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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 28.01.20

Coimbra: Rua das Covas 2

(As minhas) Memórias da Rua das Covas (continuação)

Rua das Covas, vista do telhado da minha casa.jpg

Rua das Covas, telhados

Toda a rua era um fervilhar de vida, um ovo de humanas esperanças e ambições.
Recordo o Sr. Edmundo, sapateiro, o Sr. Joaquim, da mercearia, onde eu ia buscar um litro de vinho por oitenta centavos, a numerosa família Damasceno, a senhora que morava no rés-do-chão, quase em frente da porta principal do prédio, sempre sorridente, com alcunha famosa que galgou fronteiras, muitos outros a quem me falece a memória. Por fim, o Sr. António Calmeirão, afamado mandador de Fogueiras, na sua oficina de sapateiro, onde dominava, solene, o seu retrato vestido de lente de Direito.

Calmeirão de borla e capelo.jpg

Calmeirão de borla e capelo

Recordo a comoção que a todos atingiu, quando um vizinho morreu, de doença incurável!
Essa rua era Coimbra, com as suas gentes, os seus estudantes, pois não poucos prescindiam dos seus espaços para os alugar aos senhores doutores, que já eram antes de o ser! Aos conimbricenses de gema, aos salatinas, se mesclavam forasteiros como eu, comungando da mesma cultura, como a Lurdes, de Vila Seca e o seu gato Barbaças, a Carlota, das Lajes, sempre com uma cantiga na boca, a D. Isaura, de Maiorca, ou a D. Adelaide, da Régua, frequentadoras de tudo quanto era cerimónia na Sé Nova.

Aquelas casas singelas, ou mais arranjadinhas, tinham majestade, pareciam amplificar a vitalidade de todos esses moradores, empurrando pelas janelas adentro o pregão de gente que fazia pela vida:
- Sardinha d'areeeia!
- Meeerc'a mim carqueja!
- Há p'r'ai quem tenha peles, farrapos ou ferro velho pra vender??!!
- Areia fiiina!
- Merca hortaliça!
Aos domingos à tarde era a tremoceira, no seu andar remexido: - Ó meninas! Tramoceira! ...
A Lurdes era das pessoas mais reinadias lá do prédio. Mal a tremoceira vinha pela rua acima, bradava ela da janela: - Ó Guilherme! E a tremoceira, julgando ouvir: - Ó mulher! Gritava lá de baixo: - Lá vou freguesa! Passou-se isto por diversas vezes, até a pobre da vendedora se aperceber da brincadeira.
Aos domingos à tarde... era também a ansiosa expectativa de ir à matiné ao Sousa Bastos ou por vezes ao Avenida, acompanhados pelo entretém da pevide suiça.

Rua das Covas, casas austeras.jpg

Rua das Covas, casas austeras

Rua estreitinha, de casas austeras, quinhentistas e seiscentistas, na sua maioria, com janelas de avental, sem brasões nem arrebiques, a atestar o fluir da História, as vidas que se sucedem. Mas havia, claro, a dos números 17-21, a mais notável, com bossagens rusticadas maneiristas, na moldura das portas e janelas. Em tempos albergou uma tipografia e a fachada fora enobrecida com o medalhão ruanesco da Fortuna, levado para o Museu. É pena que não se faça uma reprodução para voltar ao lugar que ocupou durante séculos.
Um pouco mais acima, entroncava o Beco das Condeixeiras, entre altos muros e poucas casas, com buganvílias e parreiras debruçadas, roupa estendida a enxugar, um recanto rural no meio da cidade, mais familiar para mim do que a imensa mole do Museu Machado de Castro, que dominava toda a parte alta da rua.
O Beco das Condeixeiras era o limite do grande quintal, pertencente à casa onde morei, e comunicava com o cimo da Rua do Cabido. Por porta aberta no muro das traseiras também se fazia o mesmo acesso, de forma fácil. Por lá passava eu, para ir à missa a S. Salvador, ou acompanhar a D. Adelaide, quando ia zelar o Senhor dos Passos dessa igreja e às novenas do Menino Jesus, na Sé Nova. Mesmo em frente dessa porta do quintal morava a D. Piedade, melhor, a Menina Piedade, que recordo sempre na elegância do seu negro vestir: sapato de camurça, meia de seda, saia travada, xaile de merino de oito pontas, pelos ombros, a preceito, e lenço seguro na nuca com fitinha de veludo que lhe envolvia e pescoço, o vicente. Parecia uma figura da Renascença!
Na casa onde vivi, o quarenta e três, tudo me parecia enorme: a escadaria, os sombrios corredores, o tecto alto dos quartos. Em todos os recantos havia uma aura de mistério, a que se vinha juntar o ruído cavo dos trabalhos de remoção do entulho nas galerias do criptopórtico romano.
Certo dia, os meus pais decidiram mudar para Montarroio, mas, para mim, a Rua das Covas ficou sempre o meu berço coimbrão. Muitas vezes lá passei, mais tarde, discretamente, a matar saudades, a assistir preocupado à degradação do meu antigo habitat. A alegria que senti quando soube que tinha sido adquirido pelo Museu apenas tornou maior a mágoa de a ver desaparecida.
Como está diferente a Rua das Covas! Quase não há casas no lado dos ímpares!
Será sina de Coimbra ser palco de amores infelizes e vítima do camartelo, seja ele do Município, do Marquês de Pombal, do Estado Novo, ou do Estado Democrático? Poderão refazer-lhe as casas que demoliram, poderão construir-lhe cubos pós-modernistas, mas a Rua das Covas jamais voltará a ser a mesma, fraterna, de vidas em comum, perpassadas de cantigas brejeiras e de dores sentidas, de raivas e esperanças, muito humana, aconchegante, onde não tinha lugar a solidão.

Nelson Correia Borges

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por Rodrigues Costa às 19:21

Quinta-feira, 23.01.20

Coimbra: Rua das Covas 1

(As minhas) Memórias da Rua das Covas

Rua das Covas, vista do lado da Sé Velha.jpgRua das Covas, vista do lado da Sé Velha

Em 1883 a Câmara Municipal de Coimbra decidiu rebaptizá-la com o nome de Rua Borges Carneiro, em homenagem a um dos activistas da Revolução de 1820 - de seu nome próprio Manuel -, que, por volta de 1800, passara pela cidade, a licenciar-se em Cânones. E o nome lá perdura, agora em azulejos, à esquina do Largo da Sé Velha.

Rua das Covas, placa toponimica.JPG

Rua das Covas, placa toponimica

Mas não teve grande efeito a decisão dos edis citadinos, porquanto, como observa José Pinto Loureiro, para toda a gente, a declivosa via continuou sempre a manter o vetusto nome de Rua das Covas, vindo já dos tempos da formação da nacionalidade. Há quem diga que o topónimo se originou nas covas de sepultura que se abriam no adro da Sé, mesmo no fundo da rua. Mas há igualmente quem pense, talvez mais avisadamente, que as tais covas não seriam outra coisa senão as galerias do criptopórtico romano, que permaneceriam abertas para o ar livre, ou parcialmente entulhadas, nos baixos do paço episcopal.

Rua das Covas, vista do lado da Sé Nova.jpg

Rua das Covas, vista do lado da Sé Nova

Fosse como fosse, covas nas ruas nunca faltaram em Coimbra, e certo é que a Rua das Covas sempre foi de capital importância na mobilidade de pessoas e coisas entre a Baixa e a Alta que Deus Haja, em eixo natural concertado com o Quebra Costas e o Largo da Sé Velha, aproveitando a linha de água entre a colina do Paço e a do Salvador.
Muitas são as memórias que pairam em seu redor e, por certo, serei eu a pessoa menos indicada para delas falar.

Rua das Covas, casa demolida.jpg

Casa onde vivi, demolida com as obras de ampliação do Museu

Para o miúdo tímido de finais dos anos 1940, que era eu, vindo de uma casa de aldeia, de loja e sobrado, para morar num terceiro andar, acima dos beirados, tudo parecia estranho e fantástico: o enfadonho pico-pico dos alvenéis talhando a silharia da nova Faculdade de Letras; as manhãs enevoadas, com o arrulhar misterioso das pombas na Sé Velha e em S. João de Almedina; o insólito atirar de trastaria velha para a rua, na noite de fim de ano, por entre o ensurdecedor bater de testos; as agitadas quintas-feiras da Ascensão, com multidões de aperaltados camponeses a corrupiar pelas varandas do Museu Machado de Castro; os regressos do Espírito Santo, com o festivo tilintar das campainhas de barro; as espantosas festas da Senhora da Boa Morte, na Sé Nova e o seu sino temeroso; as serenatas a desoras, junto à casa fronteira que alugava quartos a meninas estudantes. Olhos e ouvidos eram ávidos de apreender todas estas novidades estranhas. Até a linguagem e a forma das coisas: - ouvir dizer boa noute, ou nomear pote a um cântaro com duas asas junto à boca, ou chamar meninas a senhoras que podiam ser minhas avós ...
Na Rua das Covas morei num prédio com andar acrescentado acima dos beirados, como outros prédios dessa rua. Da rua não eram visíveis estes andares espúrios, nem tão pouco dos mesmos se alcançava a rua, devido ao avanço dos beirados e à estreiteza da mesma: era como um mundo à parte, uma janela indiscreta, a comunicar com o vizinho da frente e donde até se podiam lançar ditos de escárnio e maldizer, pelo Entrudo, a coberto da ocultação.
Ali viviam à volta de três dezenas de famílias. Um simples quarto, dos vários dispostos em cada andar, ao longo de comprido corredor, era abrigo suficiente para solitários e casais, ou, mesmo mais pessoas.
Nelson Correia Borges (continua)

 

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por Rodrigues Costa às 11:00

Terça-feira, 21.01.20

Coimbra: República de Coimbra no Porto

Foi recentemente publicado o primeiro volume da obra Os Lysíadas. A epopeia dos Ly.S.O.S. Uma República de Coimbra no Porto, cuja leitura recomendo aos Coimbrinhas como eu.

Os Lysíadas, capa.jpgOs Lysíadas, capa

O seu Autor – o Zé Veloso – um antigo estudante de Coimbra onde integrou o conjunto que alguns de nós bem se lembram, os Alamos, é o fundador do blogue Penedo d@ Saudade – Tertúlia.

Os Lysiades 3.jpg

Os Alamos antes e agora

Numa divertida reformulação de Os Lusíadas de Luís de Camões, conta a história da migração de um conjunto de estudantes de Coimbra para o Porto e da vivência académica da Real República dos LyS.O.S. que ali fundaram.

Os Lysíadas2.jpg

Real República dos Lysos

Cada canto é completado por uma nota explicativa onde são contados factos e memórias da vida académica em Coimbra, em meados do século passado e não só.
Mas o melhor é dar palavra ao que é dito na contracapa:

Os Lysíadas 1.jpg

Os Lysíades, contracapa

Os Lysíadas conta-nos a saga de um grupo de estudantes de Coimbra que em 1959 foram concluir as suas formaturas no Porto, onde fundaram a Real República dos LyS.O.S [leia-se Lisos], segundo a tradição das Repúblicas de Coimbra.
Poema épico de fácil leitura, inspirado n’Os Lusíadas, Os Lysíades segue uma linha paralela à narrativa de Camões, adaptando os episódios mais marcantes da obra do Poeta aos temas que trata e aos tempos que retrata, de forma criativa, irreverente e bem-humorada.
Para além de colocar o leitor dentro da vida de uma República de estudantes dos anos 50 e 60 do século passado, o livro contém ainda informações preciosas sobre a história e as histórias de Coimbra, sua Universidade, sua Academia, suas gentes e suas tradições centenárias.

Veloso, José. 2019. Os Lysíadas. A epopeia dos LyS.O.S. Uma república de Coimbra no Porto. Volume I. De Coimbra ao Porto. Coimbra, Minerva Coimbra.

 

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por Rodrigues Costa às 10:32

Quinta-feira, 16.01.20

Coimbra: O Tesouro da Sé de Coimbra, em 1906 3

 

Illustração Portugueza. p. 85 01.jpgIllustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, p. 85

Do século XII, a croça do báculo de S. Bernar¬do, em cobre dourado, e o belo cálice românico que na orla da base tem a legenda: «Geda Menendiz me fecit in onorem sci michaelis e MCLXXXX»;

Cálice românico.jpgCálice românico

Do século XIV, o relicário de coral e prata, a imagem da Virgem com o Menino ao colo e a cruz de ágata, objetos que pertenceram á Rainha Santa, e todos eles marcados com as armas de Portugal e de Aragão;

Relicário de coral e prata 01. Pertenceu à RainhRelicário de coral e prata que pertenceu à Rainha Santa

Do século XV, a grandiosa cruz processional cuja reprodução acompanha estas linhas;

Cruz gótica(1).jpgCruz processional

Do século XVI, a custódia tão sumptuosamente decorativa de D. Jorge d'Almeida, uma caldeirinha de prata com o brasão do mesmo Prelado, uma riquíssima coleção de cálices, e a bacia e gomil também aqui reproduzidos em gravura; do século XVII, a grande custódia e a cruz-relicário do Bispo D. João Manuel, o relicário de Santa Comba e uma grande cruz de azeviche; finalmente, do século XVIII, o jogo de sacras em prata e lápis-lazúli.
Na secção dos paramentos, figura, em primeiro lugar, a capa da abadessa de Lorvão, com sebastos soberbamente bordados, e na das tapeçarias um pano flamengo, representando Marte o Vénus surpreendidos por Vulcano, e uma alcatifa persa, em seda, verdadeira maravilha de brilho e cor.
Referindo-se ao Tesouro da Sé, escrevia há meses o sr. Joaquim de Vasconcelos: «Quem subscreve «estas linhas teve ensejo de visitar repetidas vezes os museus capitulares de alguns dos cabidos mais ricos da Europa; pode comparar sem prevenções e julgar do valor das obras expostas por experiência própria e por algum estudo, adquirido durante longos anos de pacientes investigações; não hesita, contudo, em afirmar que o Museu de Coimbra rivaliza com os mais opulentos».
O mesmo ilustre crítico escrevera também na «Arte e Natureza em Portugal»: «A criação do Museu é um exemplo preclaro, dado aos restantes prelados portugueses, que podem e devem abrir, os tesouros das catedrais ao estudo. O senhor Bispo-Conde soube achar em Coimbra o artista erudito, competente para a difícil obra da Sé Velha. Temos fé que encontrará, sem sair de Coimbra, o arqueólogo sagaz e bem informado, que deve inventariar num índice impresso, luminoso, manuseável o barato as incomparáveis riquezas do museu diocesano».

Castro, E. O Thesouro da Sé de Coimbra. In Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 84-87.

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por Rodrigues Costa às 09:48

Terça-feira, 14.01.20

Coimbra: Mártires de Marrocos

MÁRTIRES DE MARROCOS. NOTAS ICONOGRÁFICAS.

A história e a lenda dos Mártires de Marrocos estão intimamente ligadas a Coimbra.
Por decisão de S. Francisco de Assis partiram da Itália com destino ao norte de África, para que convertessem os muçulmanos, os frades Beraldo, Oto, Pedro, Adjuto, Acúrsio e Vidal. Em 1219 rumaram à Península Ibérica, passando por Aragão, onde Vidal adoeceu, pelo que apenas entraram no nosso país os outros cinco. Foram acolhidos em Coimbra por D. Urraca, esposa de D. Afonso II. Continuando caminho, partiram para Alenquer, onde estava D. Sancha, a piedosa irmã do rei, que os acolheu e aconselhou a serem prudentes. Daqui passaram os cinco frades a Sevilha, onde a sua pregação irritou os mouros, que por pouco os não mataram. Chegados a Marrocos foram recebidos pelo infante D. Pedro, irmão de D. Afonso II, refugiado em África por questões com o rei português. Também D. Pedro lhes deu conselhos de prudência, mas os frades, levados por entusiástico fervor iniciaram corajosamente as suas pregações, sofrendo contínuas peripécias e tormentos, de que D. Pedro os livrou por mais de uma vez, até o miramolim de Marrocos, irritado com a constância dos frades, os mandar prender, depois de em vão os tentar demover das suas atividades. Quando saíram da prisão, voltaram a pregar na praça pública. Os mouros espancaram-nos e arrastaram-nos pelas ruas, levando-os de novo à presença do miramolim que se enfureceu ao ouvir as respostas atrevidas dos franciscanos, fendeu-lhes os crânios com uma cimitarra e, a seguir, degolou-os.
Estava-se a 16 de janeiro de 1220. Os corpos dos mártires, lançados fora das muralhas e despedaçados, puderam ser recolhidos durante a noite pelos criados de D. Pedro. Quando o infante voltou à Península, trouxe consigo os restos mortais dos cinco frades, que imediatamente enviou para Coimbra (D. Pedro seguiu para a Galiza). Foram recebidos com toda a solenidade em 10 de dezembro de 1220 pelo próprio D. Afonso II. Organizou-se o cortejo que seguia para a Sé, mas a mula que levava o caixão das relíquias – contam os relatos lendários – parou junto ao mosteiro de Santa Cruz e dali não se mexeu enquanto não abriram as portas da igreja. Entrou e foi ajoelhar junto do altar-mor, significando que os restos dos mártires deviam ficar naquele lugar, como realmente assim aconteceu. Na verdade, o depósito das relíquias em Santa Cruz poderá dever-se ao facto de ter sido um cónego de Santa Cruz, D. João Roberto, que acompanhou D. Pedro no norte de África, ajudou a recolher e a conservar os restos dos frades, e depois os acompanhou no regresso a Portugal.
De que forma o culto dos mártires, que rapidamente se desenvolveu, se traduziu em representações artísticas?
A mais antiga representação que chegou até nós deve-se ao mosteiro de Lorvão, onde se encontrava a irmã do rei, a rainha D. Teresa, após o regresso de Leão.
A seu pedido foram para Lorvão parte das relíquias e a corda com que os mártires andaram arrastados pelas ruas.

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Arqueta do Mosteiro de Lorvão

Para as conter se fez uma arca relicário esculpida em calcário, onde se veem os cinco frades sob arcadas, em variados gestos, tendo na extremidade o Miramolim, sentado, de atitude interpelante. A cena representa a disputa dos mártires com o miramolim, dentro do palácio do rei: um passo da história que a iconografia não voltaria a repetir, pois as representações seguintes todas se centram no martírio, à exceção das de Alenquer, onde uma pintura seiscentista representa a aparição dos mártires a Santa Sancha, logo após o martírio (o acolhimento dos frades por D. Sancha, em azulejo, na portaria do convento, está muito degradado e quase irrecuperável).
O culto dos mártires, em Santa Cruz, já no século XV tinha conhecido considerável desenvolvimento. O prior D. Gomes Ferreira mandou lavrar uma caixa de prata para conter as relíquias, com cenas do martírio, mas que infelizmente não chegou até nós. Erigiu-lhes também uma nova capela na igreja, pronta em 1458.

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Relicário do Mosteiro de Lorvão, séc. XVI

A degolação dos mártires é tema para iluminuras de alguns códices, mas a primeira representação conhecida disponível para os fiéis deve-se mais uma vez ao mosteiro de Lorvão, no começo do século XVI, onde a abadessa D. Catarina d’Eça mandou fazer um relicário de prata dourada em que mandou pintar com realismo a impressionante cena da tragédia.

2.Mártires_de_Marrocos_Convento_de_Jesus Setúbal

Mártires de Marrocos. Convento de Jesus (Setúbal)

Da mesma época e um pouco posteriores são dois relicários de Santa Cruz, representado bustos de frades franciscanos, de rosto imberbe e com grande tonsura. É também a época da pintura em tábua com a cena do martírio feita para os conventos de S. Francisco de Évora e de Jesus de Setúbal (agora em museus).
A partir do século XVII e XVIII, multiplicam-se os exemplos do tema, em relevos e escultura de vulto, sobretudo disseminados por conventos franciscanos. Destaca-se o altar na igreja de S. Francisco do Porto, com as figuras de vulto inteiro, tal como no convento de Santo António, de Aveiro, ou em Mafra. A devoção atinge também igrejas rurais e urbanas.

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Mártires de Marrocos. Igreja de Santa Justa (Coimbra)

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Mártires de Marrocos. Igreja de Tarvassô

Na igreja de Santa Justa, de Coimbra, incluíram no retábulo D. Pedro II um relevo com a cena cruenta do martírio e em Travassô as figuras são de vulto, incluindo a do miramolim, a que se junta um relicário.

7.Santa Cruz.jpgMártires de Marrocos. Igreja de Santa Cuz (Coimbra)

É obviamente em Santa Cruz de Coimbra que se conserva o maior número de elementos históricos e iconográficos relativos a este culto, designadamente o livro da confraria dos Santos Mártires de Marrocos, a casula da festividade e a campainha, que anda ligada a procedimentos de caráter etnográfico. Na capela de Santo António representa-se em azulejo a chegada dos franciscanos a Santa Cruz. Notável é também o grupo escultórico com os mártires agrilhoados em atitude fervorosa, já da segunda metade do século XVIII.
Embora os santos Mártires de Marrocos se encontrem representados em diversos países, é em Portugal que conhecem as mais numerosas e originais representações, em quadros, esculturas, peças de ourivesaria e gravuras, constituindo um dos temas típicos da iconografia portuguesa, sem rival no estrangeiro.
Nelson Correia Borges

In: Correio de Coimbra n.º 4769, de 2020.01.09

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por Rodrigues Costa às 10:23

Quinta-feira, 09.01.20

Coimbra: O Tesouro da Sé de Coimbra, em 1906 2

Illustração Portugueza. p. 86 01.jpg

Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, p. 86

A primitiva instalação constava apenas de duas salas: na primeira, estavam as tapeçarias e os paramentos; na segunda, as peças de ouro e prata.

Capa da Abadessa de Lorvão.jpg

Capa da Abadessa de Lorvão

No entanto os últimos conventos iam acabando, e, à proporção que acabavam, ia a coleção crescendo. Não sem o obstáculo de alguns respeitáveis pedregulhos, cuja remoção não foi das mais fáceis, de Lorvão, de Semide, de Santa Clara, de Tentúgal e de Vila Pouca vinha correndo para o Tesouro da Sé uma rutilante enxurrada de alfaias preciosas, relicários, cibórios, turíbulos, cálices, gomis, frontais e dalmáticas, numa estranha confusão em que o ouro, a prata, as pedrarias e os esmaltes se misturavam com o veludo, a seda, a tartaruga, o coral e a malaquite.

Exposição de vários objetos religiosos.jpg

Exposição de vários objetos religiosos

A acumulação tornara-se excessiva. Ousadamen¬te, se rasgou en¬tão uma ampla galeria contigua às duas salas, e ao longo dela se dispuseram, em vitrines, os objetos mais preciosos. Entro estes, alguns há que lu¬ziriam como estrelas de primeira grandeza nos mais ricos museus do estrangeiro. Dadas as di¬mensões naturalmente estabelecidas para este ar¬tigo, apenas mencionarei as peças mais notáveis pe¬la beleza e pelo valor histórico.

Castro, E. O Thesouro da Sé de Coimbra. In Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 84-87.

 

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por Rodrigues Costa às 09:26

Terça-feira, 07.01.20

Coimbra: O Tesouro da Sé de Coimbra, em 1906 1

Na Illustração Portuguesa de 1906, Eugénio de Castro publicou um artigo que, em parte se reproduz, onde é relatada a forma como, em conjunto com António Augusto Gonçalves, foi levada a cabo a tarefa de exposição e de catalogação Thesouro da Sé de Coimbra. Trabalho que constituiu o embrião do Museu Nacional Machado de Castro, onde as peças aqui referidas atualmente se encontram.
Por razões de facilitar a leitura atualizou-se a grafia do artigo.

Eugénio de Castro.jpg

Eugénio de Castro

O Thesouro da Sé de Coimbra

Illustração Portugueza. p. 84 01.jpgIllustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, p. 84

… os nossos primeiros críticos d'arte, Joaquim de Vasconcelos, Ramalho Ortigão, Sousa Viterbo, António Augusto Gonçalves e outros, fixaram já, e repetidas vezes, com palavras de rasgado louvor, a singular importância d'esta opulenta coleção, enaltecendo ao mesmo tempo os méritos do seu instituidor, que, afortunadamente, tem dedicado uma boa parte da sua inteligência, energia e bom senso proverbiais ao culto da beleza artística, reatando assim a luminosa tradição, por tantos anos quebrada, daqueles grandes Prelados, D. Jorge de Almeida, D. João Soares, D. Afonso de Castelo Branco e D. João Manoel, que, chamando arquitetos, escultores, ourives, entalhadores, bordadores e tecelões, encheram de preciosidades a velha Sé, com a magnífica prodigalidade d'um enamorado príncipe italiano da Renascença.

D. M.el Correia de B. Pina. Bispo de C.a e conde d

D. Manuel Correia de Bastos Pina, Bispo de Coimbra e conde de Arganil

… Encerrada a Exposição da Arte Ornamental, que se realizou em Lisboa no ano de 1882, e onde a diocese conimbricense tivera brilhante representação, lembrou-se o senhor Bispo-Conde de fundar junto da sua catedral um museu de arte religiosa, constituído pelas chamadas pratas da Sé, e que sucessivamente devia ser aumentado com peças provenientes dos conventos em via de supressão. Nesta, como em todas as empresas do senhor Bispo-Conde, não intervieram delongas. Estudado o projeto, deu-se-lhe imediata execução. No mesmo dia se escolheram salas adequadas e se encomendaram as vitrines; no mesmo dia se chamaram ferreiros que vieram chapear as janelas e portas do futuro tesouro, e se rebuscaram pedaços de talha antiga para guarnecer prateleiras. Todo este «fervet opus» se exaltava sob a vigilância contínua do senhor Bispo-Conde, que dirigia os trabalhos, que a pensar neles adormecia, que com eles sonhava, e com eles se sentava á mesa, entusiasmado e decerto por ver tudo rapidamente concluído, como se tudo aquilo, que para os outros era, fora seu, com a mesma ansiedade do particular que assiste à edificação do palácio onde conta passar uma regalada e luxuosa existência.

Castro, E. O Thesouro da Sé de Coimbra. In Illustração Portugueza, 3, Primeiro semestre, 2.ª série, Lisboa, 1906, p. 84-87.

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:19

Quinta-feira, 19.12.19

Coimbra: Tascas antigas que ainda vão existindo

Com esta entrada termina a série sobre tascas de Coimbra da responsabilidade de Carlos Ferrão que geraram um número significativo de visualizações e comentários. Ficamos à espera de mais colaborações

- O TAPA
Localização: Rua das Rãs

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O Tapa, na atualidade

O Tapa mantém-se vai para 70 anos, na Rua das Rãs, em plena baixa da cidade. Local muito pequeno, bom para pausas de trabalho ou uma paragem de passeio, beber um copo e andar.
Ganhou o nome, porque nos seus primeiros tempos o copo era acompanhado por uma azeitona que o taberneiro fazia questão de oferecer, retirando-a do pote com uma pequena concha que suportava apenas uma unidade. Ninguém bebia sem um tapa.
Atualmente, tem menu de petiscos e seguindo os princípios da boa dieta mediterrânica há sempre sopa!

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O Tapa, publicidade

O lema da casa é: Vir a Coimbra e não ir ao Tapa é o mesmo que ir a Roma e não ver o papa.

- A SENHORA ALEXANDRINA, depois CAROCHA, depois JOÃO BRASILEIRO, hoje RESTAURANTE MONDEGO
Localização: Praça do Comércio n.ºs 109-111

Tasca da Alexandrina, ao fundo.jpg

Tasca da Alexandrina, ao fundo, ao lado da torre da Igreja de S. Bartolomeu

Perto da Igreja de S. Bartolomeu, em frente da capelinha do Senhor dos Passos, a senhora Alexandrina, já era matrona madura e muito sabida, começou por se estabelecer com um café, que veio com os tempos a transformar-se em café-restaurante.
A sua ajudante de campo era uma sobrinha que não dava trela a qualquer, mantinha um ar sério e grave.
Tinham uma criada de ordens, a celebrada Marocas, aquela Marocas traquinas… A Marocas era pau para toda a colher, sempre com aqueles sorrisos cativantes metia os fregueses ... na despesa e o caso é que caiam como patos, saindo dali a arrastar-se, envenenados com o absinto requentado no preço, e espatifado na manipulação caseira. Se ficavam mais um momento embalados pelos enguiços da Marocas, retiravam-se depenados. Não era a senhora Alexandrina que lhe incutisse esse espirito de ferrar a unha, a Marocas pagava-se do luxo dos deleites.
A patroa costumava sentar-se numa poltrona na cozinha, que ao mesmo tempo servia de casa de jantar, e a seu lado, por vezes um pouco afastada, a delicada da sobrinha entretida em idílios aéreos com algum estudante idolatrado, meio sentado a seus pés, expondo-lhes as suas paixões assolapadas, que viravam de rumo, apenas ele transpunha os umbrais da porta da rua, fineza que ela retribuía com igual constância!
Mais do que um café, era um autentico club da rapaziada mística, académicos, militares e futricas; palestrava-se, faziam-se sermões laudatórios em cima das mesas, ou recitavam-se poesias improvisadas, onde se testemunhou que Adelino Veiga (o poeta operário), desde tenra idade dos 15 anos, aí iria versejar com facilidade e espontaneidade.
A senhora Alexandrina faleceu em fevereiro de 1886, a sobrinha tinha falecido antes e a Marocas retirou-se para a Beira Alta onde voltou a ter o nome de Maria e ficou o resto da sua vida a recordar algumas das suas paixões!

Passou depois a ser conhecido pelo "Carocha", por atenderem a clientela duas galantes raparigas, tão morenas, como atenciosas, filhas do proprietário, o "Pai Carocha"! Com novo dono, que mal um cliente entrasse dizia sempre: "obrigadinho", ficou conhecido pelo "Obrigadinho".

Alexandrina-1.jpg

Tasca do João Brasileiro

Seguidamente entra em cena o Sr. João que vindo do Brasil deu o nome ao estabelecimento de “João Brasileiro” e que não deixou durante a sua gerência que o seu sotaque se perdesse o mesmo fazendo acontecer à qualidade do serviço.
Atualmente é o restaurante "Mondego", sossegado, acolhedor e informal.

Painel de azulegos representando o Calvário.jpg

Painel de azulegos representando o Calvário aplicado na frontaria do edifício


Carlos Ferrão 

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por Rodrigues Costa às 10:43

Terça-feira, 17.12.19

Coimbra: Cerca do Colégio de S. Agostinho

Extrato de uma comunicação apresentada no ciclo de conferências comemorativo dos 900 anos de Almedina.

A Cerca de S. Agostinho, quando ali nasci, estaria, praticamente, como quando em 1834 o Mosteiro de Santa Cruz foi extinto. Constituía um anexo do Colégio da Sapiência ou de S. Agostinho. Era, então, chamada Cerca dos Órfãos ou simplesmente Cerca.

Imagem mais antiga da Cerca.jpgImagem mais antiga da Cerca que se conhece

Já não conheci, obviamente, o passadiço e casas anexas que ligavam o Colégio da Sapiência à Cerca.

Passadiço do Colégio.jpeg

Passadiço do Colégio para a Cerca

Disposta em socalcos era um mundo fantástico, cheia de segredos e de subterrâneos.

Cerca outra imagem.jpg

Outra imagem antiga da Cerca

A casa onde nasci estava em parte sobre o que poderá ser uma cisterna, pois ainda me lembro de ver parte de uma abóbada feita em tijolos, e quando se deitava água por um buraco ouvia-se cair no fundo.
Sobre os restos da antiga muralha que a separava da Couraça dos Apóstolos corria um cano vindo da fonte que existiu em frente ao Laboratório Chimico, o qual lançava água num pequeno tanque. Dali ia, por um outro cano enterrado, ia para a leira do jardim, onde vertia para um outro pequeno tanque. Leira do jardim onde existiam arbustos e flores que só ali se viam.
Encostadas ao muro do lado nascente que a separava da cerca dos Jesuítas, existiam duas capelas, com vestígios de pinturas murais. A de cima com bancos de pedra embutidos na parede e a de baixo, com bancos de madeira.
Sobrepujava a capela de baixo uma imagem de pedra que hoje já não existe. Arruado da colunata.jpg

O arruado da colunata e ao fundo a capela de baixo onde ainda se pode vislumbrar a estátua de S. Agostinho.

Ligando diretamente a capela de baixo à entrada da Cerca estava uma colunata, a que chamávamos o arruado, uma longa fila de pilares que sustentavam uma latada cheia de roseiras.
A meio da colunata, na parede, havia o que parecia uma porta de pedra. Tinha um buraco e, hoje, penso deveria ser por onde passava a ligação da referida possível cisterna, ao tanque da leira mais abaixo.
A ligação entre os socalcos era feita por escadas de pedra, uma delas com lindos balaustres também em pedra.

Cerca leira de cima.jpg

A leira de cima da Cerca … uma pálida imagem do passado

Na leira mais elevada, no muro sobranceiro ao arruado, havia uma série de bancos de pedra separados entre si por pequenos alegretes. Na leira junto ao muro sobre a Rua do Colégio Novo havia uma pedra com uma data. Era ali que os meninos do Colégio dos Órfãos, raramente, brincavam. Recreio que estava separado, por uma porta de madeira, da leira que o prolongava e de uma outra leira que era a mais baixa.
Ali existia uma mina que devia ter cerca de 50 metros de extensão cuja água vertia para um tanque de grandes dimensões.
Como se pode constatar o aproveitamento da água, tinha ali um exemplo da luta de séculos do Mosteiro de Santa Cruz pelo controlo desse bem essencial.
Na Cerca – que estava e está na posse da Misericórdia de Coimbra – eram então produzidos vegetais e fruta destinados à alimentação das meninas e meninos do Colégio dos Órfãos, hoje Colégio de Caetano.
Rodrigues Costa 

 

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por Rodrigues Costa às 09:55

Quinta-feira, 12.12.19

Coimbra: Tascas que já não existem 5

- TASCA DO PINTO
Localização: Rua do Cabido

Tasca do Pinto.jpg

Tasca do Pinto

Localizada no extremo da Rua do Cabido, junto ao Largo de S. Salvador, no centro nevrálgico da Alta, sempre teve com a comunidade universitária.
A Tasca do Pinto, O Pinto, ou O Pintos, como mais normalmente é designada, embora o nome oficial seja Casa Pinto, Comidas & Petiscos, primeiramente tinha como fregueses funcionários da Universidade e dos Hospitais da Universidade, que gradualmente foram sendo substituídos por estudantes.
Os HUC e algumas faculdades foram transferidos para outras zonas da cidade, os funcionários da Reitoria e das faculdades que ficaram foram perdendo o hábito de aí virem, mas deixaram uma marca da sua passagem. Foram os insistentes pedidos de ‘uma sopinha’ que fez juntar as refeições ao tradicional serviço de vinhos e petiscos.
A taberna que nos anos 40, O Espanhol aí criara num armazém de lenha para uso doméstico, viera substituir uma outra destruída pelo Estado Novo quando arrasou parte da 'alta' para edificar o complexo universitário.

Tasca do Pinto 5.JPG

Tasca do Pinto, cartaz assinado por clientes

O casal Luís Pinto e Adelina tomou-a de trespasse em 1978, poucos meses após regressar de Moçambique, e conferiu uma nova identidade, à antiga taberna, transformando-a num ex-libris da 'alta'.
Coimbra que na sua vida viram apenas para tomar o comboio na partida para Moçambique, ficou na ideia deste casal do concelho de Meda, e para ela rumaram na esperança de dar um melhor futuro às filhas.

Tasca do Pinto 11.JPG

Tasca do Pinto, decoração

A Queima das Fitas, em maio, e a Latada, em outubro/novembro, em que a Universidade festeja a entrada de novos estudantes, eram momentos marcantes na taberna do Pinto. O movimento intenso de estudantes, que contava também com familiares e antigos estudantes que a frequentaram há 10, 20 e mais anos.
Nas paredes das duas salinhas, ornamentadas com meia dúzia de mesas, ficaram testemunhos da passagem – fotos, recortes de jornal, ou até desenhos e pinturas, algumas delas a evocar o tempo passado na Taberna do Pinto.
Por cima do balcão, tal como bandeiras desfraldadas, dezenas de pontas de gravatas negras testemunham a passagem por aí de estudantes a festejar o rasganço do traje académico, quando terminam o curso.
Acabaram as tradicionais pipas de vinho, tal como o progresso as fez desaparecer de outras tascas da cidade, mas o vinho continuava a ser servido ao copo, a acompanhar os já confecionados petiscos que faziam crescer a água na boca: a sardinha frita de escabeche, a sardinha albardada, o carapau frito ou as iscas de fígado.
Nas refeições faziam honras da casa, o arrozinho de pimentos e a bifaninha, bem temperada com alho, sal, um pouco sal, colorau e vinho branco.
A vida do casal Adelina e Luís, estava dentro daquelas portas!


- TASCA DA PALMIRA, depois MIJA-GATO
Localização: Rua do Carmo
Pelos anos vinte e trinta do século XX, ao fim do dia, quando as oficinas se iam fechando a tasca da Palmira era passagem obrigatória dos mestres serralheiros Daniel Rodrigues e Albertino Marques. Era raro o dia que não aparecesse também o pintor Álvaro Eliseu e o canteiro João Machado Júnior para petiscar, beber um copo e cavaquear.

Tasca do Mija-Gato-1.jpg

Tasca do Mija-Gato

Mais tarde este lugar de encontro na rua do Carmo, com uma mudança de proprietários passou a chamar-se “Mija-Gato”, com a iconografia do nome estampado no vidro das portas texanas.
O espaço foi recentemente comprado pelo proprietário do adjacente Restaurante Cantinho dos Reis.

Carlos Ferrão

 

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por Rodrigues Costa às 11:24


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