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A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 14.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 4

Vista geral da Alta, antes das demolições.jpg

Vista geral da Alta, antes das demolições

Durante o primeiro terço do século XX, os grandes projetos de remodelação urbana centravam-se na Baixa, mas foi na Alta que, quase subitamente, eles se começaram a aplicar. Por razões que não cabem neste momento explicar, o Estado Novo encetou em 1942 um vasto projeto de reconstrução das instalações universitárias, que ocasionou a demolição de mais de duzentos prédios e a construção de grandes blocos destinados a Faculdades.

Prédios demolidos durante as obras da Cidade Universitária segundo o número de pisos

Tipos de prédios  Número  Percentagem

Um piso                          1                   0,5
Dois pisos                     10                   5,0
Três pisos                     46                 22,8
Quatro pisos                 95                 47,0
Cinco pisos                   49                 24,3
Seis pisos                       1                   0,5
TOTAL                        202               100,1

Localização dos prédios demolidos.jpg

Localização dos prédios demolidos

…. Na véspera da construção da cidade universitária, a Alta era mais importante do que hoje não só por razões simbólicas, mas também pelo número e proporção de habitantes relativamente ao total de Coimbra e pelo superior relevo económico. O crescimento urbano verificado até 1940 não diluíra a polarização Alta-Baixa e o incremento da circulação automóvel ainda não tornara obsoletas as suas íngremes e estreitas ruas.
Ao contrário do que pretendeu e em grande parte realizou o Estado Novo, durante séculos não houve segregação entre zonas residenciais e escolares. A vizinhança entre os locais de ensino e os quarteirões de habitação, associada à dispersão dos colégios e dos próprios estudantes, implicava as zonas mais afastadas da Alta na atividade universitária sem que, no seu núcleo, fosse sentida qualquer necessidade de isolamento. Mas o plano de Cottinelli Telmo, responsável pela revolução urbanística realizada ao longo dos anos quarenta e sessenta, no seguimento de sugestões anteriores, assumiu a ideia de monofuncionalizar a área universitária.
A demolição sistemática da zona superior da Alta permitiu construir o Arquivo (1943-1948), a Faculdade de Letras (1945-1951), a Faculdade de Medicina (1949-1956) e os edifícios da Matemática (1964-1969) e de Física e Química (1966-1975): quatro imóveis de estudada monumentalidade, que provocaram uma profunda rutura urbanística e arquitetónica. E ainda ficou por construir o hospital previsto para o local dos Colégios de S. Jerónimo e das Artes, e os pórticos unindo os edifícios.

Alta de Coimbra. Rua Larga.jpg

Alta de Coimbra. Rua Larga. Década de 40

Vista geral da Alta, depois das demolições.jpg

Vista geral da Alta, depois das demolições

…Toda a zona se encontrava vivificada por um ativo comércio, ocupando o rés-do-chão de inúmeros prédios, vocacionando para a satisfação das necessidades diárias e ocasionais da população. Lucília Caetano … concluiu pela existência, na área demolida, dos seguintes «artesãos e pequenas empresas artesanais»: em 1942, havia seis alfaiatarias, duas modistas de vestidos, um marceneiro e restaurador, quatro encadernadores e douradores, duas tipografias, duas latoarias, cinco barbearias e uma relojaria. De acordo com a mesma autora, havia em 1910 sessenta e sete estabelecimentos comerciais e artesanais na Alta destruída e quarenta e sete fora dela.
… O plano de Cottinelli Telmo não alterou apenas o rosto da acrópole universitária. Devido ao âmbito das expropriações e à inerente necessidade de realojamentos, o seu impacto estendeu-se ao resto da cidade.

Vista geral do Bairro de Celas.jpg

Vista geral do Bairro de Celas

Em 1952, o reitor Maximino Correia calculou em dois a três milhares o número de pessoas que foram obrigadas a abandonar a Alta, ou seja, cerca de 5% da população da cidade, que em início dos anos quarenta rondava os cinquenta mil habitantes. A construção de bairros de realojamento apressaram e em parte definiram esse desenvolvimento urbano.

Rosmaninho, N. Coimbra no Estado Novo. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 65-92.

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por Rodrigues Costa às 09:45

Terça-feira, 12.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 3

«Por 1850, Coimbra continuava ainda o velho burgo académico, iluminando-se a candeeiros de azeite, sem águas canalizadas, nem esgotos, nem vias férreas, nem estradas, nem escolas, dormitando letargicamente à sombra da Universidade e restabelecendo-se penosamente e com lentidão do enorme abalo sofrido com a extinção das congregações religiosas que mantinham aqui nada menos de 7 mosteiros e 22 colégios».
Assim escreve José Pinto Loureiro, em 1937, no preâmbulo dos «Anais do Município de Coimbra».
… Eram de facto estas as características da vida urbana. Mas Coimbra não era exceção nem caso isolado. Era a regra. Durante a primeira metade de oitocentos muitas cidades portuguesas e mesmo a capital do reino encontravam-se, quanto ao desenvolvimento urbano, tal como as da grande maioria dos países europeus, expectantes.

Cidade de Coimbra. Pinho Henriques.JPG

Cidade de Coimbra. Pinho Henriques. Séc. XIX

… A construção das infraestruturas é um tema caro às politicas liberais. Como resultado destas iniciativas, a partir da segunda metade do século, Coimbra ganha outro protagonismo dentro da rede urbana nacional. A mala-posta, em 1855, servindo-se de uma estrutura viária renovada, volta a ligar a cidade ao Carregado, retomando-se um serviço de transporte rápido e regular. Mas o tempo de comunicação da informação ainda mais se encurta quando, em 1856, no mesmo ano em que a cidade se ilumina a gás, se inaugura o telégrafo elétrico entre Lisboa e Coimbra, e depois Porto, anunciando a chegada do comboio. No entanto, é apenas em 1864 que a cidade passa a integrar a rede ferroviária com a inauguração do troço entre Taveiro e Vila Nova de Gaia, completando-se a linha do norte. Paralelamente a administração pública municipal vai-se modernizando, de acordo com a lei de 25 de novembro de 1854, reduzindo em número as freguesias e regularizando as suas fronteiras.
Criaram-se, assim, as condições para a implementação dos melhoramentos necessários a Coimbra.

Projecto para instalação de canos de abastecimen

Projecto para instalação de canos de abastecimento à cadeia da Portagem. Joaquim José de Miranda. Séc. XIX

Projeto da Ruas da Calçada. João Ribeiro da SilvProjecto da estrada entre as ruas da Calçada e da Sofia. João Ribeiro da Silva. 1857
Ponte de Santa Clara.jpgPonte de Santa Clara

…Como parte do programa de regularização e subida da cota dos cais incluiu-se o redesenho do largo da Portagem e a construção de uma nova ponte. O largo ganhou uma dimensão moderna como entrada urbana e como rótula de distribuição viária, depois de vagas de demolições e obras de regularização. A ponte construiu-se em ferro, no ano de 1875, depois da demolição da antiga ponde de pedra, em 1873,
…. Pela nova ponte continuou a conduzir-se o tráfego que ligava, pelo litoral, o norte ao sul do país, cruzando o largo da Portagem e percorrendo as ruas até Santa Cruz, e daí até à saída pela rua da Sofia, prolongada na rua Fora de Portas. Era este o caminho urbano da estrada real na ligação de Lisboa ao Porto e por aqui passavam as carruagens ao serviço da mala-posta.

Macedo, M.C. Coimbra na segunda metade do século XIX. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 43-64.

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por Rodrigues Costa às 18:59

Quinta-feira, 07.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 2

No contexto ibérico, o sítio de Coimbra – cartograficamente assinalado com um caprichoso meandro do rio Mondego – é um módulo de importância nevrálgica entre o norte e o sul, o interior e o litoral. Já ao nível do território de transição entre o Baixo e o Alto Mondego, especificidades da colina que hoje designamos por «Alta» ou «Almedina» ditaram um precoce despontar do aglomerado que, desde logo, o processo de romanização fez florescer como cidade. Eram elas as características defensivas naturais, o domínio do Mondego, e dos vales nele concorrentes, a exposição ao rio pelos quadrantes mais favoráveis em termos solares, o fácil acesso fluvial ao mar e ao interior, os recursos aquíferos do subsolo, etc.

Réplica da pedra gravada do MNMC.jpg

Réplica da pedra gravada do MNMC, 395 ou 396 da era cristã

… Hoje estável e controlado, o rio foi de facto até há pouco menos de dois séculos um rebelde elemento de perturbação do quotidiano e [do] desenvolvimento urbanos de Coimbra. Correndo sobre um leito cujo perfil ainda não se encontrava estabilizado, o Mondego autoproduziu esse incontornável equilíbrio através de consecutivas, torrentosas e, por vezes, trágicas cheias, condicionando durante séculos – em especial durante a Idade Moderna –, todo o desenvolvimento urbanístico da «Baixa» da cidade e, por reflexo, o da própria «Alta». Em média, a cota do seu leito subiu até então 8 centímetros por década, destruindo e/ou açoreando diversos conjuntos edificados nas suas margens durante a Idade Média e, claro, a ponte instalada pelo menos desde a fundação da nacionalidade.

Conimbriae. J. Jansonus. C. 1620.jpg

Conimbriae. J. Jansonus. C. 1620

…. Sabemos, por exemplo, que é a cerca de uma dezena de metros de profundidade que, sob o Largo da Portagem, jaz o pavimento de acesso à ponte primitiva.

Illustris Ciutatis Conimbria.JPG

Illustris Ciutatis Conimbria in Lusitania. Georg Hoefnahel/Hogenbeerg, colorida por Braun, 1598

… Mas a influência da plasticidade global do suporte territorial na evolução morfológica da cidade torna-se particularmente relevante se melhor nos focarmos sobre a própria colina (…) tem ela uma expressão morfológica planimétrica algo em ferradura com abertura a poente (…) Continuando, inevitavelmente, a acentuar as principais características topográficas da colina, da dinâmica da dualidade habitante-invasor acabou por resultar do penúltimo dos casos da ocupação estranha – o do invasor islâmico nos últimos séculos do primeiro milénio – uma estrutura palatina sobre o extremo mais proeminente da tal virtual ferradura. Também então se reformava o perímetro defensivo que, de uma forma geral, consistia na linha definida pela intersecção entre as encostas de declives praticáveis e impossíveis. No fundo a muralha acabou por acentuar a já clara individualidade da colina, da cidade ou, se assim o quisermos, da «Almedina». Mas complementarmente também salvaguardou o aceso seguro às zonas baixa e ao rio.

Pormenor da cópia manuscrita da planta do castelo

Pormenor da cópia manuscrita da planta do castelo de Coimbra

Protegendo a retaguarda e simultaneamente o acesso mais fácil ao topo pelo festo do Aqueduto [de S. Sebastião], implantou-se e desenvolveu-se também pela primeira dobragem do milénio o castelo, o qual em articulação com o palácio, clarificou o desenvolvimento daquele que ainda hoje é o principal eixo viário da «Alta», a Rua Larga.

Rossa, W. O Espaço de Coimbra. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 17-42.

 

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por Rodrigues Costa às 22:26

Terça-feira, 05.02.19

Coimbra: Evolução do Espaço Físico 1

O Concelho de Coimbra com 31 freguesias e uma área aproximada de 317 km2, teve uma evolução populacional apreciável, entre os anos sessenta do século XIX e os anos sessenta do século XX. Os censos de 1864 … indicavam uma população de 40.681 habitantes; cerca de cem anos depois, a estatística de 1960, apresenta uma população concelhia de 106.404 habitantes…. Atualmente, [2001], a população do concelho atingiu os 148.443 habitantes.

Mapa topográfico da cidade com a divisão das freMappa topográfico do Bispado de Coimbra com todas as vilas, parochias e Lugares. José Carlos Magne 1797

…. No que respeita apenas à Cidade, existem elementos cartográficos desde 1845.
… A malha urbana da cidade encontrava-se espartilhada por duas cintas: a primeira, a conventual, e a segunda formada por um enorme conjunto de quintas. No século XIX, deram-se grandes alterações na estrutura produtiva da maioria dessas grandes quintas que rodeavam a cidade de Coimbra, com as suas casas solarengas, das quais algumas ainda resistem como, por exemplo, a do Regalo, Espertina, Portela e das Lágrimas, algumas absorvidas pelo crescimento urbano, outras ainda em ruínas expectantes.
A cintura de mosteiros, mais junto da cidade, tornou difícil o desenvolvimento urbano de Coimbra durante muitos séculos: mosteiros como os de S. Domingos, de Celas, de Santa Cruz, Santa Ana, Santa Clara, S. Francisco e Santa Teresa, impediram diretamente a expansão da cidade.

A Cidade de Coimbra. Evolução do espaço urbano.

A Cidade de Coimbra. Evolução do espaço urbano

Relativamente à cidade é mais fácil determinar com rigor o seu crescimento, quer pela existência de elementos edificados datáveis, quer pela existência de cartografia [feita] com rigor, desde 1873. A área urbana cresceu 10 vezes entre 1873 e 1940, e passou de 1.106 ha (1940) para 3.000 ha (Plano Diretor Municipal – 1944).
…. Nos finais deste século [séc. XX], a cidade conheceu um crescimento importante da sua população (40% em 30 anos), sem que se assistisse ao crescimento da sua área urbana, que nas primeiras décadas do século XX aumentou consideravelmente.
Se nos finais do século XVI, a Rua da Sofia é o suporte do desenvolvimento urbano, nos finais do século XIX é a Avenida Sá da Bandeira que serve de eixo de desenvolvimento: arruamento desanexado à Quinta de Santa Cruz aonde, a partir de 1880, são postos à venda lotes de terreno.
…. Entre 1900 e 1930, a área urbana da cidade duplicou. Com este crescimento aumentou também o número de indústrias na parte baixa da cidade e posteriormente ao longo da via férrea e da Estrada Nacional n.º 1. A zona da «Baixinha» ressentiu-se com esta deslocação de atividades e desde então começou-se a sentir a necessidade de algum planeamento. São desta época os primeiros planos para a sua reestruturação.

Plan d’Aménagement et d’extension.jpg

Plan d’Aménagement et d’extension – Rapport génerale. Étienne de Groër. 1940

…. Um certo imobilismo das administrações local e central levou a que somente em 1839, se adjudicasse um primeiro plano, de carácter geral, ao Arq. Étienne de Groër.
…. Em termos futuros, a atenção de todos nós, deverá concentrar-se nestas áreas suburbanas em termos de requalificação. Embora o Centro Histórico necessite de urgente reabilitação, a sua concretização está mais dependente da resolução de problemas financeiros e de vontade política, do que de grandes estudos teóricos, dado que as metodologias de intervenção são já aceites há muito por todos.

Faria, J.S. Evolução do Espaço Físico de Coimbra. In: Evolução do Espaço físico de Coimbra. Exposição. 2006. Câmara Municipal de Coimbra. Pg. 9-16.

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por Rodrigues Costa às 18:57

Quinta-feira, 31.01.19

Coimbra: Vataça, uma Dona na vida e na morte

Vataça … Uma mulher com rosto, que se individualiza, uma «domina». Não é rainha, condessa, abadessa ou santa. O parentesco biológico e o artificial ligam-na, todavia, a rainhas e reis, abadessas e santas. Mas a sua aristocracia distinta, a sua inteligência invulgar, o seu excecional tato diplomático fazem dela uma hábil conselheira, pacificadora de estados, informadora e agente político, recebendo em troca importantes mercês de reis e comprando ela própria castelos.
… Vataça era «filha da muy nobre Lascara inffante de Grecia» e do conde Guilherme Pedro de Vintemiglia e «imperatoris Graeciae neptis».
…. É exatamente em Barcelona, a 11 de Fevereiro de 1282, que se realizam os esponsórios de D. Isabel de Aragão e D. Dinis de Portugal. Com D. Isabel, vem como sua dama, D. Vataça, sua prima em 7.º grau.

D. Dinis e D. Isabel. Gravura da série LusitanoruD. Dinis e D. Isabel. Gravura da série Lusitanorum Regum Icones Ordinis Temporum Axpositae. 1791. [Lisboa. Biblioteca Nacional]

Desde então as suas trajetórias assimilam-se – na vida e na morte.
Na corte, na fidelidade da rainha, conhece Vataça Martim Anes um vassalo de D. Dinis … é sem dúvida um casamento político, arranjado na corte, porventura imposto (não o eram quase todos?), a ajuizar pela extrema diferença de idades entre os nubentes … não houve descendentes do consórcio… [Martim Anes] terá morrido a 21 de Agosto de 1295 … A 1 de Julho de 1296, as «honradas donas» Constança [mãe de Martim Anes] e Vataça dividem os bens de Martim Anes.
…. Ligada pelo parentesco e pela vassalidade com D. Isabel, escolhida para aia de sua filha D. Constança, uma vez viúva, vai como camareira-mor desta para Castela, quando se celebram suas bodas, em Alcanizes, no ano de 1297.

Constança de Portugal. Genealogia dos Reis de Por

Constança de Portugal. Genealogia dos Reis de Portugal. António de Holanda. 1534

…. A sua própria «criação» na corte, o contínuo papel de «mãe» e tutora de infantes e príncipes, o seu próprio estigma pelo afastamento da sua família do poder, o seu desenraizamento e possível apartidarismo e independência (mera imagem) fazem dela uma extraordinária e inteligente diplomata, conseguindo habilmente levar ao campo pacífico as discórdias existentes entre Castela e Aragão, relativas à sucessão do trono de Castela.
…. Em 1323 havia alguns anos que regressara de Castela, triste pela morte da sua infanta D. Constança [18 de novembro de 1313] e ferida com os conflitos gerados sobre a tutela e regência dos herdeiros menores, que nela se repercutiram.
…. A partir da morte de D. Dinis, em 1325, as relações entre D. Vataça e D. Isabel estreitaram-se ainda mais, pois passaram a habitar ambas os paços de Santa Clara…. Sabendo-se ainda que, para além de viverem à sombra das clarissas, D. Isabel, no seu testamento escolhe para a sua sepultura o mosteiro de Santa Clara … D. Vataça … será a Sé de Coimbra que albergará o seu corpo e disporá da sua riqueza.

Túmulo de Vataça Láscaris rodeado de águias bi

Túmulo de Vataça Láscaris rodeado de águias bicéfalas, símbolo da nobreza Bizantina. Mestre Pero. 1336

O visitante ou o crente que percorra hoje, sob uma luz coada e amena, o repousante interior da vetusta Sé conimbricense, deparará do lado do Evangelho com um túmulo … Eis Vataça eternamente evocada pelo seu túmulo, esse monumento de vaidade póstuma, como já foi apelidado.

Estátua jazente do túmulo de D. Vataça.jpg

Estátua jazente do túmulo de D. Vataça

A sua figuração deve-se a Mestre Pero das Emanhas, artista vindo certamente de Aragão, que igualmente esculpiu o túmulo da sua senhora, a rainha D. Isabel. Os trabalhos teriam começado, sem dúvida, já em sua vida … [e] erguia-se no coro … de onde foi, posteriormente, removido.

Nota:
Sobre o mesmo tema as Autoras pulicaram: Os Bens de Vataça. Visibilidade de uma existência. Separata da Revista de História das Ideias, vol. 9. 1987. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Coelho, M.H.C. e Ventura, L. Vataça. Um Dona na vida e na morte. Separata de Actas das II Jornadas Luso-Espanholas de História Medieval. Vol. I. 1897. Porto, pp.159-194

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por Rodrigues Costa às 17:43

Quinta-feira, 31.01.19

Coimbra: Linha da Beira Alta 3 esclarecimento

Na passada 3.ª feira, na entrada que então publiquei, inclui a seguinte imagem

Estudante. Sec. XIX. Década de 70. Com o chapéu

Estudante. Sec. XIX. Década de 70. Com o chapéu referido no texto

O texto referido, era a descrição feita pelo jornalista Wolowski, do traje académico que ele viu os estudantes de Coimbra usarem e que descreveu da seguinte forma:

Os estudantes de Coimbra usam compridas túnicas pretas semelhantes às dos padres. Andam de cabeça descoberta, não querendo usar o chapéu regulamentar, que é deselegante. Fica surpreendido, que vem pela primeira vez a Coimbra, por encontrar a cada passo ou no passeio público um tão grande número de jovens descobertos.

O Senhor Professor Doutor Nelson Correia Borges, que tanto se tem dedicado ao estudo das tradições e dos usos e costumes de Coimbra, fez-me o favor de enviar o comentário que a seguir reproduzo, para conhecimento de quantos seguem o A'Cerca de Coimbra:

Só um comentário à foto de estudante que publicaste.
A capa está traçada de um jeito que se pode dizer típico de Coimbra. Já assim se pode ver numa escultura de João de Ruão. As tricanas traçavam o xaile desta mesma maneira e até as capoteiras, no tempo em que as usavam. O que o fulano tem na cabeça não me parece um chapéu, mas sim um barrete. Estes barretes eram de forma cilíndrica e não como agora os fazem e tinham uma parte reforçada que encaixava na cabeça. Eram compridos e podiam até servir para transportar livros. Conheci o alfaiate Louro que me explicou a maneira como eram confecionados.

 

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por Rodrigues Costa às 17:06

Terça-feira, 29.01.19

Coimbra: Linha da Beira Alta 3

Na estação de Coimbra, e diante desta, estavam milhares de pessoas. As deputações eram muito numerosas e com os mais variados trajes. Perante as fisionomias, sentíamo-nos numa cidade inteligente.Lentes da Universidade de Coimbra c. 1898.jpg

Lentes da Universidade de Coimbra. c. 1898

Os professores da Universidade usam túnicas negras e mantilhas cujas cores variam conforme a faculdade. A cabeça está coberta com um barrete de professor de forma especial e da mesma cor da mantilha.
Far-vos-ei a descrição destes trajes universitários numa outra carta, quando vos falar da própria cidade de Coimbra e de uma solenidade singular da qual não há nenhuma ideia no resto da Europa, quero dizer, da cerimónia de um doutoramento. São solenidades legadas à Universidade pela Idade Média e extremamente curiosas. Tive verdadeiramente sorte de chegar a Coimbra no dia em que a faculdade se enriqueceu com mais um doutor.
Voltemos à viagem real,
As carruagens do Rei, enviadas de Lisboa, esperavam em Coimbra. O vasto pátio da estação estava cheio. Era um oceano de cabeças.
À entrada do comboio na estação, as mesmas cerimónias que em Santarém.

[Uma receção solene estava preparada … Uma deputação liderada pelo governador civil (o governador civil é o perfeito) e os membros da Câmara esperava … Em Portugal, nas receções, o antigo costume do beija-mão foi conservado. Toda a gente, os mais altos funcionários do Estado, os generais, oficiais, magistrados, beijou a mão do Rei, da Rainha e dos Príncipes.

Dr. António Luiz de Souza Henriques Seco, preside

Dr. António Luiz de Souza Henriques Seco, presidente da vereação em 1863, vestindo o traje e exibindo as insígnias próprias do cargo (AHMC)

Os membros da Câmara Municipal usavam trajes, que são o meio-termo entre a batina do padre e a toga do advogado francês.

Estandarte e varas da Câmara de Coimbra.jpeg

Estandarte e varas da Câmara de Coimbra (AHMC)

Têm na mão, como atributo da sua dignidade, um bastão comprido, chamado em português de «vara», no cimo do qual se encontram pintadas as armas de Portugal ou da cidade.
Todas estas deputações eram apresentadas a suas majestades pelo governador civil. O Rei e a Rainha [D. Luís e D. Maria Pia] conservavam-se na plataforma do salão real.]

… Faltei à receção da Família Real em Coimbra, ouvindo apenas os vagos ecos dos vivas, os gritos lançados em honra do Rei, da Rainha, dos Príncipes e da Casa de Bragança.
Pude ver nas varandas, ornamentadas à moda italiana com tapeçarias e cortinados de todas as cores, muito lindas senhoras.
…. A carruagem real era literalmente bombardeada com flores, lançadas das varandas.
O Rei, a Rainha e os príncipes tinham os seus aposentos preparados nos paços da Universidade, no lugar mais alto da cidade, tal como em Lisboa, em anfiteatro.

Estudante. Sec. XIX. Década de 70. Com o chapéu

Estudante. Sec. XIX. Década de 70. Com o chapéu referido no texto

Os estudantes de Coimbra usam compridas túnicas pretas semelhantes às dos padres. Andam de cabeça descoberta, não querendo usar o chapéu regulamentar, que é deselegante. Fica surpreendido, que vem pela primeira vez a Coimbra, por encontrar a cada passo ou no passeio público um tão grande número de jovens descobertos.
Na Universidade, a Família Real dirigiu-se à capela onde se cantou um «Te Deum». Depois o Rei e a Rainha foram conduzidos debaixo de um pálio aos aposentos que estavam destinados a suas majestades.
Os convidados do comboio real e os membros de todas as faculdades, com reitor e decanos à frente, dirigiram-se a um salão do primeiro andar onde se realizou a receção. A cerimónia do beija-mão, incontornável em Portugal, recomeçou.
Cada um de nós deveria instalar-se na cidade, em hotéis, com a recomendação de estar no dia seguinte, às 6h30 da manhã, na estação.

Wolowski, B. A inauguração da linha da Beira Alta em 1882. Narrativa de viagem. Edição, introdução e notas de Hugo Silveira Pereira. Prefácio de Eduardo Beira. Vila Nova de Gaia, Inovatec.

 

 

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por Rodrigues Costa às 09:43

Quinta-feira, 24.01.19

Coimbra: Linha da Beira Alta 2

A real jornada iniciou-se na manhã do dia 2.8.1882 em Santa Apolónia, estação central de Lisboa … tendo chegado a Coimbra, onde a comitiva deveria pernoitar, por volta das 5 horas da tarde.
… Coimbra deixou uma excelente impressão ao autor, sobretudo todo o cerimonial de um doutoramento … à noite, depois de um «Te Deum» e de uma cerimónia de beija-mão … o Rei foi acolhido nos Paços da Universidade enquanto o resto dos convidados se hospedou em hotéis.

Estação da Figueira da Foz.jpg

Estação da Figueira da Foz. O Occidente, 142, Lisboa, 1882.12.01, p. 265

…. No dia seguinte, far-se-ia a inauguração da linha propriamente dita… às 10 horas … na Figueira da Foz … o bispo de Coimbra daria início à cerimónia da inauguração, benzendo as sete máquinas que deveriam servir nesta via-férrea.
…. À 1 hora da tarde o comboio arrancou da Figueira da Foz … a jornada tinha o atrativo humano, da turba que acorria à linha e às estações festejando com entusiasmo, bandeiras, vivas, foguetes e filarmónicas tanto a passagem dos monarcas com a inauguração da nova estrada de ferro. Uma descrição [o texto de Wolowski] que contrasta claramente com a fornecida pelos jornais da oposição ao governo para quem «o cortejo parecia um enterro»
Como seria de esperar, a inauguração foi aproveitada politicamente pelas duas maiores fações políticas da altura: o Partido Regenerador, que governava o País, e o Partido Progressista, que militava na oposição.

Completam o texto do referido livro várias ilustrações extraídas da revista satírica António Maria onde Rafael Bordalo Pinheiro, com a sua crítica mordaz e através do seu traço próprio, retrata magistralmente tal aproveitamento político.
Dessas ilustrações escolhemos as seguintes:

Viagem régia caricatura de Bordalo Pinheiro.jpg

Viagem régia. Pormenor. Caricatura de Bordalo Pinheiro (António Maria, n.º 167, pg. 255)

guardas da comitiva real segundo a imprensa do gov

Guardas da comitiva real segundo a imprensa do governo. Caricatura de Bordalo Pinheiro (António Maria, n.º 167, pg. 253)

guardas da comitiva real segundo a imprensa da opo

Guardas da comitiva real segundo a imprensa da oposição. Caricatura de Bordalo Pinheiro (António Maria, n.º 167, pg. 260)

A viagem do Rei segundo a visão do governo e da o

A viagem do Rei segundo a visão do governo e da oposição. Caricatura de Bordalo Pinheiro (António Maria, n.º 168, pg. 261)

Seja-me permitido inserir uma nota pessoal.
Embora tivesse tido um percurso político e continue a manter as minhas convicções de sempre, neste momento encontro-me totalmente desligado da política ativa. Não posso mesmo deixar de manifestar a minha tristeza pelo contexto atual, apesar de pouco saber, pois recuso-me a ver telejornais e a ouvir “comentários” políticos. Mas, ao preparar esta entrada não consegui deixar de refletir sobre a similitude das sátiras de Rafael Bordalo Pinheiro, publicadas há 136 anos, e a realidade política dos nossos dias. De facto, é triste constatar que em quase século e meio nada aprendemos (nem evoluímos) no campo da política.

Wolowski, B. A inauguração da linha da Beira Alta em 1882. Narrativa de viagem. Edição, introdução e notas de Hugo Silveira Pereira. Prefácio de Eduardo Beira. Vila Nova de Gaia, Inovatec.

 

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por Rodrigues Costa às 09:29

Terça-feira, 22.01.19

Coimbra: Linha da Beira Alta 1

A IniciativaTua – cuja obra meritória em prol da memória das linhas do Douro é de assinalar – promoveu a edição, em livro, do minucioso texto redigido pelo noticiarista de origem polaca Bronislas Wolowski que se identificou como sendo o único jornalista estrangeiro que assistiu, em 1882, à inauguração da linha da Beira Alta. O livro ora colocado nas bancas apresenta-se enriquecido pela introdução de Hugo Silveira Pereira e pelo prefácio de Eduardo Beira que nos permitem conhecer o percurso que levou à construção daquela linha ferroviária.

Quando Portugal pensou em construir caminhos-de-ferro, o principal objetivo passava por ligar Lisboa e o seu porto à Europa de forma mais rápida e direta possível.
…. Quanto ao modo como essa ligação se faria, as dúvidas eram imensas, em virtude da falta de conhecimento estatístico e orográfico do País por parte dos governantes nacionais (o primeiro mapa moderno de Portugal elaborado com bases científicas data de meados da década de 1860) ... Se era óbvio que a via férrea se deveria dirigir à fronteira leste da Beira ou do Alto Alentejo, já a determinação do ponto preciso da raia a atravessar e a diretriz em Portugal eram questões mais complexas.

Como no livro se encontram minuciosamente referidas as possíveis opções que foram sendo avaliadas ao longo do processo, limitar-nos-emos aqui a assinalar as que apresentam Coimbra como ponto de partida ou como local de passagem.

Equacionou-se a possibilidade de se construir uma linha pela Beira interior, tendo-se ordenado estudos entre 1858 e 1861.
…. O terceiro projeto … era mais consistente e anunciava a linha da Beira como a base de todos os caminhos-de-ferro nacionais (seguia pela linha do Norte até Miranda do Corvo, divergindo depois por Lousã, Arganil, Seia, Celorico, Almeida e Valladolid …) a alternativa pela margem direita do Mondego, por Pampilhosa, Santa Comba Dão, Mangualde e Celorico da Beira era descartada por ser demasiado difícil.

…. Em 28.3.1864, Rocca e Piombino & Companhia propõem-se estudar um caminho-de-ferro entre Lisboa e Almeida passando por Sintra, Mafra, Leiria e Coimbra … No Parlamento, rapidamente se estabeleceram movimentações para colocar a linha da Beira na lista de prioridades governamentais… O governo parecia acompanhar os desejos dos deputados ao incumbir Sousa Brandão de concluir os estudos sobre a ferrovia de Coimbra a Almeida.
…. Em 1865, todavia, um rude golpe seria vibrado por Espanha e pelo Conselho Geral de Obras Pública … não considerava a linha da Beira Alta de primeira importância.

Proposta de vias-férreas na Beira Interior.jpg

Proposta de vias-férreas na Beira Interior

…. Na década de 1870, voltaram a reunir-se condições políticas e económicas para a retoma da construção … No entanto a companhia [Companhia Real dos Caminhos de Feros Portugueses] só se interessou pela linha da Beira Alta, incumbindo o engenheiro Félix Combelles do seu estudo (em 30.6.1873) … pelo seu lado Sousa Brandão voltara-se para um traçado iniciado na Pampilhosa. Assim, às soluções Coimbra (de Chelmichi) e Mealhada (de Couceiro), juntava-se agora as alternativas Pampilhosa e Mogofores.
….Apesar da qualidade do projeto de Combelles, a Junta Consultiva de Obras Públicas chamava a atenção para a necessidade de mais exames, mas o governo optaria por aprovar os estudos de Combelles (portaria de 23.9.1873) e no ano seguinte propunha (a 21.2.1874) a construção do caminho-de-ferro da Beira Alta.
…. É nesse sentido que Boaventura José Vieira e Sousa Brandão são incumbidos da elaboração de anteprojetos. Do primeiro (datado de Novembro de 1874) resultou o regresso da estação inicial a Coimbra. A linha contornava depois a Cidade por Coselhas, Santo António dos Olivais e Chão do Bispo antes de chegar às Torres do Mondego, onde entrava na margem direita do rio, indo até à foz do Dão.
…. O início da linha da Beira Alta em Coimbra era elogiado, mas a opção Pampilhosa seria aceitável se melhorada, pois traduzir-se-ia numa construção menos dispendiosa.Estação da Pampilhosa.jpg

Estação da Pampilhosa
O Occidente, 140, Lisboa, 1882.11.11, p. 252

… Face à impossibilidade de contratar uma companhia, o governo propõe a construção da linha por administração direta do Estado … desde a Pampilhosa.

Proposta final de rede da AECP [1877).jpg

Proposta final de rede da AECP [1877)

Pela lei e pelo contrato, a linha da Beira Alta começava na Pampilhosa, pelo que depressa se começou a pensar em lhe conceder uma saída marítima, prolongando-a até à Figueira da Foz.

Wolowski, B. A inauguração da linha da Beira Alta em 1882. Narrativa de viagem. Edição, introdução e notas de Hugo Silveira Pereira. Prefácio de Eduardo Beira. Vila Nova de Gaia, Inovatec.

 

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por Rodrigues Costa às 12:40

Quinta-feira, 17.01.19

Coimbra: Quinta da Portela 2

Fachada principal do Palácio.jpg

Fachada principal do Palácio

A fachada principal, que é a única inteiramente nova … [e] nela se resume com maior evidência a introdução dos cânones neoclássicos, muito embora esta tentativa de racionalização seja interrompida pelo eixo do portal.

Ângulo esquerdo do Palácio.jpg

Ângulo esquerdo do Palácio

É uma fachada delimitada por fortes cunhais de cantaria lisa encimados por urnas com fogaréus barrocos, e composta por dois pisos demarcados por uma barra horizontal de cantaria, sendo o inferior rasgado apenas por duas janelas de verga lisa que ladeiam o portal … No piso superior, seis janelas de sacada com grade de fero e avental recortado.

Zona central da fachada do palácio.jpg

Zona central da fachada do palácio

…. Estruturalmente, o portal desenvolve-se a partir de um vão retangular ladeado por duas pilastras encimadas por duplas mísulas volutiformes. Coroadas por plintos de perfil bojudo.

Passagem, através do portal principal, ao pátio

Passagem, através do portal principal, ao pátio interior

Acesso ao pátio interior com a porta de entrada d

Acesso ao pátio interior com a porta de entrada da capela ao fundo

O portal estabelece a ligação com o pátio interior, ao qual se acede através de um largo e comprido túnel com cobertura em madeira … sustentada no outro extremo num possante arco abatido e tendo como pano de fundo o portal da capela.


Pavimento do pátio interior.jpg

Pavimento do pátio interior

O túnel … é pavimentado com uma calçada bicolor feita com pedras do rio, solução que é retomada no pavimento do pátio, onde está desenhada uma admirável rosa-dos-ventos.

Nota: Após a realização deste excelente trabalho de investigação, a área da Quinta da Portela foi urbanizada e o palácio – que se mantem na posse da Família – embora mantendo a traça original, sofreu obras de reabilitação.

Mora, L.M.C.F.O. 2001. A Quinta da Portela. História e Arte. Seminário de História da Arte. Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vol. I e II. dactilografados.

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por Rodrigues Costa às 09:30


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