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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 23.04.19

Coimbra: Arquivo Histórico Municipal, um lugar a visitar

Frequento com alguma assiduidade do Arquivo Histórico Municipal de Coimbra e tenho para mim que se trata de um local que não pode ser ignorado por todos aqueles que se interessam pela história da cidade.
Alicerço a minha convicção em virtude do vasto e valioso acervo que ali se encontra depositado, constituído, em boa parte, pelos documentos fundacionais da nossa cidade. Além disso, pode sempre visualizar-se uma exposição temporária de médio ou longo prazo que mostra documentação original e contextualizada, na medida em que se encontra especialmente vocacionada para centrar, num discurso claro e integrado, uma mensagem relacionada com a cidade.

Também se pode observar a imagem de S. Jorge, montado num cavalo, a fim de participar na procissão do Corpus Christi, a festa maior que, durante muitos séculos, acontecia em Coimbra.

S_Jorge.pngImagem de S. Jorge

Não posso, nem quero, deixar de chamar a atenção para a grande competência, disponibilidade e simpatia das Técnicas responsáveis pelo aquivo e que atendem personalizadamente (o que é muito importante para quem investiga) todos quantos ali se deslocam.
Podemos ainda observar as varas que os vereadores outrora levavam nas mãos quando participavam em atos oficiais, bem como peças de vestuário que então utilizavam

obj20.JPGVaras dos vereadores da Câmara de Coimbra

A exposição temporária de médio ou longo prazo é periodicamente renovada e nela podem ser observados, quando integram a mostra, alguns destes documentos:

- Carta de Sentença
1297, Julho, 8, Coimbra. Carta de Sentença do Ouvidor da Corte, Estêvão Peres, ordenando ao alcaide de Coimbra, João Arrais, que restituísse a dízima, indevidamente cobrada ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, “atendendo ao Costume de Coimbra, sobre que foram perguntados os alvazis e homens bons”.
É o documento original mais antigo que se encontra no AHMC.

Carta de Sentença.png

 

- Carta partida por ABC
1299, Maio, 20, Coimbra. Instrumento de composição amigável feito entre o concelho de Coimbra, representado pelos seus procuradores Domingues Esteves e Martim Anes, mercadores, e o concelho de Penela, pelo procurador António Anes, sobre a jurisdição e direitos a cobrar nos lugares de Pousafoles-o-Velho, Pousafoles-o-Novo (conc. Miranda do Corvo); Pereiro (conc. de Penela); Cabeça de Boi e Lavarrabos (actual Rabarrabos, conc. de Penela).
O acordo alcançado referia que os moradores dos lugares pagariam “irmãmente a metade” de todos os serviços e tributos que aí fossem lançados quer pelo concelho de Coimbra, quer pelo de Penela.

Carta partida por ABC.jpg

Nota: Uma carta partida por ABC, era um pergaminho no qual era escrito um original e uma cópia fiel do mesmo, ambos devidamente assinadas. O pergaminho era cortado na forma que se vê na imagem, sendo cada uma das metades entregue às partes subscritoras. Se fosse necessário confirmar a veracidade de uma das partes, juntavam as duas e verificavam se o corte coincidia.

Lei das Sesmarias
1375, Junho, 1, Coimbra. “Exórdio da ordenação da lavoura”, conjunto de medidas decretadas por D. Fernando e posteriormente conhecidas por “Lei das Sesmarias”, para que “haja maior abundância no reino”, tentando recuperar a produção agrícola, após uma época de grave crise económica, provocada pela epidemia da “peste negra”. É um dos poucos originais do texto fernandino que hoje se conhece.

Lei das Sesmarias.jpg

Acordãos e Vereações
1491, 23 de Março a 31 de Dezembro, Coimbra. “Livro dos Acordos e Verações do ano de mil iiijc LRj”em que foram oficiais: João de Barros, cavaleiro e João Pessoa, juízes; Pedro Brandão, cavaleiro, Aires Alvelo e Álvaro Vasques, vereadores; Garcia Rodrigues Pacheco, procurador da cidade. É o mais antigo livro de registo das reuniões da vereação que se preservou até à actualidade.

Acordãos e Vereações.png

Arquivo Histórico Municipal de Coimbra ali na Rua Pedro Monteiro, no edifício da Casa da Cultura, ao cimo da Sereia. Vá por lá que vai gostar.

Arquivo Histórico Municipal de Coimbra. Catálogo da Exposição. 2018

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por Rodrigues Costa às 09:46

Quinta-feira, 18.04.19

Coimbra: Edifício ACM em Coimbra

Já antes de 1915 se perfilava a possibilidade de, em Coimbra, se vir a construir um edifício que servisse de sede à Associação Mundial de Académicos; o local escolhido situava-se no gaveto formado pelas ruas Alexandre Herculano e Venâncio Rodrigues, em pleno bairro de Santa Cruz, projetado no final de Oitocentos para dar resposta à necessidade de alargamento do espaço urbano da cidade, mas vítima de um processo de lentidão, bem de acordo com o fraco poder económico da urbe. As publicações periódicas que então saiam dos prelos mondeguinos, em dezembro do referido ano, previam a inauguração do imóvel para o mês outubro seguinte, mas a verdade é que Raul Lino, o arquiteto escolhido, só começou a riscar o projeto em janeiro de 1916.

Raul Lino.jpg

Raul Lino

ACM. Atlantida, 18, Lisboa, 1917.04.15.jpg

Desenho do edifício publicado em Atlantida, 18, Lisboa, 1917.04.15
…Ainda antes de conceber o edifício da ACM [Raul Lino], riscou o do Jardim-Escola João de Deus [que se ergue na Alameda Júlio Henriques], inaugurado a 2 de abril de 1911.
… A inauguração da sede da ACM foi protelada, certamente por razões óbvias e, em meados de 1917, era exposta numa das montras da filial conimbricense dos Grandes Armazéns do Chiado uma maqueta aguarelada que dava uma perspetiva do edifício destinado a sede da Federação Mundial de Académicos; parece que a feitura do imóvel fora custeada pelo International Comittee of Young Man's Christian Associatons de Nova Iorque.

ACM. Antes das obras b.jpg

O edifício na sua forma original

… Nos edifícios construídos para sede da coletividade, o ginásio já então constituía uma das partes essenciais do edifício e o átrio funcionava como verdadeiro motor da mesma, pois a par com os bilhares e os cueroques (os jogos de azar encontravam-se interditos) a dependência, graças a um confortável mobiliário, convidava a que se ouvisse música ou se conversasse amenamente. Nas proximidades encontrava-se instalado um pequeno bar de apoio, que não servia bebidas alcoólicas.
No salão nobre realizavam-se palestras, relacionadas sobretudo com a educação cívica e moral, e sessões de cinema, onde, a par com películas cómicas e dramáticas, passavam filmes instrutivos e científicos. Existia ainda uma sala de leitura em que se podia encontrar, para além de revistas e jornais nacionais e estrangeiros que “facilitassem ao estudante um meio de se conservar ao corrente dos acontecimentos sociais, científicos e literários”, uma pequena biblioteca.
… De acordo com a imprensa que se publicava na época, o edifício projetado por Raul Lino era “um dos ornamentos do Bairro de Santa Cruz” e o arquiteto, no interior, interpretou “admiravelmente o princípio utilitário e filantrópico da instituição e, ao dar ao exterior o estilo português modernizado, manifestou o seu espírito de adaptação ao meio particular em que cada grémio se estabelece, num perfeito equilíbrio entre o nacionalismo e o cosmopolitismo exagerados”.
Finalmente, no dia 20 de junho de 1918, procedeu-se à inauguração do edifício, ato que se revestiu de uma enorme solenidade e imponência e que contou com a presença de quase todos os ministros e embaixadores estrangeiros acreditados junto do governo português.


ACM. Depois das obras.jpg

O edifício na atualidade

Anacleto, R. O edifício da ACM em Coimbra, In: Diário de Coimbra, n.º 22229, Coimbra, 1997.05.25.

 

 

 

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por Rodrigues Costa às 12:32

Terça-feira, 16.04.19

Coimbra. Gíria dos Estudantes 3

O estudante de Coimbra nas suas relações com a sociedade em geral.

Nas transcrições efetuadas, optamos por citar as palavras e as expressões da gíria a negrito.

Água, Meter – Fazer asneira; ter um deslize.
Arder – Pagar (Todos comeram, mas só ardeu um).
Berro, Dar o – Findar; acabar (Passado um mês o jornal deu o berro).
Brasa – Mulher bonita.
Buzina – Boca (E não foram capaz de lhe fazer calar a buzina).
Cagança – Vaidade; prosápia.
Calino – Estúpido; Diário de Coimbra (Quem já leu o Calino de hoje?)
Costumes, Estudar – Ir à Baixa (… às vezes iam para a Baixa estudar costumes)

Café Montanha na Rua da Saboaria.jpgEstudantes no primitivo Café Montanha

Dependurar – Pôr na casa de penhores (No mês passado tive que dependurar o fato, porque já não tinha dinheiro).

Casa de penhores.jpg

Desempregado, Estar – Não ter namoro (Não há rapariga que o queira … está desempregado).
Desinfetar – Retirar-se; ir-se embora (Desinfeta imediatamente, aqui só atrapalhas).
Encostanço – Baile.
Fateixa, Arreganhar a – Rir (Arreganha a fateixa por tudo e por nada).
Futrica – Todo o indivíduo de Coimbra que não é estudante.
Galheiro, Ir ao – Ser vencido; derrotado. (A Académica foi ao galheiro no último desafio).
Gancho, Ser de – Ser mau (Tenham cautela, porque ele é de gancho).
Japão – Todas as que, não sendo naturais de Coimbra, a visitam acidentalmente (Hoje vai tudo para a Baixa porque chegou muito Japão).
Malvada, Encher a – Comer; comer muito.
Mangueira, Estender a – Estender a mão (foi o primeiro a estender a mangueira, quando viu o doce).
Milho – Soco; pancadaria (Deu-lhe tamanho milho que caiu logo por terra).
Mona, Cozinhar a ou Cozer a carraspana – Esperar que passe o estado de embriaguez.
Mula – Pessoa reservada, que nunca dá a conhecer as suas intenções.
Pacote – Nádegas (Deram-lhe um pontapé no pacote).
Pername – As pernas das mulheres (As bailarinas tinham um pername).
Pêro – Soco; murro.
Peva ou Pevide – Nada (durante os dias de férias, não fez pevide)
Pirisca – Velocidade; ponta de cigarro (passou agora um caro com uma pirisca; Não tinha tabaco, recorri às piriscas).
Pocha – Bolso.
Resina – Bebedeira (Durante os oito dias da Queima apanhou outras tantas resinas).

Na Queima.jpg

Estudantes na Queima

Semiscarúnfio – Quase cego de razão; esquisito, maldisposto.
Serena – Ventosidade que não provoca ruídos (Deram uma serena que fez desaparecer toda a gente).
Seringa – Guarda-chuva (É melhor levar a seringa, porque pode chover).
Tiro, Dar o – Pedir dinheiro
Traço – Diz-se da mulher que é bela e elegante (Essa mulher é um traço como nunca vi).
Trunfa – Cabeleira
Unhas, Aparar as – Impedir que alguém faça mal.
Vidro – Copo de qualquer medida (Antes do cinema, fomos beber uns vidros).

Castro, A.F. 1947. A Gíria dos Estudantes de Coimbra. Suplementos de Biblos. Série Primeira, 7. Coimbra, Faculdade de Letras

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por Rodrigues Costa às 10:02

Quinta-feira, 11.04.19

Coimbra: Gíria dos Estudantes 2

O estudante de Coimbra, a vida escolar e as Instituições Académicas.
Nas transcrições efetuadas, optamos por citar as palavras e as expressões da gíria a negrito.

Aguentar-se – Dar uma lição sofrível («Não brilhou, mas aguentou-se pelo menos»).
Amélia – Elemento do naipe dos primeiros tenores do Orfeão Académico. («O Orfeão este ano tem falta de Amélias»). Este termo foi possivelmente pedido ao calão lisboeta, onde significa homem efeminado. Como os primeiros tenores são os que têm a voz mais próxima da feminina, foi-lhes dada aquela designação depreciativa.

Orfeon Arroyo (1881).jpgOrfeon Académico, dirigido por João Arroyo (1881)

Apitar – Dizer baixinho ao colega que está a ser chamado à lição o que deve responder («Se não me apitas, estou perdido»)
Barca – Nome dado ao aluno do quinto ano que protegia muitos caloiros à passagem na Porta-Férrea. («Lá vem a Barca!»).

Troças à Porta Ferrea. Novato levando às costas

À passagem da Porta-Férrea, o caloiro estava sujeito ás troças e à praxe chamada canelão, que consistia em os caloiros apanharem caneladas dos mais antigos. Para lá se passar sem perigo era necessário ir protegido por um quintanista.
Bestialógico – Exposição em que o aluno fala muito bem, mas diz poucas coisas acertadas («Concordo: fez um bestialógico, como nenhum de nós é capaz»).
Bicho – Aluno do liceu («Pertencer à briosa era o sonho dourado dos rapazes, sem embargo de saberem quanto era ingrata a vida do caloiro, só comparável à que levavam os bichos e os formigões, os seminaristas»).
Bicicleta – 8 valores («Contava passar, mas apanhei uma bicicleta»).
Boroa, Estudante de – Aluno da Escola Agrícola.
Briosa – Academia («deram-se nomeados para representar a Academia nos funerais; e, quando a briosa soube da história, já iam todos a caminho de Lisboa»).
Broeiro – Estudante pobre dos arredores de Coimbra, a quem os pais enviavam todos os géneros alimentícios.
Bufar - O mesmo que apitar.
Cabra – Sino da Torre da Universidade de Coimbra, que toca todos os dias às 18 horas, avisando os estudantes de que é tempo de recolher ao estudo.


Universidade. A Cabra.jpg

Cabrão – Sino da Torre da Universidade de Coimbra, que toca todas as manhãs, anunciando aos estudantes que há aulas. … este sino tinha um som mais grave, motivo porque lhe foi dado o nome do macho da cabra.
Cabulite – Falta de vontade para estudar («Portador de uma sintomatologia de inesperadas consequências, diagnosticada como cabulite aguda»).
Canudo – Diploma de licenciatura ou, de bacharelato. Tal designação, dada à carta de curso, provém do facto de ela ser entregue outrora ao novo bacharel ou licenciado, dentro de um canudo de lata.
Chichar – Anotar os livros escolares, nas entrelinhas ou à margem («Estava a traduzir muito bem, quando o mestre se levantou e descobriu que eu tinha o livro chichado»).
Cornos, meter nos – Decorar, fixar («Ainda que tenho que meter nos cornos toda esta coisa, apenas com dois dias antes dos atos»).
Coxo, passar – Transitar de classe, reprovado numa disciplina.
Cu, frequência de – Diz-se quando o aluno vai à aula só para marcar a presença, não ligando importância às preleções do mestre nem as acompanhando do estudo necessário («Não podia passar, só tinha frequência de cu»).
Cuspo, lição colada com – Lição estudada à última hora e que facilmente se esquece.
Empinar – Decorar («Adeus! Vou para casa empinar umas fórmulas»).
Espalhanço – Má lição.
Fera – Mestre muito exigente e que reprova muito.
Lebre, andar à – Recorrer aos amigos, quer para se alojar, quer para comer.
Mergulhar – Diz-se do aluno que se deixa escorregar pela carteira, para que o mestre não veja e não o chame à lição.
Patavina, não saber ou não pescar – Não saber nada.
Rabeca – Cama de estudante.
Rasgar [posteriormente, rasganço] – Ação de fazer em tiras todas as peças do vestuário do estudante, exceto a capa, no dia que conclui o seu curso. (Já hoje rasgaram cinco em Medicina).

Rasganço.jpg

Rasgar, ou rasganço

Sebenta – Espécie de apontamentos coligidos pelos alunos segundo as lições do mestre e, muitas vezes, revistos por este.
Tapar – Dar o número máximo de faltas permitido pela lei.

Castro, A.F. 1947. A Gíria dos Estudantes de Coimbra. Suplementos de Biblos. Série Primeira, 7. Coimbra, Faculdade de Letras

 

 

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por Rodrigues Costa às 19:59

Terça-feira, 09.04.19

Coimbra: Gíria dos Estudantes 1

Centramo-nos hoje numa dissertação de licenciatura em Filologia Românica, publicada em 1947, e que aborda a gíria dos estudantes de Coimbra no final do século XIX e na primeira metade do século XX.
A obra encontra-se, fundamentalmente, dividida em três partes: Introdução; O estudante de Coimbra, a vida escolar e as Instituições Académicas; e O estudante de Coimbra nas suas relações com a sociedade em geral.
Determinámos dedicar uma entrada a cada parte.
Nas transcrições efetuadas, optamos por citar as palavras e as expressões da gíria a negrito.

As gírias não têm uma sintaxe sua e, por esse motivo, não nos é permitido considerá-las como línguas propriamente ditas ou mesmo dialetos. São antes, para nos exprimirmos com mais rigor, vocabulários usados por determinados grupos cujos termos aparecem «enxertados» na língua corrente.
… Os processos de formação das gírias … de uma maneira geral, são os mesmos que usa a língua comum, e, sob este aspeto, a gíria e a linguagem comum chegam a identificar-se.
O que caracteriza, depois, as gírias é o facto de elas não serem compreendidas senão pelos iniciados, tornando-se secretas para todos os outros, e um como que elemento de defesa do grupo que a fala.
… Assim a gíria académica serve-se, por vezes, do latim para exprimir certas ideias … quando querem dizer que um estudante não sabe nada da lição, por a não ter estudado, traduzem esse facto pela expressão in albis … usam mesmo a forma latina decretus,

Decreto c.jpg

para designar as decisões respeitantes às praxes emanadas do Conselho de Veteranos ou pecunia para significar dinheiro, como no próprio latim; se alguém não tem dinheiro diz-se que anda a pauperibus. Outras vezes chega até a dar feição latina às palavras portuguesas, o que se verifica na expressão ir a calcantibus, querendo significar ir a pé.
… Na linguagem dos estudantes encontraremos, pois, palavras como trupe grupo de académicos que depois do toque da cabra, à tarde, anda em busca de caloiros ou bichos para lhe cortar o cabelo, e que se foi buscar ao francês troupe.
O inglês contribui também com alguns elementos para a formação da gíria académica coimbrã. Lembremos, por exemplo, cow-boy, pessoa simpática e divertida; o seu derivado, já aportuguesado, cowboiada, filme interpretado por cow-boys … mas significando também qualquer situação divertida; e poney com o significado de elegante. Temos também o nome próprio Power, lindo entre nós por póver, e que é dado aos homens que andam rigorosamente na moda … Não pegar nos books é outra expressão em que entra a língua inglesa, e que quer dizer não estudar nada.
… podemos citar [do italiano] o vocábulo nente para significar nada, proveniente, segundo alguns, da palavra italiana niente.
… a gíria académica usa da composição. Temos em primeiro lugar, a composição por meio de dois elementos…pinga-amor, indivíduo que dedica a maior parte do seu tempo a dirigir galanteios às raparigas … lagarto-azul, nome porque eram conhecidos os alunos da Escola Industrial.
… Quanto à composição por meio de prefixos … desgranizar era o termo empregado na aceção de dar, passar, etc., já caído em desuso. Tem a sua origem no facto de existir em Coimbra, no tempo do célebre boémio Pad-Zé, autor do termo, um merceeiro chamado Graniza que fornecia os estudantes, por vezes a crédito, embora mui custosamente. Então, quando desejava alguma coisa, Pad-Zé, seu vizinho, pedia mesmo da janela: Ó Graniza, desgraniza para cá isto ou aquilo! … E o nosso homem, embora com muita pouca vontade, sempre desgranizava.

Pad'Zé 02.jpg

O Pad-Zé

… A gíria académica serve-se dos sufixos que a língua comum lhe pode oferecer e utiliza outros que lhe são próprios.
No primeiro caso deparamos com as palavras do tipo de amélice, ato do que é Amélia: Falcoada, derivada de Falcão, designando a ação em que um grupo de estudantes deixa de pagar qualquer despesa feita; fiteiro o que simula qualquer coisa; gazeteiro, o que falta às aulas; manteigueiro … o que designa o que é adulador; martelão, o aluno que estuda muito; chumbaria na aceção de grande quantidade de chumbos; coelheira, as últimas carteiras da sala de aula.
… No segundo caso copianço de copiar, que designa a ação de copiar; rapanço de rapar, cortar os cabelos aos caloiros ou bichos; encostanço de encostar, para traduzir a ação de dançar.
… Um outro elemento de que as gírias se servem é a perífrase … um indivíduo foi armado com asas de pau querendo significar que foi sovado … se um estudante diz a outro que pagou cinquenta escudos para a Banda da Polícia não significará nada mais do que … esteve preso
… Não podemos esquecer, ao tratar da criação das gírias, do papel representado pelo eufemismo… Um exemplo … é o facto de um estudante chamar Museu a um determinado … prostibulo de Coimbra … Em qualquer parte, mesmo num salão, poderemos ouvir um académico perguntar a outro se vai para leste, quando deseja saber se ele se dirige a qualquer casa de prostituição. A origem da expressão é engraçada e nasceu do facto de quase todas essas casas se encontrarem naquela direção, nas diversas terras percorridas pelo Orfeão Académico numa das suas viagens.
A prostituta será denominada de uma maneira mais atenuada: chamar-se-lhe-á borboleta, imagem de certo modo agradável.

Castro, A.F. 1947. A Gíria dos Estudantes de Coimbra. Suplementos de Biblos. Série Primeira, 7. Coimbra, Faculdade de Letras

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por Rodrigues Costa às 09:51

Segunda-feira, 08.04.19

Coimbra: Cemitério da Conchada, visita guiada terça-feira, dia 9 de abril, ás 15h00

A Senhora Professora Doutora Regina Anacleto vai voltar a realizar uma visita guiada ao Cemitério da Conchada, na próxima terça-feira, dia 9 de abril, às 15h00.
Esta visita, com a duração prevista de uma hora, foi solicitada pelo Delegado da Servilusa em Coimbra, estando aberta a todos os que nela queiram participar, não sendo necessária inscrição prévia.
O programa da visita é o seguinte:

- Concentração dos participantes no jardim fronteiro à porta principal do cemitério da Conchada.

- Breve exposição: o culto dos mortos ao longo dos tempos e o estabelecimento dos cemitérios em Portugal; as particularidades do cemitério da Conchada; projeto inicial e aumentos.

- Percurso:
1. Portão principal: Anjo da Paz Eterna (Autor: Daniel Rodrigues, 1941)

Cemitério da Conchada Portão 1.JPG

Cemitério da Conchada Portão

2. Jazigo modernista da Família Brinca Esteves. Anjo (Autor: Ana de Gonta Colaço, 1950)
3. Jazigo neomanuelino da Família de Francisco Mendes da Silva (Alberto Caetano, 1924)
4. Jazigo dos condes das Canas. [Jazigo subterrâneo ou mausoléu de mármore (1865) transformado depois de 1879 em mausoléu-capela]
5. Jazigo neorrenascença de António José de Moura Basto (João Machado, 1898)
6. Jazigo neorromânico da Família de Antonio José Gonçalves Neves (João Machado, 1896)

Cemitério da Conchada jazigo 3.JPG

Cemitério da Conchada jazigo

7. Jazigo neogótico do Arcediago José Simões Dias e sua Família (J. C. Correa e C.ª (Primos) / 20 Rua do Corpo Santo 22 / Lisboa)
8. Jazigo da Família de Daniel Rodrigues (porta do jazigo: Daniel Rodrigues, 1938)
9. Jazigo neobarroco de José Barata da Silva (sem autor e sem data)
10. Jazigo arte nova de Evaristo Lopes Guimarães (João Machado, 1905)
11. Jazigo arte nova “À nossa Zira”. Família de Augusto F. Carvalho e Esposa Adelaide Eliseu Carvalho (Santos, Filho, 1931)
12. Mausoléu arte nova da Família Mattos Sobral Cid (João Machado, 1914)
13. Monumento funerário de homenagem a António Augusto Gonçalves (busto da autoria de Costa Mota, sobrinho) [depois de 1932, ano em que AAG morreu]
14. Arqueta neogótica da filha de Marques Ribeiro (João Machado, 1917)
15. Jazigo neoegípcio de João Jacintho da Silva Corrêa (João Machado, antes de 1925)
16. Jazigo neogótico dos condes do Ameal (Silva Pinto/Costa Mota Tio. c. 1890)
17. Jazigo neorrenascença de Maximino Augusto da Cunha (João Machado, 1915)
18. Jazigo neomanuelino de Luís de Sousa Gonzaga (José Barata, depois de 1921)

Cemitério da Conchada jazigo 4.JPG

Cemitério da Conchada jazigo

19. Jazigo neoclássico de Maria do Céu (Medalhão de João da Silva, 1933)
20. Mausoléu de João Machado [1862-1925] (João Machado, Filho (?), depois de 1925)

Nota: O autor da peça e a data da sua execução vai indicado entre parenteses

 

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por Rodrigues Costa às 12:26

Quinta-feira, 04.04.19

Coimbra: Edifício na Alameda Júlio Henriques

Um leitor do blogue A’Cerca de Coimbra questionou-me acerca do edifício onde atualmente funciona a Administração Regional de Saúde do Centro. Indagando, consegui reunir algumas informações relacionadas com o mesmo.

Elemento destacado no largo de São João, a que se junta a fachada da igreja de São João de Almedina, o paço episcopal é digno de referência em diferentes autores nos finais do século XIX, que enaltecem a sua qualidade estilística maioritariamente assente no período maneirista. No «Roteiro Illustrado do Viajante em Coimbra», publicado nos finais de 1894 António Augusto Gonçalves … aponta os efeitos negativos de uma «moderna e insensata renovação do lanço norte», e aponta [o] preocupante estado de conservação do edifício, aludindo-o nos seguintes termos «O palácio está em ruína; parte do interior inhabitavel e a reforma é instante»

Paço episcopal. Finais do XIX.JPG

Paço episcopal, fotografia do Álbum de Jorge Oliveira

A presente citação de Gonçalves revela uma alusão, ainda que de modo subtil, às vicissitudes do recinto nos finais de oitocentos, alvo de uma polémica reforma que marcou de forma irreversível o bloco norte do paço episcopal. A referida centúria trouxe períodos conturbados ao referido edifício … Após a saída de D. Joaquim de Nossa Senhora da Nazaré, a 7 de Maio de 1834, a residência episcopal sofreu as intempéries de um espaço desocupado, como mais tarde historiou António de Vasconcelos: «A soldadesca e a populaça invadiram o paço episcopal desabitado, e principiaram a roubar e a estragar tudo, arrombando portas, escalando janelas, etc.

Paço episcoal e arco.jpgPaço episcopal. Finais do XIX

… O Estado tomou posse do imóvel … e um regimento de cavalaria chegou a usufruir dos seus espaços até aos primeiros anos da década de 1850, época em que a mitra voltou aos antigos aposentos, através dos esforços levados a cabo pelo bispo D. Manuel Bento Rodrigues da Silva.

D. Manuel Correia de Bastos Pina (O Occidente, 190

D. Manuel Correia de Bastos Pina

No início da vigência do prelado D. Manuel Correia de Bastos Pina foi tomada a decisão de desocupar o palácio episcopal e reconstruir um novo edifício, destinado às mesmas funções, nas proximidades do mosteiro de Santa Ana. Esta solução apresenta-se no periódico «O Conimbricense», a 21 de outubro de 1873, como uma ideia salutar. Adjetivando o paço de «indecoroso pelo estado em que encontra».
… No mesmo sentido, foi levada a cabo uma proposta de lei, apresentada, a 20 de fevereiro de 1874, pelo governo à câmara dos deputados, consentindo ao prelado diocesano a venda do velho paço episcopal e a aplicação dos lucros obtidos nas expensas necessárias à edificação do novo.
… A edificação do novo edifício na cerca do mosteiro de Santa Ana iniciou-se nos finais da década de 1870, a partir de um projeto de Matias Cipriano Pereira Heitor de Macedo. A constante paragem das obras por falta de verba e o desagrado de D. Manuel Correia de Bastos Pina em relação a diversos aspetos do plano (1) levaram à desistência por parte do antístite, da ocupação do novo paço e, mais tarde, à consequente reconversão deste, sob expensas do Estado, no intuito de albergar um hospital para coléricos.

Edificio a ARS.JPGEdifício da Administração Regional de Saúde do Centro. Fachada principal

Nos dias-de-hoje são visíveis as marcas da função original, através das insígnias do citado bispo insculpidas no frontão triangular da fachada principal do edifício que alberga a Administração Regional de Saúde do Centro.

Frontão com as armas episcopais.JPGEdifício da Administração Regional de Saúde do Centro. Fachada principal, frontão com as armas epicopais de D. Manuel Correia de Bastos Pina

XXX

Porque o governo se tinha apoderado do paço episcopal, que viria a ser ocupado como museu, foi no seminário que se instalou o prelado quando, no final de 1912, voltou a Coimbra.

2017-09-05 14.25.06.jpgResidência episcopal no Seminário de Coimbra

(1) Segundo Milton Pedro Dias Pacheco, «Paira ainda hoje na memória dos eclesiásticos diocesanos … que Dom Manuel recusara o edifício por um simples motivo: o facto de lhe ter sido sempre negada a participação na traça arquitetónica do edifício, principalmente na organização interna das várias dependências e que viria a culminar na inadequação para receber os vários serviços da chancelaria episcopal.»

Freitas, D.M.R. 2014. Memorial de um complexo arquitectónico enquanto espaço museológico: Museu Machado de Castro (1911-1965). Tese de doutoramento em Letras, área de História … apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vol. I, pg. 208-210 [policopiado]
Ramos, A.J. 1995. O Bispo de Coimbra D. Manuel Correia de Bastos Pina. Dissertatio ad Doctoratum in Facultate Historiae Ecclesiasticae. Ponttificiae Universitatis Gregorianae. Coimbra, Gráfica de Coimbra

Nota: Temos memória de neste edifício ter funcionado, durante muitos anos a Maternidade dos HUC e, posteriormente, o serviço de Ortopedia e simultaneamente ou posteriormente, algumas outras enfermarias, uma das quais a de Urologia.

 

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por Rodrigues Costa às 18:40

Quarta-feira, 03.04.19

Coimbra: Cemitério da Conchada, visita guiada terça-feira, dia 9 de abril, ás 15h00

A Senhora Professora Doutora Regina Anacleto vai voltar a realizar uma visita guiada ao Cemitério da Conchada, na próxima terça-feira, dia 9 de abril, às 15h00.
Esta visita, com a duração prevista de uma hora, foi solicitada pelo Delegado da Servilusa em Coimbra, estando aberta a todos os que nela queiram participar, não sendo necessária inscrição prévia.
O programa da visita é o seguinte:

- Concentração dos participantes no jardim fronteiro à porta principal do cemitério da Conchada.

- Breve exposição: o culto dos mortos ao longo dos tempos e o estabelecimento dos cemitérios em Portugal; as particularidades do cemitério da Conchada; projeto inicial e aumentos.

- Percurso:
1. Portão principal: Anjo da Paz Eterna (Autor: Daniel Rodrigues, 1941)

Cemitério da Conchada Portão 2.JPG

2. Jazigo modernista da Família Brinca Esteves. Anjo (Autor: Ana de Gonta Colaço, 1950)
3. Jazigo neomanuelino da Família de Francisco Mendes da Silva (Alberto Caetano, 1924)

Cemitério da Conchada jazigo 1.JPG

4. Jazigo dos condes das Canas. [Jazigo subterrâneo ou mausoléu de mármore (1865) transformado depois de 1879 em mausoléu-capela]
5. Jazigo neorrenascença de António José de Moura Basto (João Machado, 1898)
6. Jazigo neorromânico da Família de António José Gonçalves Neves (João Machado, 1896)
7. Jazigo neogótico do Arcediago José Simões Dias e sua Família (J. C. Correa e C.ª (Primos) / 20 Rua do Corpo Santo 22 / Lisboa)
8. Jazigo da Família de Daniel Rodrigues (porta do jazigo: Daniel Rodrigues, 1938)
9. Jazigo neobarroco de José Barata da Silva (sem autor e sem data)
10. Jazigo arte nova de Evaristo Lopes Guimarães (João Machado, 1905)
11. Jazigo arte nova “À nossa Zira”. Família de Augusto F. Carvalho e Esposa Adelaide Eliseu Carvalho (Santos, Filho, 1931)
12. Mausoléu arte nova da Família Mattos Sobral Cid (João Machado, 1914)

Cemitério da Conchada jazigo 2.JPG

13. Monumento funerário de homenagem a António Augusto Gonçalves (busto da autoria de Costa Mota, sobrinho) [depois de 1932, ano em que AAG morreu]
14. Arqueta neogótica da filha de Marques Ribeiro (João Machado, 1917)
15. Jazigo neoegípcio de João Jacintho da Silva Corrêa (João Machado, antes de 1925)
16. Jazigo neogótico dos condes do Ameal (Silva Pinto/Costa Mota Tio. c. 1890)
17. Jazigo neorrenascença de Maximino Augusto da Cunha (João Machado, 1915)
18. Jazigo neomanuelino de Luís de Sousa Gonzaga (José Barata, depois de 1921)
19. Jazigo neoclássico de Maria do Céu (Medalhão de João da Silva, 1933)
20. Mausoléu de João Machado [1862-1925] (João Machado, Filho (?), depois de 1925)

Nota: O autor da peça e a data da sua execução vai indicado entre parenteses

 

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por Rodrigues Costa às 19:40

Terça-feira, 02.04.19

Coimbra: Convento velho de S. Domingos

Segundo o cronista da Ordem [em Coimbra], o convento de São Domingos estava já formado em 1227 sendo seu prior Frei João e a iniciativa da fundação ter-se-ia ficado a dever a D. Branca, filha de D. Sancho I [a quem] atribui … todo o mérito da elevação do convento que … seria um dos mais antigos do reino, fundado antes de vinte anos decorridos sobre a confirmação da Ordem.

S. Domingos Jacques Callot.jpg

S. Domingos. Gravura de Jacques Callot

… Frei Luís de Sousa … anota que D. Teresa, sabendo do propósito da irmã, como que dele se apropria e concede o lugar de Figueira Velha, para a instituição do mesmo, acrescentando, contudo, que a cargo de D. Branca teria ficado a construção, em si, do edifício.
Mas é possível que o convento de S. Domingos de Coimbra já fosse uma realidade em 1226, data em que um chantre da Sé … lega aos pregadores 10 morabitinos. Sem dúvida, no ano de 1229 aí se sepultava [um] cidadão de Coimbra.
… o arcebispo de Braga D. Silvestre (1229-1244), passando pelo convento de São Domingos, concedeu, a todos os homens que fossem ajudar nas obras, 40 dias de indulgência.
…. Logo desde o início da sua existência os Pregadores de Coimbra atraíram vocações …. Adquirem a credibilidade e estima dos vizinhos da cidade e arredores que lhes legam bens móveis e imóveis e escolhem o convento como sepultura.

Frei Greardo de Frachet, Vitae Fratrum.jpg

Frei Gerardo de Frachet, na sua obra Vitae Fratrum Orditiis Praedicatorum, dedicou aos sermões e aos milagres de Frei Paio de Coimbra várias páginas

… E o mosteiro de São Domingos de Coimbra teve a felicidade de contar, logo no início, entre os seus frades, com um pregador da envergadura de D. Paio de Coimbra. Os seus 407 sermões são o maior acervo de sermonaria medieval que possuímos, alguns dos quais poderão ombrear com os de Santo António de Lisboa. A sua palavra calaria fundo no coração do povo e a sua fama de santidade depressa se espalhou, chegando célere a Gérard Frachet que inclui a sua vida e milagres na «Vitae Fratrum», posta a correr em 1259.

Localização do convento velho de S. Domingos.jpg

Localização do convento velho de S. Domingos na carta da cidade levantada em 1845 por Isidoro Emílio Baptista

…. Breves são estas notas históricas sobre o convento velho de S. Domingos, como breve foi também a duração do primitivo edifício e do seu arquivo, arrasado pelas cheias do Mondego… Segundo Nogueira Gonçalves situar-se-ia este primitivo convento ao fundo da Rua Direita, já na confluência com a atual Rua de Fernão de Magalhães, mas desconhece-se, completamente, pormenores sobre o seu traçado. Sabemos apenas que o claustro tinha dois pisos, abrindo-se para o superior a porta da sala do cabido, e o interior da igreja seria ornamentado com vários altares, entre eles o de S. Frei Gil, Santa Iria, Santa Catarina e, no final do século XV, o de Nossa Senhora do Rosário.
Os efeitos das águas já se faziam sentir em pleno século XIV … as obras do convento novo começaram em 1543.

Localização atual do convento velho de S. Doming

Localização do convento velho de S. Domingos, na atualidade. Imagem Google

Nota:
Há alguns anos, no início do atual milénio realizaram-se obras nos terrenos situados nas traseiras do antigo Hotel Almedina, atual Stay Hotel.
Face às estruturas e aos materiais encontrados no decurso desses trabalhos tornou-se necessário levar a cabo estudos arqueológicos – cujo relatório, julgamos, não se encontra ainda divulgado – que possibilitaram localizar o velho convento de S. Domingos naquele local. Já Nogueira Gonçalves, em artigos outrora publicados e relacionados com o assunto, apontara para aquela zona, embora com um pequeno desvio de cerca de 100 metros.

Coelho, M.H.C. e Matos, J.J.C. 1986. O Convento velho de S. Domingos de Coimbra. Contributo para a sua história. Separata do Arquivo Histórico Dominicano Português. Vol. III/2

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por Rodrigues Costa às 09:47

Quinta-feira, 28.03.19

Coimbra: Igreja de Santa Justa

É uma das várias igrejas de Coimbra que tiveram de mudar de local, para fugir às inundações das cheias do Mondego. A igreja medieval situava-se no largo que é hoje conhecido por Terreiro da Erva – onde ainda se podem ver vestígios da capela mor e nave lateral –, no coração do território dos seus mesteirais: os oleiros de branco e de vermelho e os pintores de louça e azulejos – gerações de artífices que, durante séculos, fizeram de Coimbra um dos mais importantes centros ceramistas do país, com louça exportada para os quatro cantos do mundo e de que hoje pouco se sabe e nada resta, perdida a última oportunidade de estudar os seus vestígios com as demolições da famigerada viela central.
As cheias do Mondego foram sempre em crescendo. A de fevereiro de 1708 obrigou à trasladação do Santíssimo e da imagem do Santo Cristo para a igreja de Santiago, de barco! Logo se tratou de construir nova igreja. O local escolhido foi a encosta sobranceira ao Arnado, bem longe das investidas do bazófias. A primeira pedra foi lançada pelo bispo D. António de Vasconcelos e Sousa em 24 de agosto de 1710.

Igreja de Santa Justa, fachada principal.JPG

Igreja de Santa Justa, fachada principal

A fachada da igreja é monumental, pela sua situação altaneira. Flanqueada por duas torres, está amplamente rasgada de janelas que enchem de luz o interior. Inclui um retábulo da segunda metade do século XVI, trazido da igreja velha. Sobre o frontão das janelas intermédias situam-se quatro nichos com esculturas dos séculos XV e XVI incluindo as santas Justa e Rufina, padroeiras dos oleiros. Junto à base das torres encontram-se duas lápides epigrafadas com a história da igreja.

Igreja de Santa Justa, interior.jpgIgreja de Santa Justa, interior

O interior é de arquitetura sóbria, mas bem delineada, de nave única, coberta por abóbada de arco um pouco rebaixado. Divide-se em cinco tramos, sendo o primeiro ocupado pelo coro alto. Neles se rasgam arcos, formando capelas à face. A capela-mor, de um só tramo mais profundo, é mais estreita que a nave, encontrando-se o altar em plano mais elevado.

Igreja de Santa Justa, a imagem do Santo Cristo do

Igreja de Santa Justa, a imagem do Santo Cristo dos Oleiros

Os primeiros arcos a seguir ao coro alto são preenchidos na parte superior por pinturas do início do século XVIII, envolvidas em molduras de talha dourada, representado a Virgem com o Menino e o Batismo de Cristo. No arco, do antigo lado do Evangelho, encontra-se a imagem do Santo Cristo dos Oleiros, do século XV.

Igreja de Santa Justa, interior pormenor.JPGIgreja de Santa Justa, interior pormenor

Os arcos dos tramos seguintes abrigam retábulos. Os quatro primeiros enquadram-se no rococó coimbrão, embora de forma mais original: as colunas têm grinaldas de flores envolventes e entrecruzadas e, no terço inferior, caneluras em espiral. Sobre os altares da nave, oito telas da época joanina, mostram os passos da paixão de Jesus, cujos símbolos se exibem também no coroamento da fachada exterior. Os capuchinhos, que em tempos detiveram esta igreja, fizeram nela algumas alterações, como a ablação das mesas dos altares da nave e a substituição das imagens antigas por outras do século XX.
Os retábulos junto à capela-mor têm diferente linguagem. O do lado norte é adaptação de outro, seiscentista, vindo da igreja antiga. Tem colunas espiraladas, revestidas de vinha, uvas, meninos e aves debicando. Na predela há um relevo com a degolação dos Mártires de Marrocos. O retábulo fronteiro, da época joanina, também de colunas espiraladas, mas com grinalda no cavado. É dedicado às Almas do Purgatório, tema não muito comum na diocese.

Igreja de Santa Justa, altar-mor pormenor.JPGIgreja de Santa Justa, altar-mor pormenor

A capela-mor é dominada pelo magnífico retábulo de talha dourada, de grande aparato, saído, certamente, de oficinas do Porto. Data dos primeiros decénios do século XVIII. Estrutura-se em colunas retorcidas sobre mísulas e reveste-se de acantos, flores, aves e profusão de crianças e anjos. Um grande sacrário, com quatro colunas salomónicas por lado, em diagonal, serve de base à escultura do Padre Eterno, com a pomba simbólica e anjos. Aos lados dispõem-se as imagens das titulares: as santas Justa e Rufina. Encima este conjunto escultórico o camarim onde se ergue o trono eucarístico, com baldaquino.
Desconhecem-se nomes de arquiteto, artistas e artífices. A mesma esponja que apagou a memória da atividade dos oleiros parece ter atingido também esta igreja. Mas as obras valem por si e basta o retábulo-mor para ombrear com outras obras-primas da arte em Coimbra.

Nelson Correia Borges
In: Correio de Coimbra N.º 4732, de 21.03.2019

 

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por Rodrigues Costa às 16:54


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