brotero instalou-se no e

Fig. 40 – Em 1921 a Escola Brotero instalou-se no edifício crúzio fronteiro ao mercado. [BMC.I, AG_0077].

A estrutura, um “edifício, donairoso e alegre na exposição de mimos que o rodeavam, pois se debruçava por sua longa fila de janelas e serventias sobre a opulenta e viçosa horta e laranjal, que a paciência e laborioso entendimento dos frades, tornavam em aprazível retiro digno de ser visto”, entrara na posse da edilidade, como já se referiu, depois da extinção das ordens religiosas.

Torre de Santa Cruz e edifícios circundantes.JPG

Torre de Santa Cruz e edifícios circundantes

Tratava-se, porém, de uma construção muito mais vasta do que a atual, pois a “queda” da torre de Santa Cruz, acontecida em 1935, arrastou consigo uma grande parte do edifício que havia integrado, outrora, o complexo crúzio.

Construído na primeira metade de Seiscentos para servir de enfermaria, acabou por funcionar como residência do prior e como hospedaria, destinada a receber visitantes ilustres; coloca-se mesmo a hipótese de o cartório também ali ter estado instalado. Depois de servir muitos outros fins, acabou em Escola Brotero e, posteriormente, em Escola Jaime Cortesão.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

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por Rodrigues Costa às 13:00

Terça-feira, 08.06.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos 2

A epidemia de 1598-99

Os anos de 1598-99, não são menos difíceis. A peste chega à cidade através do contágio de um oficial régio, que não aceita ser impedido de entrar na cidade. Esta situação, está descrita nas Crónicas Religiosas de Santa Cruz e na Crónica da Ordem dos Jesuítas.

Pelas Vereações sabemos que apelaram ao Bispo para servir de árbitro e ser Guarda-mor da Cidade. O oficial régio deve ser o Provedor Gonçalo Vaz Barigua mencionado no livro de Receita e Despesa da Câmara de 1597-98.

A Vereação tem que reunir fora do seu local habitual, a Torre de Almedina, pois há pessoas contaminadas nas casas em volta da torre, e isso levará a um conflito entre os vários elementos da vereação: os vereadores, que defendem reunir fora da torre, e assim o fazem e reúnem, e o procurador da cidade e os procuradores dos mesteres, apoiados pelo juiz de fora, que defendem que a reunião deverá ser realizada fora, enquanto se verificar a perigosidade, mas que depois deverá ser retomada, na cidade, na torre. Há também queixas contra o provedor da saúde, Brás Nunes de Mascarenhas, que reside fora da cidade, na sua quinta em Eiras, e que acusam de não vir à cidade resolver os problemas da população.

Livro dos Acordo e Vereações ... 1598-1599.png

Livro dos Acordos e Vereações da Câmara de Coimbra, do ano 1598 (Dezembro, 30) até 1599 (Novembro, 3)

Este livro, Livro dos Acordos e Vereações de Coimbra do ano 1598-1599 regista logo na primeira folha, “Livro do que se fez no anno do mal de peste, que Deus nos Livre” que escolhemos para título desta exposição e regista várias medidas que a cidade de Coimbra toma, para enfrentar uma grave epidemia, que obrigará à saída da Vereação, para fora da Torre de Almedina, “casas da Camara della”, reunindo na outra margem, no Convento de São Francisco, [fl. 53v-54] e noutros locais, que os assentos de reunião mencionam: São Marçal, junto ao Mosteiro de S. Jorge, e Paços de D. João Coutinho, em Pé de Cão.

AHMC/Vereações, n.º 37, 1598-159. Transcrição

[fl. 53v] Aos vimte e sinquo dias do mes de Abrill de noventa e nove annos nesta cidade de Coimbra e no Mosteiro de S. Francisco, que estaa situado no cabo da pomte della [...], aomde forão jumtos  Fernão Soares Paes e Francisco Rezemde, vereadores e Vicemte Caldeira de Brito, vreador do Corpo da Univercidade e Alvaro de Faria, procurador geral da cidade e Francisco Fernandez, procurador dos Vimte e quatro, […] o qual ajumtamento se fez na dita casa de S. Francisco por a cidade estar empedida do mal de peste, de que Deus nos livre, e asi a Tore da Vreação, por respeito de alguns dos [fl. 54] officiaes que assistião na dita camara estarem feridos na casa da saude e empedidos e serem mortas pesoas de suas casas e por quamto a cidade estaa tam apodorada deste mal em toda ella que parecia mais timiridade, que bom governo aver jumta e ouvir partes e despachar pittições, primcipalmente não avemdo ja gemte na cidade, que não seja empedida e pouquo em que prover, tirando guardas das portas da cidade e mantimentos, o que por ora estaa provido e ao diamte se provera milhor, pellos officiaes da dita camara, estamdo fora do que se pudera fazer assistindo a camara na cidade, pello que, comformando se com os custumes amtigos [fl. 54v] da cidade, asemtarão e acordarão que vistos os imconvinientes e estado do tempo, que cada ves vay crescendo em pior, se ajumtasem, em cada somana, quarta feira no lugar de Condeixa a nova, por ser lugar acomodado e mais nobre de todos os do termo da cidade e por nelle se fazer amtiguamente jaa, por outro tal tempo como este, camara no dito lugar, com declaração que a primeira jumta que se fizer no dito lugar de Condeixa sera a primeira quarta feira que vem em doze de Maio, por que neste tempo ja deve ser vimdo resposta e ordem de Sua Magestade, no provimento das justiças como convem ao governo da cidade e na forma em que temos avizado a Sua Magestade, […].

Assinaturas da Vereação, em exercício, em Abril de 1599

AHMC. Livro dos Acordos ... 1599, assinaturas 1.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1599, assinaturas 2.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1599, assinaturas 3.pn

Mosteiro de S. Fancisco da Ponte.png

Mosteiro de Sâo Francisco da ponte. Local onde a Câmara de Coimbra reúne durante o período de peste em 1599. Grav. Coimbra séc. XVIII, Estampas Coimbrãs, Coimbra, 1964, vol. 1, n.º 7

Cerca de Santana.png

Cerca de Santana. Fora da Porta do Castelo, local onde ficariam os pobres, para receberem as esmolas e o sustento que a cidade providenciaria durante a peste de 1599.Grav. Coimbra séc. XIX, Estampas Coimbrãs, Coimbra, 1964, vol. 1, n.º 24.

 

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Catálogo da Exposição. Textos de transcrições de Paula França, Maria Fernanda Ribeiro, Soraia Pimentel. 2021.Coimbra, Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 10:20

Quinta-feira, 03.06.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 22

A Escola Industrial Brotero deambula pela cidade 1

Ao subir a Avenida Sá da Bandeira voltamos a deter-nos para pensar no grandioso edifício, nunca construído, destinado a nele funcionar a Escola Industrial e Comercial Brotero. Mas, para tal, forçoso se torna recuar no tempo e compreender a filosofia que envolveu a criação daquele estabelecimento de ensino.

A monarquia estava, no final de Oitocentos, a investir na instrução, com particular ênfase na vertente industrial, até porque chegara à conclusão que este tipo de desenvolvimento, já posto em prática noutros países, funcionara como mola impulsionadora do progresso.

É no contexto da ideologia subjacente que António Augusto de Aguiar assina, a 03 de janeiro de 1884, o decreto que criava, em Coimbra, a Escola de Desenho Industrial, ‘batizada’ de Brotero, em dezembro do mesmo ano.

Fig. 38. O refeitório dos crúzios albergou, conj

Fig. 38 – O refeitório dos crúzios albergou, conjuntamente com a Associação dos Artistas de Coimbra, a Escola Brotero. [BMC.I, Bmc_b231].

Para albergar o novo estabelecimento de ensino a Câmara cedeu a igreja do Colégio da Trindade, mas a escola jamais se alojou no templo e, para que o novo estabelecimento de ensino iniciasse as suas funções, a Associação dos Artistas que, como vimos, ocupava o refeitório crúzio, em 1885, ofereceu, de forma parcial, as suas instalações, para que as aulas se pudessem iniciar.

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Associação de Socorros Mútuos dos Artistas de Coimbra. Diploma

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Refeitório dos crúzios, hoje Sala da Cidade

Dois anos volvidos, em 1887, os vereadores republicanos António Augusto Gonçalves e Manuel Augusto Rodrigues da Silva apresentaram uma proposta no sentido de transformar a Brotero numa escola industrial. A sugestão justificava-se porque, na cidade, a indústria mais vultuosa era a da cerâmica e porque se perfilava a hipótese de que a Escola Nacional de Cerâmica “que andava na mente do Sr. ministro das obras públicas”, se localizasse em Coimbra.

A alteração veio a acontecer quando Emídio Navarro, através de decreto publicado no Diário do Governo de 10 de janeiro de 1889, transforma a “Escola de Desenho Industrial” em “Escola Industrial” Brotero.

Três anos antes (1886), sendo diretor António Augusto Gonçalves, a escola passou a utilizar, para além da parte da sala cedida pela Associação dos Artistas, o espaço pertencente à Câmara Municipal situado por cima do refeitório crúzio; contudo, em meados de 1889, o estabelecimento de ensino, então ‘provisoriamente’ instalado, continuava a usufruir os mesmos espaços.

Como consequência, procedeu-se a adaptações que passaram por lhe anexar, num primeiro momento, o andar superior da ala oeste do claustro da Manga (atual Jardim da Manga), a antiga capela do noviciado e, mais tarde, o segundo piso da fachada sul, bem como o próprio claustro e os pisos térreos das duas mencionadas alas.

Fig. 39. Claustro da Manga. [Revelar Coimbra, 31].

Fig. 39 – Claustro da Manga. [Revelar Coimbra, 31].

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

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por Rodrigues Costa às 12:04

Terça-feira, 01.06.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos 1

Numa longa cronologia que definimos do século XIV ao XIX, constatamos vários surtos epidémicos, de diferentes patologias. Ressaltam os mais violentos de peste bubónica e propagam-se de umas zonas para outras, através das rotas comerciais.

O surto mais violento, largamente documentado, chega à Europa em 1348, através de Itália e tem origem no Oriente. Afetará também, Portugal e Coimbra.

No século XV, em Portugal, as pestes estão associadas às guerras e conquistas no Norte de África, concretamente à conquista de Ceuta, em 1415.

No século XVI serão os contatos comerciais a trazer a peste a Lisboa, e Porto. Os séculos XVII, XVIII e XIX trarão outras epidemias: a febre amarela, a cólera, a varíola. O último surto de peste bubónica, atingirá Portugal, em1899.

Ao longo dos séculos constata-se também que estes surtos epidémicos aparecem associados a “alterações climáticas”, diríamos hoje: cheias, secas, tendo como consequência maus anos agrícolas, fomes, e grande mortalidade exigindo dos governantes várias medidas de recuperação económica, consubstanciadas em vária legislação de que é um exemplo a “Lei das Sesmarias”, em 1375, obrigando ao cultivo dos campos incultos e abandonados e tentando impedir a fuga do campesinato para as cidades, em busca de melhores condições de vida.

A epidemia de 1569

… O Dr. António de Oliveira, nosso professor de saudosa memória, a quem prestamos aqui a nossa sentida homenagem, na sua tese de doutoramento sobre Coimbra, no século XVI, apresenta a evolução da população, a partir da análise dos Registos de Baptismo e Óbito, nas várias paróquias de Coimbra, entre 1545 e 1640. É notório o pico de mortalidade devido às epidemias, em 1569 e 1599-1600 e a consequente baixa da natalidade.

Captura de ecrã 2021-05-27 202812.png

No reinado de D. Sebastião há um surto de peste em Lisboa, em Janeiro de 1569, que se vai espalhando por outros locais do reino.

Em Coimbra têm conhecimento da situação e vão tomar diversas medidas, a partir de Julho, para defender a cidade: nomeiam um guarda-mor, encerram as portas da cidade, estabelecem o isolamento “degredo”, para os que vêm de locais infectados na zona de Vila Franca.

AHMC. Livro dos Acordos e Vereções da Câmara de

Livro dos Acordos e Vereações da Câmara de Coimbra, do ano 1569. (Fevereiro, 12 até -Dezembro, 29).1569, Julho, 20, Vereação [fl. 90]

 […] - E logo na dita camara asemtarão que todalas pesoas que vyerem a guarda dos lugares empedidos e quiserem emtrar nesta cydade sendo lhe duvidada pello guarda moor se va por nos olivaeis de vila Framqua, ao longo do rio pasando pelo vao, a quinta d’ Ambrosyo de Saa, e não comunyquarão com pessoa algua da terra somente tomarão seu comer pelo regimento que lhe der o guarda moor, omde estarão em degredo os dias que lhe for manda[do] pelo guarda moor, que conheser de suas sertidões a soalhamdo seu fato e pessoas cada dia.

- E neste tempo que emtrarem em seu degredo o farão serto, digo, a saber a Gonçalo Afomso, morador na Copeira e asy quamdo hacabarem so pena de dous mil rs, e hum ano de degredo semdo achados que não cumpram estes mandados, a metade pera os tapumes desta cidade e a outra pera quem os acusar,

- E asy mais asemtarão que toda a pessoa que for achada pasar e sobyr pellos tapumes que estam pera guarda destes ares maos paguara mil rs, as pessoas que [fl. 90v] sem licença e os moços que amdarem sobymdo e destapando cem rs, a metade pera os tapumes da cidade e a outra pera quem os acusar,

… [fl. 93v] Aos trimta dias do mes de Julho de mil quinhentos e sesemta e nove em camara foy mandado a Bras Foreyro, que por constar vir de terras empedidas destes ares maoos de peste de que Noso Señor nos livre, que elle estevese em degredo, na sua quinta sem sair fora della a comunicar nem falar das suas janelas com pessoa nenhua, so pena de semdo achado fora a falar com nyngem so licença do guarda moor, pagar cem cruzados, hua parte pera a cidade e a outra pera os tapumes da dita cidade, e outra pera quem o acusar […]

… [fl. 149v] - Aos sete dias do mes de Dezembro de mil e quinhentos e sesemta e nove deu sua fee Pero Fernandez como apregoara pelos lugares pubricos que nenhua pessoa de qualquer calidade que seja joge a bola nos olivaeis e cemsiraeis d’alem da pomte,

Gravura do jogo de Calcio 2.png

Gravura do Jogo de Calcio, Florença séc. XVII. Pietro di Lorenzo Bini (ed.), Memorie del calcio fiorentino tratte da diverse scritture e dedicate all'altezze serenissime di Ferdinando Principe di Toscana e Violante Beatrice di Baviera, Firenze, Stamperia di S.A.S. alla Condotta [1688] https://pt.wikipedia.org/wiki/Calcio_Storico#/media/Ficheiro:Calcio_fiorentino_1688.jpg

nem va a pescar da Lapa dos Esteos ate o Almege, nem a jogar a bareyra soma de dous mil rs, a metade pera os tapumes desta cidade e a outra pera quem os acusar, e asy pelo dito modo que nenhua pesoa joge bola nem bareyra no Arnado, des a pomte ate a Fontoura nem pesque fora dos tapumes da cidade, sob a dita pena e asy pelo dyto modo das cousas segimtes, da porta do Castello ate Aregaça, sob a dita pena, como foy acordado em camara e asynou aquy o dito Pero Fernandez, porteyro. João Gonçalvez de Sequeira, o sprevi. […]

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 1.pn

 

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 2.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 3.pn

AHMC. Livro dos Acordos ... 1569, assinaturas 4.pn

 

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Catálogo da Exposição. Textos de transcrições de Paula França, Maria Fernanda Ribeiro, Soraia Pimentel. 2021.Coimbra, Arquivo Histórico do Município de Coimbra.

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por Rodrigues Costa às 10:44

Quinta-feira, 27.05.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 21

O Theatro-Circo

Na Avenida Sá da Bandeira, um pouco mais acima da escola primária, erguia-se o edifício do Teatro Avenida, hoje substituído por um ‘magnífico’ shopping.

Teatro Avenida. Exterior.jpg

Teatro Avenida, exterior

Teatro Avenida. Demolição. Foto NCB.jpg

Teatro Avenida, demolição. Foto NCB

No século XIX, aquando das intervenções levadas a cabo sobretudo na zona das catedrais, destruíram-se as construções que as rodeavam, quebrando todo o diálogo com a malha urbana, a fim de abrir praças capazes de possibilitar a inclusão dos templos nas máquinas fotográficas dos turistas ou então para que, como refere causticamente Alexandre Herculano “a vadiagem possa estirar-se regaladamente ao sol”.

Nem a igreja de Santa Cruz escapou ao desejo, felizmente não concretizado, de ser destruída para dar lugar a uma praça; quem no-lo dá a saber é também Alexandre Herculano quando escreve em O Panorama: “Levaram-nos a Coimbra no anno de 1834 obrigações de serviço publico: ahi residiamos quando foi supprimido o mosteiro de Sancta-Cruz. Correu então voz pública de que houvera quem se lembrasse de pedir que este bello edificio fosse entregue á municipalidade. Ninguem imaginará para que. Era para esta o mandar arrazar, e fazer uma praça. Não veio a lume este projecto nefando, mas não foi por mingoa de bons desejos. Uma praça no logar onde estivera Sancta-Cruz; uma praça calçada com os umbraes esculpidos do velho templo, com as lagens quebradas dos tumulos de D. Afonso Henriques, de D. Sancho 1.º, e de tantos varões illustres que alli repousam!”.

Mas se, no século XIX, a ideia chave passava pela construção de praças, no XX transferiu-se para a instalação de shoppings e o camartelo da incúria e da ignorância passou a derrubar edifícios carismáticos para satisfazer interesses que, sob a capa de modernidade, não passam de puramente economicistas ou demagógicos.

Ultrapassemos este espírito destruidor para recordar os passos empreendidos pelos homens do final de Oitocentos, a fim de conseguirem dotar a cidade com uma sala de espetáculos equestres digna.

No dia 27 de novembro de 1890 a Câmara Municipal de Coimbra levou à praça uma série de 21 lotes, quase todos sitos na atual Avenida Sá da Bandeira; entretanto, como vinte cidadãos da terra expressassem o desejo de construir, naquele local, um Teatro-Circo, foram excluídas da hasta pública três parcelas. Os interessados pretendiam a cedência dos terrenos mediante a outorga de certas facilidades, por isso, dado tratar-se de um empreendimento notável que envolvia, de uma forma ou de outra, toda a comunidade, o assunto foi discutido na sessão camarária de 04 de dezembro.

Fig. 36. O Theatro-Circo (Teatro Avenida) erguia-s

Fig. 36 – O Theatro-Circo (Teatro Avenida) erguia-se na Av. Sá da Bandeira. [AHMC. Diversos, maço 3, documento 2].

Terminou por lhes ser cedida uma área de 1602 m2, ao preço de 300 réis por unidade, benefício notório, visto que, em média, naquela zona, o terreno estava a ser vendido por 680 réis. A autarquia favoreceu os concessionários, mas, não o fez sem imposições, porque, na escritura pública de venda, lavrada a 14 de fevereiro de 1891, ficaram estipuladas, entre outras, as seguintes cláusulas:

“Condição 4.ª – O terreno não pode ser aplicado a outro fim, voltando nesta hipótese para a posse do município.

“5.ª – Se, depois de construído o Theatro-Circo, houver de se lhe dar outra aplicação por motivo de força maior, os possuidores do referido Theatro serão obrigados a indemnizar a câmara...”.

Encarregou-se de riscar o projeto do novo Teatro-Circo o arquiteto Hans Dickel, também responsável pelo delineamento de muitas das casas que então iam povoando o novo Bairro de Santa Cruz.

A fachada do edifício apresentava-se muito simples, até mesmo pouco elaborada, mas a estrutura do conjunto unia a alvenaria ao ferro, entrando no âmbito de uma certa modernidade.

Em dezembro de 1891 “activam-se os trabalhos para que se possam dar alli epectaculos equestres já em Janeiro proximo. O palco é que ainda se acha atrazado, devendo ser concluido em Março ou Abril. Andam a trabalhar no theatro Circo aproximadamente 100 operarios. O estuque está entregue ao habil industrial sr. Francisco Antonio Meira. As grades dos camarotes, as columnas que os sustentam, e as numerosas cadeiras para a plateia, tudo foi fundido na acreditada officina do sr. Manoel José da Costa Soares. (...) Consta-nos que se encarrega da pintura do panno de bocca, o distincto professor o sr. Antonio Augusto Gonçalves”.

A capacidade da sala, onde se podiam realizar espetáculos equestres, de declamação e de canto orçava pelos 1700 lugares, tendo o seu custo ultrapassado os 20 000$000 réis.

Fig. 37. Theatro-Circo (Teatro Avenida) [Bilhete P

Fig. 37. Theatro-Circo (Teatro Avenida) [Bilhete Postal].

O teatro, depois de inaugurado, a 20 de janeiro de 1892, com a atuação de uma “companhia equestre, gymnástica, acrobática, cómica e mimíca, do Real Coilyseo, de Lisboa, de que é director o sr. D. Henrique Diaz”, permitiu que Coimbra passasse a ter “uma casa de espectaculos em muito boas condições, e digna de uma terra civilizada”.

Em junho daquele mesmo ano, por ocasião das festas da Padroeira de Coimbra, a família real deslocou-se à cidade e, por decisão assinada pelo rei D. Carlos no Paço das Escolas a 23 de junho, a sala passou a denominar-se “Theatro-circo Principe Real”.

Mas não foi esta a última vez que a casa de espetáculo alterou o seu nome ao sabor das correntes políticas, porque, em 1910, depois da implantação da República, transmutou-se para Teatro Avenida, não sem que algumas pessoas se insurgissem pelo facto, pois entendiam que a estrutura devia adotar o nome de Teatro Sá de Miranda.

Esqueçamos as transferências de dono acontecidas após a inauguração, para recordar o desempenho do Teatro Avenida na cultura das gentes da cidade e, sobretudo o papel de relevo que representou na vida académica.

Dotar a cidade com um auditório condigno passou a ser um pressuposto que integrava todos os programas dos candidatos à presidência da Câmara de Coimbra dos anos 70 e 80 do século XX; também o foi daquele que ocupava a cadeira máxima da edilidade quando a vereação, em 1983, aprovou a entrada do camartelo no edifício do teatro. A promessa ficou por cumprir e perdeu-se, nessa altura, uma boa oportunidade de a concretizar, até com custos reduzidos, porque, penso, apesar das contantes alterações legislativas, que as cláusulas arroladas numa escritura não serão modificadas nem prescrevem com o tempo.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

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por Rodrigues Costa às 19:20

Terça-feira, 25.05.21

Coimbra: Pestes ao longo dos séculos

No Arquivo Histórico Municipal de Coimbra encontra-se patente ao público uma pequena exposição que tem por tema «D’este mal de peste, que Deus nos livre».

A mostra impõe-se por si e, embora refletindo as limitações do exíguo espaço disponível, afirma-se, sobretudo, pelo excelente Catálogo que insere ainda um belíssimo estudo relacionado com a documentação encontrada e exposta.

Tanto o catálogo, como a exposição resultam do trabalho levado a cabo pelas funcionárias daquele departamento municipal.

Capa.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre.

Capa. Letra T.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Capa, pormenor.

O título que é uma citação tirada da página 35, do Livro dos Acordos e Vereações da Câmara de Coimbra, do ano 1598.

Documento. p. 35.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Pg. 35

Profusamente ilustrado é o seguinte o teor da sua apresentação.

Os tempos extraordinários que estamos a viver, determinaram o confinamento em Março de 2020, devido à pandemia de COVID-19, que afectou o nosso país. O AHMC, como outros serviços da administração pública, teve que encerrar ao público.

Readaptando o nosso trabalho arquivístico a estas circunstâncias, encetámos uma pesquisa sobre o tema das doenças, ao longo da história: como é que a cidade de Coimbra, vivera estas situações ao longo dos séculos, como se organizara, que medidas tomara para proteger a população, e assegurar a sobrevivência, como enfrentara a adversidade e gerira o bem comum.

O objetivo seria divulgar essa informação, quando pudéssemos reabrir novamente, através da organização de um projecto expositivo, num formato físico, no espaço da sala do Arquivo que pudesse ser visitável, ou num formato digital (pdf), para divulgar através do espaço do Arquivo Histórico no site do Município.

Assim sendo, que tipo de documentos nos forneceriam as melhores informações sobre este assunto, no nosso Arquivo, e noutros arquivos, que tipo de fontes históricas devíamos analisar?

O primeiro passo desta investigação, para os que conhecem os nossos instrumentos de descrição documental, seria através da consulta do Catálogo do AHMC, e do inventário antigo de Ayres de Campos.

Numa segunda etapa, pesquisámos também os Anais do Município de Coimbra de, 1640-1668 e de 1840 até 1959, a melhor forma de referência para encontrar deliberações do executivo municipal, ao longo do tempo.

Encontrámos bastantes referências: do século XIV até ao século XX. O difícil iria ser, ter de selecionar.

Letra E. p. 15.jpg

D’este mal de peste, que Deus nos livre. Pg. 15. Extraído de Tractado repartido en cinco partes principales que declaran el mal que significa este nombre peste […], Ambrosio Nuñez, em Coimbra, na Officina de Diogo Gomez Loureyro, 1601.

Uma recomendação: trata-se de uma exposição para ver e de um catálogo para ler e analisar. Espero, proximamente, voltar a este tema.

Rodrigues Costa

 

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por Rodrigues Costa às 10:42


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