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A' Cerca de Coimbra


Sexta-feira, 21.06.24

Conversa Aberta: A Fotografia em Coimbra no séc. XIX

A fotografia sempre esteve presente na vida de Alexandre Ramires. 

Presença que o levou a ser não só um dos maiores conhecedores portugueses das técnicas fotográficas primitivas, bem como um especialista nas fotografias de temática coimbrã.

CA 28.06.2024, cartaz.jpgConversa Aberta: A fotografia em Coimbra no século XIX, cartaz

O título da sua palestra é prova do que afirmo e da razão do apreço que tenho por este estudioso.

Se muito aprendi com as Conversas Abertas, em ordem a esta estou muito, mas mesmo muito, interessado em conhecer as surpresas que Alexandre Ramires nos reserva.

CA 28.06.2024, folha de sala 1.jpgConversa Aberta: A fotografia em Coimbra no século XIX, folha de sala

Por meu lado espero lá estar às 18h00 da próxima 6.ª feira, dia 28 de Junho e penso que, se for, gostará tanto como eu espero vir a gostar.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 21:34

Quinta-feira, 20.06.24

Coimbra: Albertino Marques, ourives do ferro

Iniciamos hoje a divulgação de dois textos inéditos, que dividimos por quatro entradas, da autoria de Regina Anacleto e que têm como objetivo a divulgação sumária da vida de Mestre Albertino Marques e o estudo de uma peça que ele cinzelou para a Capela do Seminário Maior de Coimbra.

Albertino Marques que nasceu em Coimbra, na freguesia de Santa Cruz, a 27 de abril de 1890, é um dos artistas que, na primeira metade do século XX, trabalhavam o ferro forjado na cidade do Mondego.

Albertino Marques.jpg

Albertino Marques (Coimbra, 1890-Coimbra, 1966)

O artífice frequentou a Escola Industrial Brotero e quando, em 1907, apenas com 14 anos, terminou o curso iniciou o seu percurso como obreiro do ferro com o serralheiro António Maria da Conceição (Rato) e, posteriormente, em 1918, na oficina de Francisco Nogueira Seco, localizada no Quintal do Prior.

Após a morte deste artista sucedeu-lhe na sociedade, de parceria com os descendentes do industrial e com Daniel Rodrigues. A sociedade girava sob o nome de “Seco, Graça & Marques”. Contudo, Daniel, em 1919, separou-se e inaugurou a sua serralharia no Terreiro da Erva, n.º 36, local onde permaneceu até ao fim da vida e Albertino, a partir de 1929, instalou a sua oficina na Rua João Machado.

Albertino Marques, que jamais deixou de estudar, com o desejo de melhorar a sua formação, passou a frequentar a Escola Livre das Artes do Desenho e a ter como mentor mestre João Machado.

A sua capacidade de saber fazer falar o ferro tosco, tornando-o delicado, introduziu o seu nome entre os mais conhecidos artistas que, em Portugal, se dedicaram à arte de forjar.

A serralharia artística constituiu o objetivo primacial de toda a vida de Albertino Marques, mas, nomeadamente por questões de ordem económica, tornou-se-lhe impossível colocar à margem outros trabalhos mais vulgares.

Lanterna do Parque de Santa Cruz.jpg

Lanterna do Parque de Santa Cruz

Ativista das antigas organizações operárias, cedo compreendeu a importância da publicidade na difusão da arte do ferro, facto que, de algum modo, lhe permitiu espalhar as peças saídas da sua oficina por todo o país; os artefactos passavam por tocheiros, em estilo gótico, renascentista ou ‘modernizado’, por lâmpadas cinzeladas ou por portas e grades para jazigos e campas.

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Publicidade

No meio artístico conimbricense, sobretudo no ligado ao ferro forjado, a partir de 1933, instalou-se uma grave crise que se foi prolongando até meados da centúria, agravada por vicissitudes várias, a passarem pela falta da encomenda de trabalhos importantes que ajudassem os artistas a preservar a sua arte e pelo panorama económico da sociedade, que dificilmente permitia às pessoas dispor de numerário passível de possibilitar a compra de obras já que estas não se assumiam como bens necessários à sobrevivência.

Albertino Marques, antes de, em 1955, por razões de saúde, ter encerrado, definitivamente, a sua oficina, realizou várias obras em serralharia artística para instituições religiosas.

Posteriormente, passa a entreter as horas de ócio escrevendo sobre coisas de Coimbra e da sua arte. Nesses escritos, publicados no jornal «O Despertar», revela o gosto e o conhecimento das várias formas de arte, bem como o seu interesse por tudo o que diz respeito à sua cidade natal. 

Caricatura de Albertino Marques.jpg

Caricatura de Albertino Marques

 A 27 de abril de 1966, com 76 anos de idade, depois de ter dedicado 62 à arte do ferro forjado, morre em Coimbra na sua residência, sita na Rua João Machado, o artista Albertino Marques.

Anacleto, R. Albertino Marques (Coimbra, 1890-Coimbra, 1966). Breves notas soltas. 2024. Texto inédito.

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por Rodrigues Costa às 19:31

Quinta-feira, 06.06.24

Coimbra: S. Teotónio e o seu priorado do Mosteiro de Santa Cruz 5

Com esta entrada terminamos a divulgação do trabalho do Doutor Jonathas Ribeiro dos Santos Campos de Oliveira, sobre o período fundacional do Mosteiro de Santa Cruz. Texto que, em no nosso entender, interessa não só pelo seu conteúdo, bem como pela curiosidade do seu autor ser um académico brasileiro.

Famílias nobiliárquicas coimbrãs também contribuíram para o crescimento patrimonial experimentado por Santa Cruz de Coimbra até 1162, por meio de doações, vendas ou testamentos feitos à Comunidade agostiniana. Dois fatores se destacam para refletir sobre tal fenômeno: um relacionado a um possível caráter simbólico que o mosteiro pudesse ter no período; e outro, aos efeitos práticos que as transferências traziam ao patrimônio particular.

Viseu. Estátua de S. Teotónio.jpg

S. Teotónio. Viseu. Imagem acedida em https://diocesedeviseu.pt/padroeiro/

S. Tetónio. Viseu, azulejos2-360x169@2x.jpg

Na presença de D. Afonso Henriques, São Teotónio lança os hábitos a novos cónegos regrantes de Santa Cruz de Coimbra. Viseu. Imagem acedida em https://diocesedeviseu.pt/padroeiro/

Na primeira questão, a possível representação que a própria casa monacal pudesse ter para a nobreza coimbrã estaria associada a uma supremacia espiritual simbólica que, em meio ao grupo social, ela deteria face à organização paroquial. Enquanto esta estaria voltada ao serviço terreno dos cristãos, isto é, “ao Povo de Deus que caminha penosamente nesta terra”, a outra, estava relacionada ao anúncio profético do paraíso; distanciava-se da pugna vinculada ao plano terreno. Por conseguinte, dado a significação que uma apresentava frente à outra, a supremacia espiritual do mosteiro frente aos demais e sua transcendência teriam atraído a atenção nobiliárquica de Coimbra. Conforme salienta Mattoso, [...] o mosteiro, com a sua comunidade permanente, que desafia os séculos e as vicissitudes deste mundo, representa também a própria eternidade e é, portanto, uma garantia da permanência da família. Ligada a um mosteiro, ela não só será fecunda, não só se reproduzirá [...], nível da honra alcançada e os poderes que a assemelham ao próprio Deus ou aos seus Santos.

Nesse sentido, identificando no monaquismo um caminho de acesso ao sagrado, cuja proximidade ao plano divino encontrava seu sentido na vida austera, as famílias coimbrãs provavelmente viram no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra uma via de promoção de sua própria condição espiritual.

A segunda questão, diz respeito aos efeitos práticos que a transferência trazia aos bens associados. Se na primeira linha interpretativa, a partir da reflexão conduzida por Mattoso, a importância da doação se estabelece em virtude de um interesse que

transcendia a questão material, se apoiando exclusivamente nos resultados mais abstratos do termo, isto é, no âmbito espiritual, aqui, a importância se faz mais imediata, concreta, ou seja, se alicerça no plano terreno.

O prestígio e poder que, gradativamente, o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra teria conseguido ao longo do tempo, fruto, como vimos, do vínculo que mantinha com Afonso Henriques e seus associados, além do próprio apoio papal, teria aumentado sua capacidade de proteção em relação ao patrimônio que detinha.

Este dado teria, consequentemente, garantido a força combativa do exército portucalense quando sob ameaça, formando, assim, um conjunto institucional pouco suscetível às instabilidades oriundas de um período marcado pelos constantes conflitos. Nesse panorama, famílias dotadas de patrimónios significativos, cuja efetiva ação para defendê-los se encontrava enfraquecida ou inexistente, veriam na associação ao Mosteiro, seja em momentos conflituosos ou não, uma forma de verem garantidas a proteção e manutenção dos bens dos quais dispunham.

Das anotações relativas a Testamentos, Cartas de doações e de vendas à Santa Cruz de Coimbra constantes no Livro de D. João Teotónio, por exemplo, é indiscutível que as décadas de 60 e 70 do século XII são as que em maior volume dão mostra das aquisições por parte do Mosteiro. Portanto, período de priorado de D. João Teotónio (1162-1181).

Não seria diferente, dado a possibilidade de ter por incentivo o avanço almóada que se fazia presente no último quartel do século XII em território portucalense. Com isso, cabe salientar também, em paralelo, o próprio incentivo promovido pelo segundo prior, atraindo para os crúzios considerável número de doações e testamentos, aumentando assim o patrimônio material do Mosteiro.

De facto, foi com ele [D. João Teotonio] que, desde 1152, se fomentou a partir das doações feitas um patrimônio que organizado viria a dispor de rendas próprias que permitiram ampliar instalações e adequá-las à medida da procura crescente.

O crescimento e expansão experimentados pela Comunidade agostiniana entre 1132 e 1162 caracterizaram essa primeira etapa de vida do Mosteiro.

Oliveira, J.R.S.C. A Cidade de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz no Século XII. Reflexões sobre o Priorado de S. Teotónio. 2017. In: Acedido em: 

https://www.academia.edu/38218646/A_CIDADE_DE_COIMBRA_E_O_MOSTEIRO_DE_SANTA_CRUZ_NO_S%C3%89CULO_XII_REFLEX%C3%95ES_SOBRE_O_PRIORADO_DE_D_TEOT%C3%94NIO?auto=download&email_work_card=download-paper

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por Rodrigues Costa às 11:11

Terça-feira, 04.06.24

Coimbra: S. Teotónio e o seu priorado do Mosteiro de Santa Cruz 4

No texto que ora transcrevemos sobre a investigação de Jonathas Ribeiro dos Santos Campos de Oliveira, continua a debruçar-se sobre as circunstâncias do período inicial do Mosteiro de Santa Cruz.

Durante o priorado de D. Teotónio, concessões de naturezas variadas teriam sido feitas por parte do Infante ao Mosteiro, aumentando-lhe assim tanto o património particular do qual dispôs nesta primeira etapa, quanto às zonas de influência sobre o Condado Portucalense: “[...] o rei lhe concedeu muitos dos bens que aí tinha, tanto móveis como imóveis, enriqueceu o local, confirmou todos os bens do mosteiro, tanto de dentro como de fora, e ao confirmá-los coutou-os”.

S. Teot├│nio. Valen├ºa.jpgS.Teotónio, monumento em Valença. Imagem acedida em https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid=73TXSsPF&id=...

Viseu. Estátua de S. Teotónio.jpg

S. Teotónio, monumento em Viseu. Imagem acedida em https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid=73TXSsPF&id=...

…. Dentre as concessões feitas por Afonso Henriques ao Mosteiro regrante, destacamos os coutos que, nos primeiros anos da canónica, teriam composto um conjunto patrimonial significativo. Nesse sentido, tornamos evidente, por exemplo, o couto de São Romão de Seia, de dezembro de 1138; o couto feito a um barco de pesca, de março de 1139; o couto da vila de Gouveia, de novembro de 1140; o couto de parte das vilas de Quiaios e Emide, além de toda a de Lavos, de junho de 1143; o couto de todos os homens e herdades de Santa Cruz, de julho de 1146.

…. O mosteiro de Santa Cruz, ao demonstrar, em certa medida, alinhamento aos interesses defendidos pela Sé romana, obtendo dela o devido reconhecimento e se colocando em direta subordinação, teria exercido no Ocidente peninsular um papel concentrador e difusor das orientações provenientes de Roma. Como agente disseminador dos interesses românicos, trazia para a lógica de organização social o próprio discurso cristão, e para o corpo eclesial, o enquadramento esperado e o referencial de conduta moral estabelecido na base apostólica. Com isso, teria garantido para si o beneplácito da Sé de Pedro para o desenvolvimento de suas atividades, tendo assegurado tanto privilégios quanto a expressiva proteção papal.

O facto de uma rede crescente de paróquias serem fundadas ou ficarem sob a orientação direta do mosteiro de Santa Cruz, que se afirmava isento do poder episcopal, protegido e imediatamente dependente da Sé Apostólica iria contribuir para consolidar o seu próprio processo de isenção [...]. Era igualmente um poderoso meio de a instituição regrante mais se afirmar junto da autoridade episcopal, através do exercício da sua própria jurisdição, e na sociedade em que se situava.

A título de exemplo dos privilégios recebidos, destacamos: a bula «Ad hoc universalis», de abril de 1144, na qual Lúcio II teria confirmado os bens e direitos recebidos pelo Mosteiro, dentre eles os sobre as igrejas de São Romão de Seia, São João de Santa Cruz, Quiaios, Mira, Travanca, etc., isentando-os de dízimo, sem com isso alienar os direitos da diocese.

Papa Lucio II.jpg

Papa, Lucio II. Imagem acedida em: https://www.google.pt/search?q=lucio+ii+papa..

Todos repetidos e confirmados por Eugénio III por meio da bula «Apostolica Sedis», de setembro de 1148. O cardeal Jacinto, com a bula «Oficii nostri», de novembro de 1154, além de confirmar as concessões anteriores, teria acrescentado outras novas qual seja, a livre eleição do superior da comunidade regrante e o direito de sepultura. Já Adriano IV, por meio da bula Ad hoc universalis, de agosto de 1157, para além de manter as confirmações já feitas, também a exerce às igrejas do castelo de Leiria e de Taveiro, entre outros.

Um dos pontos que nos chama a atenção nos privilégios eclesiásticos é o da necessidade de uma confirmação contínua das concessões reais ao Mosteiro. Ou seja, mesmo já tendo obtido o devido reconhecimento por parte da Igreja romana, esta consideração parece não garantir um inquestionado direito aos Regrantes sem que passasse por nova confirmação. Era também uma forma de manter, por parte do papado, um controle dos bens adquiridos pelo Mosteiro em um determinado espaço de tempo.

 Oliveira, J.R.S.C. A Cidade de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz no Século XII. Reflexões sobre o Priorado de S. Teotónio. 2017. In: Acedido em:

https://www.academia.edu/38218646/A_CIDADE_DE_COIMBRA_E_O_MOSTEIRO_DE_SANTA_CRUZ_NO_S%C3%89CULO_XII_REFLEX%C3%95ES_SOBRE_O_PRIORADO_DE_D_TEOT%C3%94NIO?auto=download&email_work_card=download-paper

 

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por Rodrigues Costa às 10:26

Quinta-feira, 30.05.24

Conversas Abertas: O Instituto de Coimbra, Academia Científica e Literária

É já amanhã, 6.ª feira, que no Arquivo da Universidade de Coimbra, partir das 18h00 que irá decorrer mais uma Conversa Aberta, esta dedicada à história do Instituto de Coimbra.

CA. 31.05.2024, folha de sala.jpgFolha de sala

A atividade desta academia ao longo dos anos reflete o pensamento de cada um dos seus presidentes, que foram personalidades influentes da história nacional, de Adrião Forjaz Sampaio a Orlando de Carvalho, passando por Bernardino Machado, Francisco Miranda da Costa Lobo e muitos outros. O Instituto ocupou diferentes espaços da Alta de Coimbra, dispondo de salas de reunião, uma biblioteca e gabinete de leitura e, a certa altura, um museu de antiguidades.

A revista O Instituto foi uma das revistas científicas portuguesas de maior longevidade, com 141 volumes publicados entre 1852 e 1981.

A palestrante será a Doutora Licínia Rodrigues Ferreira, Técnica Superior na Divisão de Promoção da Qualidade da Reitoria da Universidade de Coimbra.

Licinia-Ferreira-926.jpg

Licínia Rodrigues Ferreira. Imagem acedida em https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid...

Como é habitual a entrada é livre e após a apresentação do tema, segue-se um tempo em que todos os participantes são convidados a apresentar os pedidos de esclarecimento que julguem relevantes.

CA. 31.05.2024, cartaz.jpgCartaz

Pedimos ajuda de todos na divulgação deste evento.

Obrigado.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 13:08

Terça-feira, 28.05.24

Coimbra: S. Teotónio e o seu priorado do Mosteiro de Santa Cruz 3

Terceira de cinco entradas sobre o trabalho do Doutor Jonathas Ribeiro dos Santos Campos de Oliveira que vimos divulgando.

É interessante perceber o silêncio que a Vita Sancti Theotonii faz desse período de tensões. De acordo com a obra, omitindo qualquer conflito, menciona que o corpo fundacional do Mosteiro estaria firmado na autoridade de Afonso Henriques e do «uenerabilis» bispo de Coimbra Bernardo. Partindo desta divergência entre os escritos, é razoável trabalhar com a hipótese de a Vita teotoniana, produzida em data posterior à Vita Tellonis, em 1162-63, intentar esvaziar do discurso narrativo possíveis tensões existentes na fase inicial da canónica crúzia, dado a proximidade existente entre ambas no momento de produção da obra. Em data anterior, 1154-55, em virtude do recente período de atrito verificado, e/ou por possíveis interesses que fogem ao nosso entendimento agora, Pedro Alfarde teria achado por bem mencioná-los em sua obra.

Igreja de Santa Cruz. Interior antigo 01.jpg

Igreja de Santa Cruz, interior na segunda metade do séc. XIX, Acervo RA

A ida de D. Telo e seus associados imediatos ao papado para solicitar a isenção teria, no raciocínio de Erdmann, também trazido frutos ao bispado coimbrão, tendo o Pontífice concedido a proteção da Santa Sé à comunidade, face os interesses compostelanos. Em troca, segundo o autor, o Vigário teria pedido ao Infante uma proteção especial em favor de Santa Cruz de Coimbra.

…. Nos primeiros anos da Canónica agostiniana, a busca por material escrito que servisse às necessidades religiosas do Mosteiro também teria sido uma das iniciativas tomadas pelo corpo fundador. “Telo e os seus companheiros, ao reunirem-se em comunidade, tinham necessariamente de prover à constituição de uma biblioteca que permitisse responder às obrigações da vida regrante [...]”. O mosteiro franco de São Rufo de Avinhão, neste particular, teria sido um dos contribuintes iniciais para a constituição do património escrito da canónica agostiniana. Dele teria vindo, para além da própria inspiração da vida regular, o «Ordinário» (Liber Ordinis, de Letberto), o «Capitulário», «Antifonário», comentários bíblicos de Agostinho de Hipona (sobre o Génesis, João, Mateus e Lucas) e Ambrósio (o Exameron e o De Penitentia), a «Regula Pastoralis de Gregório Magno e um comentário de Beda, o Venerável, sobre Lucas.

Cathedrale_avignon.jpgIgreja de São Rufo de Avinhão. Na atualidade. Imagem acedida em: https://pt.wikipedia.org/w/index.phpsearch=igreja+de+S%C3%A3o+Rufo+de+Avinh%C3%A3o&title=Especial:Pesquisar&ns0=1&quickView=Arquidiocese+de+Avinh%C3%A3o

Desta forma, ao longo de três etapas de contactos com o mosteiro que lhes servia de modelo, em 1135, 1136-1137 e 1139-1140, Santa Cruz adquiria os textos das regras, constituições, diretórios litúrgicos e doutrinas patrísticas que lhe permitiam completar, internamente, a sua estruturação e conduzir a sua orientação doutrinal. À fundação do «armarium», acrescentava-se este importante núcleo do que mais tarde haveria de ser a sua livraria.

Com isso, ao que tudo indica, a primeira década de vida do Mosteiro seria marcada pela aquisição de um patrimônio teológico-literário que, mesmo ainda incipiente, foi suficiente para o desenvolvimento das atividades iniciais da Casa regrante. Este, progressivamente, teria aumentado durante o priorado de D. Teotónio (1132-1162), fruto também da própria hipertrofia sofrida pela comunidade crúzia no período, que teria expandido sua órbita de influência e, consequentemente, a capacidade de aquisição e a necessidade de produção de novas obras.

Para esse crescimento exponencial, teria concorrido uma série de fatores, dentre os quais damos mais destaque aos possíveis interesses nutridos e consequente intervenção da monarquia Portucalense na dinâmica dos Regrantes agostinianos, das famílias nobiliárquicas de Coimbra e da própria Sé Apostólica.

No que diz respeito a Afonso Henriques, a transferência feita em 1131 da sede administrativa da cidade de Guimarães para Coimbra, efetuada no mesmo ano de fundação do mosteiro de Santa Cruz, dão indícios de uma iniciativa não desinteressada.

D._Afonso_Henriques_O_Conquistador.jpgAfonso Henriques. Imagem acedida em https://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_Henriques

 …. Afonso Henriques teria encontrado na cidade de Coimbra o ambiente favorável para poder exercer suas ações com mais liberdade face à condição sob a qual se encontrava em Guimarães. A possibilidade de desempenhar maior capacidade de decisão política, entre outros, surgia como atrativo, frente ao que, sob as limitações da própria lógica de organização local, encontrara no entre Minho e Douro. No Mondego, também, se colocaria em posição geográfica mais estratégica para melhor empreender seus avanços militares e veria reconhecido, pela aristocracia regional, seu papel de proeminência.

…. Em linhas gerais, a Casa crúzia viria em auxílio, como agente legitimador, através do discurso cristão, às investidas militares do monarca portucalense contra os “inimigos” da Sé Apostólica. Assim, ao passo que o exército afonsino avançava sobre seus “oponentes”, o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra garantia - discursivamente - o apoio divino nas batalhas.

…. É este o intento que a literatura coimbrã da segunda metade do século XII parece querer transmitir. De acordo com a «Chronica Gottorvm», por exemplo, escrita no final do século XII,

Oliveira, J.R.S.C. A Cidade de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz no Século XII. Reflexões sobre o Priorado de S. Teotónio. 2017. In: Acedido em: 

https://www.academia.edu/38218646/A_CIDADE_DE_COIMBRA_E_O_MOSTEIRO_DE_SANTA_CRUZ_NO_S%C3%89CULO_XII_REFLEX%C3%95ES_SOBRE_O_PRIORADO_DE_D_TEOT%C3%94NIO?auto=download&email_work_card=download-paper

 

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por Rodrigues Costa às 16:54

Sexta-feira, 24.05.24

Conversas Abertas: O INSTITUTO DE COIMBRA, ACADEMIA CIENTÍFICA E LITERÁRIA

É já de hoje a 8 dias – na próxima 6.ª feira, dia 31 de maio, às 18h00 – que no Arquivo da Universidade de Coimbra se realizará a antepenúltima Conversa Aberta do ciclo deste ano.

CA. 31.05.2024, cartaz.jpg

Conversa Aberta de 31 de maio de 2024, cartaz

Será dedicada à descoberta da história do Instituto de Coimbra, uma instituição a caminho de ser bicentenária – foi fundada em 1852 - e hoje demasiado desconhecida.

Daí a importância de lembrar à Urbe Conimbricense, o papel muito relevante que, ao longo dos seus 172 de existência, desempenhou em prol da divulgação do desenvolvimento científico aqui ocorrido, bem como na dignificação da nossa Universidade e, concomitantemente, da Cidade.

Será palestrante a Doutora Licínia Rodrigues Ferreira.

CA. 31.05.2024, folha de sala.jpg

Conversa Aberta de 31 de maio de 2024, cartaz

A todos solicito a ajuda que for possível na divulgação desta Conversa Aberta.

Obrigado.

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 16:29

Quinta-feira, 23.05.24

Coimbra: S. Teotónio e o seu priorado do Mosteiro de Santa Cruz 2

Prosseguimos na divulgação do estudo do académico brasileiro Doutor Jonathas Ribeiro dos Santos Campos de Oliveira, sobre a problemática da construção do Mosteiro de Santa Cruz e do papel fundamental de S. Teotónio no seu desenvolvimento inicial.

A partir do que a documentação nos permite perceber e do que a historiografia frequentemente destaca, a primeira década de vida da canónica crúzia foi marcada pelas transformações que teriam estabelecido os alicerces da experiência regrante no Condado.

Pensamos ter sido, esta, tanto uma fase em que o Mosteiro buscaria dissociar-se em relação ao bispado local, quanto de estruturação da base sobre a qual a conduta moral dos cónegos se assentaria, sendo para ela buscados os mais diversos referenciais.

Em relação ao bispado coimbrão, salienta Morujão que «Almost immediately a tense relationship developed between the monastery and the see, since the monastery had been founded by clerymen who had abandoned the cathedral chapter to join the new institution and consequently the Crucians tried to evade the episcopal authority».

A necessidade de desvinculação em relação ao bispado teria como raiz, segundo a «Vita Tellonis», a oposição levantada pela diocese, que exigia a confeção em seu favor de um testamento tanto do local quanto do Mosteiro, isto é, que o lançasse como património diocesano. Com isso, vendo a possibilidade de ter sua liberdade cerceada, mantendo-se sob a tutela do bispo local, D. Telo e seus companheiros teriam recorrido à Santa Sé.

Nessa iniciativa, teriam eles buscado o reconhecimento fundacional da Comunidade, bem como a devida proteção face o episcopado coimbrão, gerando assim, de Inocêncio II, em 1135, três bulas: a Desiderium quod, que garantia o amparo da Sé Apostólica ao Mosteiro; a Quod personam e a In Beati Petri cathedra, as quais recomendavam tanto a Afonso Henriques quanto ao bispo de Coimbra os cónegos crúzios. Segundo a Vita Tellonis faz notar, seria a partir de tais disposições que o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra teria conquistado a isenção em relação ao bispo da cidade, estando, assim, diretamente subordinado à Sé romana.

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Inocêncio II, papa. Detalhe de um mosaico na basílica de Santa Maria em Trastevere de Roma (c. séc. XII). Imagem acedida em https://es.wikipedia.org/wiki/Inocencio_II

A controvérsia entre D. Bernardo, bispo de Coimbra, e a Comunidade de cónegos regrantes de Santo Agostinho, para além das questões antes citadas, teria se estendido também sobre outros assuntos. De acordo com o que narra Pedro Alfarde sobre o supracitado bispo, ele vendia bens eclesiásticos às escondidas, motivo pelo qual os Regrantes teriam se recusado a serem ordenados por ele. Tal desconfiança, prossegue o autor, teria levado os cónegos a solicitarem a presença do arcebispo de Braga, D. João Peculiar (1138 – 1175), para promover a ordenação. Como resultado, D. Bernardo, [...] tomado de fúria insana, contra as determinações em contrário, procurava impedir os fiéis [sic] que podia de nos entregarem [ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra] benefícios, quer nas coisas eclesiásticas que acaso possuíssem quer no direito civil. Por isso, até algumas das nossas igrejas reteve para si durante bastante tempo [...].

Livro Santo S. Cruz.jpg

Livro Santo começado no ano de 1155 que contem entre outras a transcrição da Vita Tellonis. Acedido em https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4614123

 …. Em linhas gerais, a contenda mais incisiva envolvendo a diocese coimbrã e o mosteiro de Santa Cruz teria durado, pelo menos, até que dois bispos, questionados pelas suas condutas, deixassem de ocupar seus cargos: o já citado D. Bernardo, que morrera em 1146, e seu sucessor, D. João Anaia (1147-1155), cuja demissão fora forçada em 1155.

Mosteiro de S. Cruz,  Claustro do Silêncio, tumul

Mosteiro de S. Cruz, claustro do Silêncio, tumulo de D. Miguel Pais Salomão. Imagem acedida em: https://en.wikipedia.org/wiki/Miguel_Pais_Salom%C3%A3o#/media/File:Tomb_-_Cloisters_-_Mosteiro_de_Santa_Cruz_-_Coimbra,_Portugal_-_DSC09710.jpg

Após este período, o bispado teria ficado vacante por sete anos até que um regrante crúzio, D. Miguel Pais Salomão (1162-1176), o ocupasse.

Oliveira, J.R.S.C. A Cidade de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz no Século XII. Reflexões sobre o Priorado de S. Teotónio. 2017. In: Acedido em: https://www.academia.edu/38218646/A_CIDADE_DE_COIMBRA_E_O_MOSTEIRO_DE_SANTA ...

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:55

Terça-feira, 21.05.24

Coimbra: S. Teotónio e o seu priorado do Mosteiro de Santa Cruz 1

Esta e as subsequentes entradas, têm a curiosidade de serem extraídas de um estudo do historiador brasileiro, Jonathas Ribeiro dos Santos Campos de Oliveira, Doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, no qual se debruça sobre a problemática da construção do Mosteiro de Santa Cruz e do papel fundamental de S. Teotónio na concretização desse projeto de tanta relevância não só para a Cidade, mas também para a consolidação do País que somos.

De acordo com a Vita [Vita Tellonis, de Pedro Alfardo] no ano de 1131 da Incarnação do Senhor [...], o arcediago Telo, agregando a si uma falange de homens de primeiro plano em número igual ao dos doze Apóstolos, começou a lançar os fundamentos do mosteiro de Santa Cruz nos arrabaldes de Coimbra.

A comunidade foi estabelecida extramuros da cidade, no lugar conhecido como “Banhos Régios”, próxima ao que fora a judiaria.

mosteiro de S. Cruz. Hoefnagel. 1598, pormenor.jpgMosteiro de Santa Cruz,. Hoefnagel. 1598. Pormenor

Conforme a narrativa, D. Telo, após alguma procura, teria conseguido o local de fundação a partir de uma troca feita por Afonso Henriques, em troca de uma sela de propriedade do clérigo.

Chegou, pois, o tempo de Deus decidir dar cumprimento ao voto formulado pelo presbítero. Comprara ele [D. Telo], casualmente, mas não sem intervenção de Deus, em Montpellier, uma sela, tal é o termo em língua vulgar, que era muito bem trabalhada e era mais que excelente para montar a cavalo. Certo dia, em que o arcediago seguia montado numa mula pela porta de Coimbra e caminhava como habitualmente pela rua Régia aperceberam-se dela os cortesãos que notaram o seu bom recorte. Alguém de entre os conselheiros deteve a atenção na sua elegância e propôs ao Infante que pedisse ao arcediago para lhe dar. Sem demora, satisfaz ele o pedido, sugerindo em troca a oferta dos Banhos Régios ao fundo da Judiaria.

…. [Na] Carta de couto a Paio Guterres (cabalo, praetio e vaso de planta), no fragmento em que faz a doação dos Banhos Régios, menção alguma é feita à sela.

…. a carência documental da qual dispomos e/ou de estudos que nos permita desenvolver melhor essa possibilidade, encerram em seu posicionamento a nossa opinião.

…. Tendo sido preterido na sucessão episcopal, D. Telo, algum tempo depois, teria encontrado ambiente favorável às suas pretensões após receber a já referida doação, por parte de Afonso Henriques, da área denominada de “Banhos Régios”. Ele também, segundo a obra, comprou do bispado um horto nas proximidades, local este que dispunha de uma fonte.

Vale salientar que o intento fundador de D. Telo não se fizera sem que houvesse para tal opositores. A iniciativa de fundar uma comunidade regrante, tendo como referencial a vida apostólica, teria, no período, alimentado uma crescente rivalidade com os membros do cabido de Coimbra.

…. Assim, a 28 de junho de 1131, após ter conquistado um espaço propício e ter reunido determinado número de adeptos à proposta, nos arredores da cidade de Coimbra, teria sido fundado o mosteiro de Santa Cruz. A arquitetura, baseada nos moldes românicos, teria ficado a cargo de mestre Roberto, um franco de Auvergne, que trouxe inovações estruturais, inaugurando aquilo que os historiadores chamam de “segundo período do românico coimbrão do século XII”.

Mosteiro de Santa Cruz, torre.jpgTorre de S. Cruz. Acervo RA

Igreja de Santa Cruz. Interior 03.jpg

Igreja de S. Cruz, interior. Imagem João Santos, acedid em www.facebook.com/jpphoto 

Iniciava-se, com isso, no ocidente ibérico, mais propriamente no Condado Portucalense, a experiência religiosa comunitária cujo referencial se baseava na Regra agostiniana. Tendo sido promovida a construção do Mosteiro em 1131, como antes vimos, suas atividades, de acordo com a narrativa, só teriam se iniciado em 1132, sendo eleito como seu primeiro Prior-mor, D. Teotónio, um dos fundadores.

 Oliveira, J.R.S.C. A Cidade de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz no Século XII. Reflexões sobre o Priorado de S. Teotónio. 2017. In: Acedido em:

https://www.academia.edu/38218646/A_CIDADE_DE_COIMBRA_E_O_MOSTEIRO_DE_SANTA_CRUZ_NO_S%C3%89CULO_XII_REFLEX%C3%95ES_SOBRE_O_PRIORADO_DE_D_TEOT%C3%94NIO?auto=download&email_work_card=download-paper

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por Rodrigues Costa às 10:43

Quinta-feira, 16.05.24

Coimbra: Achados arqueológicos no Largo da Portagem

O texto que hoje divulgamos saiu da pena da Professora Doutora Leontina Domingos Ventura e do Dr. Paulino Mota Tavares e foi publicado na Munda de novembro de 1982.

Na sequência dos últimos achados arqueológicos da Portagem,

Largo da Portagem 1.jpgCoimbra – Largo da Portagem onde a Arqueologia confirma o documento escrito. Op. cit., pg. 4

 que despertaram alguma curiosidade e diversos comentários entre eruditos e populares, trazemos a público um texto de 1677 que, de certo modo, explica a origem do conjunto formado pelas estruturas que, oportunamente, o Diário de Coimbra, revelou aos seus leitores: a fonte, recortada em pedra de Ançã e emoldurada por azulejo figurativo e monocromático de tema bíblico-pastoril e a grandiosa abóbada que abrigava um altar com retábulo, criando um espaço de recolhimento e veneração às principais figuras do Calvário.

Aí se prestaria culto a antigas imagens de Cristo crucificado, da Virgem e de S. João Evangelista. Tal obra de implantação e restauro seiscentista ficou a dever-se ao empenhamento do nobre e cavaleiro professo do hábito de Cristo, António de Magalhães e de sua mulher D. Sebastiana de Castelo Branco, que ali moravam, na velha Rua da Saboaria.

No final do artigo é apresentada uma transcrição do citado documento de 1677, da qual salientamos os parágrafos que se seguem, cuja grafia atualizamos para facilitar a sua leitura. Alertamos, ainda, não só para a falta de rigor histórico desse documento, bem como para o não uso de pontuaçãor, como era habitual na época em que o documento foi escrito.

…. No ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1677 anos sendo aos vinte dias do mês de abril do dito ano e nesta cidade de Coimbra e pousadas (ou casa de habitação) de António Magalhães ….  porque num quintal que juntaram às casas em que vivem querendo fazer entre outras curiosidades (ou construir) uma fonte que se meteu dentro do muro da cidade junto à ponte e rio Mondego que confina com o dito quintal procedendo a grandes circunstâncias (ou trabalhos)

Largo da Portagem 2.jpg

António Magalhães decidiu «fazer entre outras curiosidades sua fonte que se meteo dentro do muro da cidade». Op. cit., pg. 5

que dificultavam o sucesso (da obra) foi Deus servido se achasse uma abóboda e no fim dela um retábulo com a Imagem de um Cristo Crucifixado e de Nossa Senhora e S. João obra muito antiga

Largo da Portagem 3.jpg… «foi Deos servido se achasse hua abobada e no fim della hum retabollo…». Op. cit., pg. 6

que pelas tradições se averiguou ser do tempo em que os Godos possuíram esta Cidade a qual imagem estava muito maltratada e abocada (ou, tapada) com entulhos indecentes que se verificava ser entulhada pelos Mouros e entendendo ser a Deus Nosso Senhor servido fosse achada como foi Sua Santa imagem aos oito de Outubro desse ano próximo passado de seiscentos e setenta e seis para se lhe desse a devida veneração eles os ditos António de Magalhães e sua mulher a Senhora Dona Sebastiana de Castelo Branco lhe fizeram uma ermida com despesas consideráveis em todo o sítio junto a ela na qual queriam impor (se pudesse rezar) com licença do Ilustríssimo Senhor Bispo Conde Dom Frei Álvaro de S. Boaventura missa quotidiana e lâmpada acesa para sempre desistindo de um breve que tinham para puderem ter oratório e missa nas mesmas casas em que vivem e assim eram contentes que à custa dos rendimentos do dito morgado (morgado que haviam instituído) enquanto o mundo durasse houvesse missa por sua intenção e lâmpada sempre acesa na dita ermida e que além dos bens do dito morgado vinculam a ele e ao ornato dela (da ermida) as mesmas casas e todas as mais que têm ao redor delas a saber: as da Calçada que tem janelas para o mesmo quintal que rendem vinte e dois mil reis e as do canto para cima da sua porta que andam (são) dez e um armazém que se arrendado vale vinte mil reis e umas casas mais abaixo que andam em quatro que com baixos que se alugam das mesmas (semelhantes) às em que vivem possam render sessenta mil reis e para azeite da lâmpada dão por hipotecados a ela os olivais que têm dentro da Quinta de S. Clara que é cabeça do dito morgado.

Ventura, L.D. e Tavares, P.M. O Fenómeno Artístico e Religioso no Seiscentismo Coimbrão – A Portagem. In: Munda, Revista do Grupo de Arte e Arqueologia do Centro. N.º 4 Novembro de 1982. Pg. 3 a 8.

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por Rodrigues Costa às 17:13


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