Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Quinta-feira, 21.06.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 9

O França Rolié.jpg

 O França Rolié

 O França Rolier-Catecnemaquilitanas, como ele se dizia, era um cocheiro que estava encarregado de conduzir as malas do correio á estação do caminho de ferro e por tal forma se desempenhou da sua missão que tenho aqui à vista todos os atestados que por várias vezes lhe foram passados pelo diretor dos correios, enchendo-o de louvores. Mesmo no pino do verão, o França andava sempre vestido com quanto fato possuía, acrescentando a isso tudo, no inverno, um capote com certeza maior do que a arca de Noé. Tendo a seu cargo, todos os anos, o segurar o S. Jorge na procissão do «Corpus Christi», fazia nisso imensa gala e apresentava-se impávido aos olhos de toda a gente que via lá ele alto da sua magnanimidade. Chegava a levar a sua autoridade ao ponto de dizer ao comandante da força quando se deviam dar as descargas! Homem robusto, que numa voz grossa, mascando o seu charuto, metia palão de meia noite, depois de ter desempenhado o glorioso papel de lente da faculdade das tretas pelo Centenário da Sebenta, jamais largou a chapa que então mandara fazer para ornamentar o bonnet. Dias depois da sua morte, lembro-me de ter visto o seu perfil em O Cauterio, que dizia pouco mais ou menos isto:

 

Da Lusa-Atenas o mais popular,

E também, decerto, o mais intrujão:

Na boca sempre um charuto a chupar,

Olhando todos com ar refilão.

 

Vários empregos tem, duvidosos,

O nosso herói, este velho traquinas;

E se non hay - negócios rendosos

O ... coça d'encontro às esquinas.

 

É alto bastante, obeso e pançudo,

E só tem esse defeito massudo

De pregar mentiras, blagues e petas. 

 

Que mais direi? É um pobre coitado,

E ele próprio se chama e é chamado,

O Rolié ou o França das Tretas.

 

Acima de tudo, o França era um homem fiel, muito honrado e não foram poucas as carteiras e os valores importantes que ele encontrou perdidos e fez chegar às mãos dos seus donos. Ouvi dizer que esta palavra Rolié, que adotava como nome, teve a sua origem na porta do Hotel dos caminhos de ferro quando um francês, ao subir para a sua carruagem, pôs nas mãos do corretor urnas moedas de prata para o França que lhe tinha tratado da bagagem, com o roulier (carroceiro). Apanhada esta palavra no ar, ei-la na boca dos garotos para designar o França e daí a resolução que tomou em a adotar como sobrenome…

O Quatorze.jpg

 O Quatorze

Disse eu há pouco que o França era um homem honrado, mas já não direi o mesmo do célebre intrujão que dava pelo nome de Quatorze. Muito alto, magro, ora aparecia de chapéu de abas largas, de grosso bengalão, ora de carapuça, de facha preta à cinta, de calças justas e esguias, a fazer-se amigo íntimo e conhecido velho de quantos bacharéis formados pressentia de visita a Coimbra, sempre importuno, à mira de uns vinténs, capaz de, por dez réis de mel coado, prestar-se a qualquer patifaria. Outras vezes apresentava-se carregando um cesto de verga repleto de ananases, cocos e bananas, que vendia lançando o pregão em voz forte e retumbante: ananás! ananás! coco! coco! Ah, rica bánâna da ilha da Mádéra!... 

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 09:16

Terça-feira, 19.06.18

Coimbra: A igreja de Santiago de Eiras

Às portas da cidade de Coimbra e da Bairrada se situa a antiga vila de Eiras.

Foi concelho extinto em 1836, com sua câmara, vereadores, juiz, escrivães, meirinhos e todas as usuais burocracias. Nos últimos tempos Eiras cresceu quase sem medida, encontrando-se praticamente ligada a Coimbra. Mas o seu centro histórico mantém carácter aprazível, detendo ainda um apreciável número de casas antigas, por vezes nem sempre bem intervencionadas, com trechos sugestivos e encantadores.

O largo principal é de fazer inveja a algumas cidades.

Igreja Eiras 3.JPG

Igreja de Santiago de Eiras

 Para ele voltam a fachada a igreja matriz, a fonte e a capela do Espírito Santo. Merece especial destaque o chafariz, ao lado da igreja, composição de grande efeito, mandado fazer por D. João V, em 1743. Lá se podem ver as armas do reino e o selo da vila, envolvidos no corpo central, rematado por pirâmides.

Eiras fonte.JPG

 Fonte de Eiras

A igreja paroquial domina o largo, com a sua fachada monumental de duas torres, tendo, do lado oposto, a não menos interessante capela do Sacramento ou do Espírito Santo. É dedicada ao apóstolo Sant’Iago. Sobre a porta principal, entre o frontão curvo interrompido, vêem-se as armas reais, tendo, no escudete das quinas, gravada a legenda Vivat Rex Ioseph, que elucida a época da construção.

Trata-se de um edifício edificado na segunda metade do século XVIII para substituir a antiga igreja que, em 1721, ainda se encontrava fora da povoação e em estado de avançada degradação, no sítio hoje chamado Passal. O antigo templo remontava aos alvores da nacionalidade, pois fora mandado edificar por D. Afonso Henriques, sendo bispo de Coimbra D. Vermudo. Em 1306 D. Dinis concedeu ao mosteiro de Celas a vila de Eiras, por troca com a terça parte da vila de Aveiro, que as monjas detinham por doação da sua fundadora, Santa Sancha. Assim ficaram as monjas de Celas como donatárias da igreja e do território, cabendo-lhes a jurisdição cível e a apresentação do pároco.

Em dezembro de 1728 o cabido autorizou a demolição da velha igreja e construção da atual. Porém, o processo arrastou-se durante muitos anos, com incidentes vários que se podem ver na excelente monografia de João Pinho. Só por meados do século se teria iniciado a construção, com planta delineada por Gaspar Ferreira, virtuoso arquiteto e entalhador, com muitas obras espalhadas pela região e Beiras. A obra de pedraria foi arrematada por Manuel Francisco, de lugar de Sá (Esgueira). Em 13 de abril de 1758 foi benzida a parte da igreja que já estava capaz. O edifício deveria estar pronto no essencial em 1767, pois, em 19 de outubro desse ano, o carpinteiro Manuel Gonçalves contratou fazer toda a obra interior: retábulo da capela-mor, dois retábulos colaterais, dois retábulos no corpo da igreja, conforme planta e risco, com muita probabilidade também de Gaspar Ferreira, e ainda cinco portas, um púlpito e grades da comunhão.

Igreja Eiras 1.JPG

 Igreja de Santiago de Eiras interior

 Manuel Gonçalves não era um banal carpinteiro, pois sabemos da sua intervenção na feitura de outros retábulos, com riscos de Gaspar Ferreira e Domingos Moreira para as igrejas de Taveiro, S. Pedro de Coimbra e mosteiro de Lorvão. Era natural de Adães (Barcelos) e morador na rua da Trindade, em Coimbra.

No vasto espaço da nave única e luminosa desta igreja impressiona o conjunto dos retábulos marmoreados, numa unidade estilística deveras invulgar. De quatro colunas o principal e duas os restantes, todas de fuste liso e belos capitéis compósitos. Os remates, de movimentados frontões interrompidos, contrastam com as linhas calmas e clássicas dos corpos inferiores. Decoram-se com glórias solares, mas, no retábulo-mor, esta zona é obviamente enriquecida com figuras de anjos sentados, segurando palmas, e outros elementos. Rasga-se nele a boca da tribuna, outrora preenchida por uma tela com o martírio de Sant’Iago e agora exibindo o trono eucarístico de cinco degraus curvos.

Igreja Eiras 2.JPG

 Igreja de Santiago de Eiras imagem de S. Tiago

 Ainda se conservam algumas imagens, vindas da igreja antiga. De salientar é o Sant’Iago, no altar colateral esquerdo, boa e expressiva obra da renascença coimbrã.

O estilo retabular do rococó coimbrão, gerado a partir do retábulo de Santa Cruz, tem em Eiras um cunho deveras interessante, a merecer cuidados na sua preservação, porque expressão estética de uma época em que os artistas de Coimbra deixaram a sua marca em todo o centro do país.

Nelson Correia Borges

 

In: Correio de Coimbra, n.º 4695, de 07 Junho 2018, p. 8.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:12

Quinta-feira, 14.06.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 8

 

O Horta.jpg

 O Horta

 O Horta, esse então, ás vezes pouco amigo da limpeza nos seus feitos e um pouco, para não dizer bastante. desbragado nos seus ditos, não deixava de ser um velho endiabrado cujas partidas tinham alguma coisa de original e de espirituoso.

De lunetas encavaladas quase na ponta do nariz, levado pela necessidade que, segundo ouço dizer, é a mãe de todos os vícios, bebia azeite por pregar a sua peça. Só se não pudesse! Mas para isso, para chegar a essa conclusão de não poder, era preciso que tivesse já esgotado todos os recursos da estratégia, e tal facto seria quase inacreditável! Uma vez, ao entrar numa padaria que havia nesse tempo e parece-me que ainda existe no Arco de Almedina, o Horta, olhando de relance para o forno, deparou com uma caçoila vidrada coberta com um papel, de onde se exalava um cheiro delicioso a certos temperos que lhe haviam de ser muito gratos ao paladar... Desatou a correr para casa á procura de uma caçoila parecida. Encheu-a de pedras, pôs-lhe um papel por cima, tal qual como na outra que vira, e ei-lo que volta à padaria a pedir com muito empenho para lha colocarem também no forno. Prometendo voltar a uma certa hora, algum tempo antes da hora em que sabia que o saboroso pitéu seria retirado, foi dar o seu passeio para passar tempo, até que, voltando novamente ao forno, embarrilou o moço da padaria dizendo-lhe ser a outra caçoila a sua… E pernas para que te quero... Lá foi ele até casa numa correria louca saborear um belo pastelão de carne que o acaso lhe oferecera. E o verdadeiro dono do acepipe ao vir buscar a caçoila apenas a encontrou cheia de pedras ...

Como esta, contam-se dele inúmeras proezas que o fizeram tomar por doido, sendo, dentro em pouco, internado no hospital Conde Ferreira, pois que ninguém o podia suportar.

Regressando, mais tarde, a Coimbra, pouco tempo demorou a reeditar as cenas doutrora e é assim que ele aparece, numa tarde de inverno, em Santa Clara, ao fim da ponte, a meter num bolso das calças certa encomenda que encontrou à beira do caminho.

Ele que o fez é porque alguma coisa ruminava, é porque lá tinha as suas razões para o fazer... Terminada essa operação, limpando as mãos a uns arbustos que ali estavam perto, induziu um rapazito que passava a que fosse dizer ao guarda-barreira que ele, Horta levava contrabando no bolso das calças. E o rapazito lá foi cumprir a sua missão enquanto sua excelência a passo largo, muito sereno, marchava olimpicamente a caminho da cidade.

Mal tinha tempo de pôr o pé fora da ponte quando o guarda se lhe pôs na frente intimando-o com uma voz de trovão:

– Deixe ver o que leva aí.

– Não deixo, diz o Horta, fingindo-se muito comprometido.

– Deixe ver, já lhe disse.

– Não deixo.

– Ah, não deixa?!

E assim estiveram, neste dize tu, direi eu, até que o guarda resolveu levá-lo à presença da autoridade superior. Foi dito e feito.

Como a autoridade não era para festas, com uns modos façanhudos, arrumou-lhe logo esta à queima roupa:

– Mostre já o que leva aí.

– Não mostro, replicou o Horta com teimosia.

– Mostre, mando eu.

– Não mostro.

– Ai, não mostra? Eu já lhe vou dizer se mostra ou não!

E, dizendo isto, enfia-lhe a mão pelo bolso das calças para tirar de lá o contrabando… Faça-se agora uma pequena ideia da cara com que ficou a autoridade e principalmente como ficaram os dedos!... O Horta era um vivo diabo!

 

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 09:53

Terça-feira, 12.06.18

Coimbra: Batalhões Académicos

O primeiro batalhão académico a ser formado na Universidade organiza-se em 1644... Invocava-se a defesa do País, após os acontecimentos que culminaram na Restauração da Independência e na aclamação de D. João IV, em 1640.

A lealdade da Academia à causa pátria e a sua participação no esforço de conservação da autonomia de Portugal veio posteriormente a encontrar novas oportunidades de se ver confirmada.

No final de 1807, com efeito, os exércitos napoleónicos, comandados por Junot, invadem o território português.

Batalhões académicos.jpg

 Imagem comemorativa da conquista do forte da Figueira da Foz

 A proximidade do teatro de guerra relativamente á cidade de Coimbra, leva a que a Universidade encerre as suas portas em 27 de Julho de 1808. Alguns estudantes universitários aderem prontamente à iniciativa de libertar o forte da Figueira da Foz, ocupado por militares franceses... retomam de facto o forte de S-ta Catarina, na Foz do Mondego, em 26 de Junho de 1808, sob o comando do 1.º sargento de artilharia e aluno da Universidade, Bernardo António Zagalo.

A escassez de munições necessárias à defesa da cidade de Coimbra é colmatada pelo fabrico artesanal de projeteis no Laboratório Químico da Universidade... Organiza-se então na Universidade um Corpo Militar constituído por lentes, opositores, doutores e professores e um outro de Voluntários Académicos, que adotaram como legenda, ostentada no emblema, “Vencer ou Morrer por D. João VI”.

 

Batalhões Académicos medalhas.jpg

 

Medalha comemorativa dos Voluntários Académicos de 1808

 

Como reconhecimento do nobre desempenho da sua missão, o Corpo de Voluntários Académicos foi autorizado ... 22 de Julho de 1808, a usar a insígnia representando os símbolos da Universidade aureolados pela legenda “Pro Fide, Pro Patria, Pro Rege”.

Cumpridas as missões realizadas em Leiria, Tomar e Lisboa, regressaram os bravos combatentes, vitoriosamente, a Coimbra, onde, no final de Setembro, a cidade e a Universidade os festejaram e cumularam de louvores.

Expulsas as tropas francesas do país, logo no ano seguinte, perante a eminência d segunda invasão... é ordenado novo alistamento de lentes e estudantes, pela Carta Régia de 2 de Janeiro de 1809... o encerramento da Universidade que havia reaberto as suas portas a 1 de Novembro de 1808. Em Setembro do ano seguinte, retomam-se as aulas... é concedido “perdão de ato” aos estudantes que se alistaram.

... Ao terminar o ano de 1810, a terceira invasão francesa... vem justificar nova mobilização armada de universitários que, pouco tempo volvido, após a retirada das tropas invasoras, perde razão de ser, sendo o Corpo Militar dissolvido, por Aviso de 15 de Abril de 1811.

... A revolta liberal do Porto em 16 de Maio de 1828, motivou o alistamento de um corpo de voluntários académicos cuja atuação não foi bem sucedida, acabando por provocar o abandono da Universidade e mesmo a emigração de elementos seus. Do mesmo modo a revolução liberal de 1834 veio a afastar aquele que haviam aderido à causa de D. Miguel.

Foi um momento conturbado este, em que a Universidade se viu transformada em teatro de lutas intestinas, dividindo professores e alunos. Em 1846-47, organizou-se novamente o Batalhão Académico que incluiu também alunos do Liceu.

... Numa última formação, interveio o Batalhão Académico nos episódios de confrontação armada, em 1919, aquando da tentativa de restauração do regime monárquico, conhecida por “Monarquia do Norte”.

 Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 305-307

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:32

Quinta-feira, 07.06.18

Coimbra: Catedral Histórica, um monumento a revisitar 2

Catedral Histórica de Coimbra

A Catedral mais Portuguesa de Portugal (Século XII)

GUIA PARA VISITA À CATEDRAL E CLAUSTRO

 

Sé Velha, planta.jpg

 

 Planta da Catedral e do Claustro Gótico

  • CLAUSTRO

De transição do Românico para o Gótico, levantado entre 1218-1223 (reinado de D. Afonso 11). A sua construção estava prevista no testamento de D. Afonso Henriques.

 O Claustro da Sé Velha de Coimbra começou a ser construído em 1218, sobretudo graças a legados pios deixados pelos 3 primeiros reis de Portugal (D. Afonso Henriques, D. Sancho I e D. Afonso II). Será, no entanto, D. Afonso II quem dará um maior incentivo à construção do Claustro da Sé, até porque pretendia que os restos mortais do Chanceler Julião Pais (autor do primeiro código de leis portuguesas) aí fossem colocados. No claustro da Sé funcionou também a primeira Escola Catedralícia portuguesa (fundada em 1086, por intermédio do bispo D. Paterno). Seria ainda no claustro da Sé que ficariam alojados (a partir do século XVI) os restos mortais de D. Sesnando Davides, conquistador da cidade, em 1064, e um dos fundadores do Cabido de Coimbra em 1080. As naves do claustro possuem vários arcos geminados de volta perfeita (românicos) encimados por um arco envolvente de ponta quebrada (góticos). Várias rosáceas, todas elas diferentes, marcam uma equilibrada transição de um estilo para o outro. Na parte superior do Claustro, já demolida, existiu um importante scriptorium, onde trabalhavam os monges copistas, bem como uma rica biblioteca.

 

 

Sé Velha claustro.jpg

 Sé Velha, claustro

 

18- Retábulo da Natividade (c. 1580). Oficina de João de Ruão.

19- Capela de São Miguel, única do claustro de arquitectura românica. Local escolhido para alojar os restos mortais de Julião Pais e da sua família.

20- Capela de Santa Maria. Utilizada como Sala Capitular (séc. XIII e XIV). Primeiro espaço onde funcionou a Misericórdia de Coimbra. Ao centro um cruzeiro em pedra policromada do século XIV.

21- Capela de São Nicolau. Arca tumular de D. Afonso de Castelo Branco, grande mecenas das artes e da cultura coirnbrãs, e Vice-Rei de Portugal durante o reinado de Filipe II.

Sé Velha tumulo de D. Sesnando.png

 Arca tumular de D. Sesnando

 

Ao lado, túmulo de D. Sesnando, conquistador e primeiro governador cristão de Coimbra. Grande diplomata responsável pela coexistência pacífica das comunidades muçulmanas, cristãs e judaicas da cidade.

 

EXTERIOR DA CATEDRAL

«Porta Especiosa» e «Porta de Santa Clara» são renascentistas; inscrição Árabe; Oliveira Milenar.

 

22- Expressão em árabe: "Um dia, a minha mão perecerá mas fica a marca da minha amargura". Característica única da catedral de Coimbra face a outras catedrais europeias.

23- Oliveira Milenar. Símbolo de Paz e Harmonia.

 

Comissão Fabriqueira da Sé Velha de Coimbra. Guia para visita à Catedral e Claustro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:19

Terça-feira, 05.06.18

Coimbra: Catedral Histórica, um monumento a revisitar 1

Há dias fui mostrar a Sé Velha ao meu neto Alexandre.

À entrada foi-me disponibilizado um excelente guia para uma visita, editado pela Comissão Fabriqueira da Sé Velha de Coimbra que, pelo seu interesse, aqui se reproduz integralmente. Isto, no propósito de lembrar a todos a importância de, quando em vez, revisitar os locais onde se encontram as raízes de Coimbra.

Catedral Histórica de Coimbra

A Catedral mais Portuguesa de Portugal (Século XII)

GUIA PARA VISITA À CATEDRAL E CLAUSTRO 

Sé Velha antes do restauro.jpg

 Sé Velha antes da primeira intervenção de restauro

A Sé Velha de Coimbra foi edificada no século XII (c. 1139-1184), durante o reinado de D. Afonso Henriques. A fase construtiva mais acelerada aconteceu no bispado de D. Miguel Salomão (1162-1176), prelado que se assumiu como um importante mecenas. No local onde atualmente se ergue existiu, desde o século IX, um outro templo com a invocação “Mariae Virginis” (conserva-se a sua pedra fundacional no interior da Sé Velha). A cidade de Coimbra foi definitivamente conquistada aos muçulmanos, a 9 de julho de 1064, por intermédio de Fernando Magno (Rei de Leão e Castela) e de Sesnando Davides (moçárabe natural da região de Tentúgal); este último tornou-se o primeiro Governador cristão da cidade.

Dedicada a Santa Maria de Coimbra, a construção da Sé Velha deve ser entendida dentro de uma estratégia de afirmação da autonomia e da independência nacional. Coimbra, «cidade Real», onde estava instalada a Corte de D. Afonso Henriques, via-se assim dotada de uma catedral digníssima, que honrava não só a cidade como também a primeira geração de portugueses que então se afirmava.

De estilo românico, uma verdadeira «Catedral Fortaleza», erguida com técnicas construtivas de elevada execução tanto na forma como nos materiais, conhecem-se apenas o nome de 3 dos seus mestres pedreiros: Roberto (de Clairmont), Bernardo e Soeiro. Coimbra, capital do novo reino, ganhava um baluarte de fé capaz de ombrear com as melhores catedrais europeias.

 

EVANGELIZAR PELAS FORMAS

PERCORRENDO NOVE SÉCULOS DE HISTÓRIA

 

Sé Velha, planta.jpg

 Planta da Catedral e do Claustro Gótico

 

  • INTERIOR DA CATEDRAL

Planta em cruz latina; 3 naves; 12 pilares; 5 tramos; cruzeiro; torre lanterna e transepto. 3 capelas: principal com retábulo Gótico Flamejante dedicado à Assunção da Virgem; capela de São Pedro (esquerda); capela do Santíssimo Sacramento (direita). Trifório (galerias superiores), característico das igrejas de peregrinação do Caminho de Santiago.

 

1- Conchas Tridácmas, originárias do Oceano Índico (Indonésia). Oferta do Governador de Timor Loro-Sae em 1930.

2- Azulejo "mudéjar". Adquirido em Sevilha (bairro de Triana) no princípio do século XVI por Olivier de Gand sob mecenato do Bispo D. Jorge de Almeida. Imagem barroca de Nossa Senhora do Rosário. Século XVIII.

3- Túmulo do bispo D. Vasco Rodrigues (século XIV). Antigo bispo da Guarda e de Coimbra.

4- Interior da «Porta Especiosa». Autoria de João de Ruão. No exterior é possível contemplar este portal renascentista com o seu belíssimo medalhão da Virgem com o Menino. A sua denominação deriva da antífona medieval "Speciosa Maria est" que se
cantava nas procissões. O tema principal é a Anunciação da Virgem.

5- Pinturas barrocas de Santa Úrsula e de Santo António. Final do século XVII, autor desconhecido.

6- Túmulo da princesa bizantina Vataça Lascaris. Dama de Corte da Rainha Santa Isabel. Túmulo apresenta várias águias bicéfalas (símbolo do seu sangue real). Este túmulo (século XIV) é da autoria de Mestre Pêro, também ele responsável pela construção do túmulo da Rainha Santa Isabel.

7- Túmulo do bispo D. Egas Fafes (século XIII). Único bispo de Coirnbra nomeado arcebispo de Santiago de Compostela.

8- Altar de Santa Clara (final do século XVI). Resta apenas a imagem de São Cristóvão

com o Menino Jesus ao ombro.

9- Capela de São Pedro. Retábulo renascentista da autoria de Nicolau de Chanterene. Ao centro (em cima) representação da cena Quo Vadis. Na parte inferior do retábulo (ao centro) o momento da morte de São Pedro, crucificado de cabeça para baixo. Aos pés do retábulo sepultura em campa rasa do bispo D. Jorge de Almeida. Para além de ser o bispo que na História de Portugal mais tempo assumiu uma diocese (1483-1543) foi também o primeiro Inquisidor-mor do reino.

10- Retábulo gótico flamejante (inícios do século XVI). Concebido na Flandres por Olivier de Gand e Jean D'Ypres. Motivo central: Assunção da Virgem Maria. O mecenas da obra foi o bispo D. Jorge de Almeida e o seu escudo de armas encontra-se representado por 3 vezes.

11- Pedra fundacional do templo dedicado a Santa Maria que anteriormente existiu neste local e foi, supostamente, destruído por um ataque árabe em 1117. Pode ler-se nela a inscrição Mariae Virginis.

12- Capela do Santíssimo Sacramento, da autoria de João de Ruão. Datada de 1566.  Representação de Cristo ao centro, em concílio, a dialogar com os 12 apóstolos presentes na Última Ceia. Em baixo, à direita, os 4 evangelistas. No lado oposto, a Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo acompanhada por São José. O mecenas desta magnífica capela foi o bispo D. João Soares que esteve presente no Concílio de Trento.

13- Pia Baptismal (séc. XVI). Concebida em pedra de Ançã por Diogo Pires-o-Moço (artista régio). Possui 3 motivos centrais: o Baptismo de Cristo no rio Jordão; Moisés, ainda criança, a ser salvo nas margens do rio Nilo; e o escudo de armas de D. Jorge de Almeida.

14-Túmulo com jacente do bispo D. Pedro Martins.(final do século XIII).

15- Pintura barroca da Rainha Santa Isabel com a representação do Milagre das Rosas. Natural do reino de Aragão tornou-se Rainha de Portugal devido ao seu casamento com D. Dinis. Foi canonizada em 1625. Em baixo, arca tumular de D. Tibúrcio (século XIII), o primeiro bispo a ser sepultado no interior da Sé de Coimbra.

16- Pintura de São Sebastião (final séc. XVII). Em baixo, arca tumular de D. Estêvão Anes Brochado (séc. XIV).

17- Escultura barroca da Imaculada Conceição. Da autoria de Frei Cipriano da Cruz (séc. XVIII). Em baixo, réplica do documento que instituiu a primeira missa celebrada em Portugal, em 1320, dedicada à Imaculada. Esta missa decorreu na Catedral de Santa Maria de Coimbra (Sé Velha).

Comissão Fabriqueira da Sé Velha de Coimbra. Guia para a visita à Catedral e Claustro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 21:55

Quinta-feira, 31.05.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 7


O Mercandó.jpg

 O Mercandó

 O Mercandó, de cabeleira, um bom ratão, o velho porteiro do palácio dos Grilos, que faz lembrar um pouco o Chitó-ó-Chito, que divertia o público executando palhaçadas nas ruas e que linha também umas barbas esplêndidas e um rosto expressivo. 

O Chitó-ó-Chito (Cliché Rodrigues da Silva).jpg

 O Chitó-ó-Chito (Cliché de Rodrigues da Silva)

 A Feliciana Pereira, uma velhota revelha, com umas certas pretensões de asseio; tinha sido criada do grande liberal de Ceira Victorio Telles, cuja cabeça se viu, durante algum tempo, espetada num pinheiro, a uma esquina do largo de Sansão, devido ás lutas apaixonadas e renhidas do seu tempo.


A Feliciana Pereira.jpg

 A Feliciana Pereira

 Talvez por esse motivo liberal ferranha. Não tinha o menor pejo em correr a pau a garotada das ruas que lhe sabia da pecha e, ainda há bem pouco tempo, lhe atormentavam os ouvidos a toda a hora dando vivas ao senhor D. Miguel, o que para ela equivalia à mordedura venenosa e súbita de uma víbora.

Obteriam dela tudo quanto quisessem…, mas nada de ofender os seus
ideais políticos! Credo! Virgem Santíssima! Lá isso não!
 


A Maria do Gato Negro (Retrato a óleo Eduardo Mac

 A Maria do Gato Negro (Retrato a óleo de Eduardo Macedo)

 A Maria do Gato Negro era uma outra velha que viveu em Coimbra e foi um dos tipos mais interessantes da sua época. Já lá vai isto há um bom par de anos! Vivia num casinhoto dentro da torre de Santa Cruz e, como numa noite lhe tivessem morto um lindo gato negro que muito estimava, foi tal a raiva que se apoderou dela que, jurando vingar-se, pelava-se toda por andar altas horas da noite percorrendo as vielas mais imundas á caça dos gatos. Bichinho que ela apanhasse a jeito tanta paulada lhe assentava no lombo que nem a alma se lhe aproveitava!... Os estudantes de então, conhecedores da mania dessa pobre mulher, para se divertirem á sua custa, encomendavam-lhe gatos mortos, que ela de muito bom grado lá ia distribuir pelas repúblicas, a troco de uns míseros vinténs que mal lhe chegavam para não morrer de fome ...


O Senhorinha  (Retrato a óleo Eduardo Macedo).jpg

 O Senhorinha (Retrato a óleo de Eduardo Macedo)

 O Senhorinha, assim chamado pelos seus modos efeminados, era um zelador municipal que ia levar a sua cara metade com quem casara… por amor… a casa dos estudantes, sobraçando sempre o cavaquinho. O amor para ele não valia nada sem um bom acompanhamento...

 Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:12

Terça-feira, 29.05.18

Coimbra: O trajo académico

É um hábito comprido de panno preto, sem mangas, atado atraz com cordões e guarnecido na frente com duas ordens de pequenos botões bem juntos, que começam no pescoço e descem até aos pés; eis a primeira parte do vestido. 

Estudante UniversidadeCoimbra séc. XVIII.png

Estudante da Universidade de Coimbra, séc. XVIII

 Por cima d’este se usa um outro preto e comprido, com mangas largas, precisamente como o dos pastores protestantes. Cada um traz na mão um pequeno saco de panno preto, onde, à falta de algibeiras, se acham o lenço, a caixa de rapé e outros objectos semelhantes. Os estudantes vão sempre com a cabeça descoberta, mesmo durante os maiores calores de verão:- Eis porque as ruas estão sempre cheias de homens que oferecem um aspecto triste e monacal”.

Desta forma descrevia Link o estudante universitário de Coimbra, retratando-o pelas impressões que lhe deixou a estada na cidade de Coimbra, e que relata na obra «Voyage en Portugal depuis 1797 jusqu’en 1799».

Era este o trajo académico do séc. XVIII, bem diferente do modelo utilizado no século anterior.

Trajo académico,  João Abel Manta.JPG

 Trajo académico, painéis de João Abel Manta, 1958

 A disciplina académica impunha ao estudante regras de comportamento e decoro no trajar, vedando-lhe o uso de certos adereços e cores, procurando uma uniformidade do vestuário usado que evitasse revelar as distinções classistas e um dispêndio desnecessário.

... As referências à indumentária são mais pormenorizadas nos Estatutos manuelinos (ca. 1503) onde, no parágrafo ”Da honestidade dos vestidos” se proíbem os pelotes, capuzes, barretes, gibões de cor vermelha ou “verdegaio” e os cintos lavrados a ouro.

Provavelmente estas diretrizes eram por vezes infringidas e daí a emissão de certos diplomas régios, repondo ou especificando melhor as recomendações sobre o trajo académico, de que é exemplo a Carta de 14 de janeiro de 1539 de D. João III. Nela se enumeram os adereços proibidos: barras e debruns, pano frisado, golpes e entretalhos nas calças, lavor branco ou de cores diversas em camisas, lenços, etc. O comprimento de pelotes e aljubetas seria abaixo do joelho e sobre todo o vestuário apenas se podiam usar lobas ou mantéus sem capelo.

... Em 1863 pensava-se já na alteração deste vestuário... “Acerca de acabar-se com as batinas, fácil seria fazelo, se fora substituil-as. Ja se lhes fez uã modificação, e há tempo p.ª meditar até ao fim do anno lectivo”.

...em Edital de 21 de Setembro de 1907, em que apenas se consente o uso de gravata preta “não podendo ostentar coletes d’outra côr nem barrete algum além do gorro”.

Em Março desse ano era proposta... em Conselho de Decanos, a sua completa abolição pois o mesmo não era sequer usado a rigor.

... Só em 1910 o seu uso se tornará facultativo, por Decreto de 24 de Outubro.

 

Arquivo da Universidade de Coimbra. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. Vol XI e XII.1989/1992. Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, pg. 147-149

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 22:17

Segunda-feira, 28.05.18

Coimbra: Museu da Ciência da Universidade de Coimbra

Os caloiros que iniciaram a licenciatura em Ciências Físico-Químicas em 1963, reuniram-se ontem e mais uma vez, desta feita em Coimbra. Do programa constou missa e a recordação da bênção das pastas e ainda uma visita ao Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, num retorno aos locais onde tiveram das suas primeiras aulas.

Para esta visita – que se recomenda a quem ainda a não fez – foi elaborado o pequeno guião que aqui se divulga.

 Breve síntese histórica

O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra ocupa atualmente dois edifícios: o Laboratorio Chimico e o Colégio de Jesus. Ambos pertenceram ao Colégio dos Padres Jesuítas, também denominados Apóstolos (o nome perpetua-se na Couraça) e ao Colégio das Artes. A primeira pedra do Colégio dos Jesuítas foi lançada no dia 14 de abril de 1547 e a igreja, riscada pelo arquiteto Baltazar Álvares, membro da Companhia; a sua construção iniciou-se em 1598 e prolongou-se durante um século. 

Colégio de Jesus desenho.TIFColégio de Jesus e Colégio das Artes em 1732 (gravura de Carlo Grandi)

 O Colégio das Artes, entretanto criado por D. João III, ocupou, num primeiro momento, espaços pertencentes a Santa Cruz e foi entregue aos Jesuítas no ano de 1555, ainda antes do edifício (que se ergue quase paredes-meias com o dos Apóstolos e fora iniciado em 1568) estar concluído.

Os imóveis encontravam-se ligados por dois pequenos corpos de passadiço, perpendiculares à fachada oriental. Um fazia comunicar o Colégio de Jesus com o Colégio das Artes e o outro ligava o complexo colegial ao edifício onde, graças aos trabalhos arqueológicos recentemente efetuados, se ficou a saber que estava instalada a sala do refeitório bem como, provavelmente, as cozinhas e a ucharia, ou seja, estamos a referir-nos ao atual Laboratório Chimico.

Os Jesuítas de Coimbra gozaram por pouco tempo da sua igreja e das restantes estruturas, porque, em 1759, foram expulsos do país, o colégio extinto e os bens sequestrados. Os edifícios ficaram abandonados durante treze anos.

Aquando da Reforma Pombalina da Universidade, iniciada em 1772, parte do complexo passou para a posse da Universidade e a igreja, com mais alguns anexos, foram entregues ao Cabido diocesano.

O marquês de Pombal, ao implementar a reforma universitária que, obviamente, necessitava de espaços adequados, apoderou-se de uma parte considerável do Colégio de Jesus. Contudo, ciente da importância do ensino experimental, estava já na posse de planos trazidos de Viena de Áustria por Joseph Francisco Leal destinados à construção do Laboratorio Chimico; no entanto, este projeto não saiu do papel, tendo-o substituído um outro desenhado na Casa do Risco, sob orientação do engenheiro militar tenente-coronel Guilherme Elsden, que se salientou como diretor das Obras da Universidade de Coimbra. 


Laboratório Chimico.jpgFachada do Laboratorio Chimico, desenho de G. Elsden e R. F. de Almeida, 1777 in Franco, M.S. “Riscos das Obras da Universidade de Coimbra”, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra, 1983.

Trata-se de um edifício de grande qualidade, muito elegante e onde se destaca o frontão central, em corpo avançado sobre colunas. No entanto, o projeto original do coroamento do edifício foi alterado e só lhe foi aposto no século XIX.

Guilherme Elsden foi também o responsável pela adaptação dos edifícios preexistentes destinados a acolherem os Gabinetes de História Natural e de Física Experimental.

A estrutura vira para o Largo do Marquês de Pombal e mostra uma longa fachada de 110 metros de comprimento, de nobres linhas protoneoclássicas, onde se salienta o corpo central, coroado por frontão triangular preenchido por um belo relevo da autoria de Joaquim Machado de Castro, representando a Natureza e cinzelado pelo escultor António Machado. Nos gradeamentos das ventanas pode observar-se um pequeno medalhão com o busto do marquês de Pombal. 

Laboratório de Fisica.jpg

 Frontão alegórico

No interior destaca-se a escadaria de aparato e os alizares de azulejo.

Refira-se ainda que nas alas norte e poente do Colégio funcionaram, inicialmente, os Hospitais da Universidade de Coimbra.

Os objetivos pedagógicos que então se pretendiam atingir encontram-se bem expressos nos Estatutos Pombalinos, datados de 1772, onde se lê que “os estudantes não somente devem ver executar as experiências, com que se demonstram as verdades até ao presente, conhecidas … mas também adquirir o hábito de as fazer com sagacidade e destreza, que se requer nos Exploradores da Natureza”.

A adaptação dos dois imóveis a Museu da Ciência ocorreu nos primeiros anos do presente século, tendo a primeira fase sido inaugurada em 2006 sob projeto de João Mendes Ribeiro, Carlos Antunes e Desirée Pedro. Trabalhos que visaram, essencialmente, reconduzir os espaços ao seu aspeto inicial.

Está classificado, desde 2016, como Sítio Histórico pela Sociedade Europeia de Física.

Recordamos que foi nestes espaços, nos idos dos anos 60, que os caloiros que então eramos, tiveram as primeiras aulas da licenciatura em Ciências Físico-química.

 

A nossa visita

A duração prevista é de cerca de uma hora segundo o seguinte percurso:  

- Gabinete de Física

Foi equipado com seis centenas de máquinas que representavam o que de melhor e mais moderno então existia no campo da investigação científica. Cada uma delas tinha uma conceção que a tornava adequada a um dos capítulos do programa descrito no curso redigido por Dalla Bella.

O Gabinete de Física de Coimbra, mostra bem a profunda influência que as ideias e os instrumentos provenientes das mais diversas zonas da Europa tiveram em Portugal no século das luzes. O que resta dos instrumentos pertencentes ao Gabinete do século XVIII considera-se, atualmente, verdadeiras obras de arte, valorizadas pela riqueza dos materiais e pela perfeição da execução. Ocupam ainda as salas e o mobiliário primitivo, permanecendo no seu espaço de origem e mantendo as suas características específicas desde o tempo da fundação; constituem uma coleção de instrumentos científicos e uma representação notável da evolução da Física nos Séculos XVIII e XIX.

Visitamos o anfiteatro e as salas Figueiredo Freire (séc. XIX) e Dalla Bella (séc. XVIII).

- Gabinete de História Natural

Por força dos Estatutos Pombalinos da Universidade, datados de 1772, os professores da Faculdade de Filosofia deviam coordenar a recolha das espécies. O espólio assim obtido incorporou inicialmente a coleção privada de Vandelli e foi muito enriquecido com a Viagem Philosofica à Amazónia realizada por Alexandre Rodrigues Ferreira.

Os espécimes encontram-se organizados por regiões com recurso às técnicas de conservação e exposição então em uso. 

Visitamos as salas das viagens, do mar, de África, das avestruzes e de Portugal.

- Laboratório Chimico

Encontra patente neste edifício a exposição Segredos da luz e da matéria que trata este tema a partir dos objetos e instrumentos científicos das coleções da Universidade de Coimbra, uma das mais notáveis e raras da Europa. Um conjunto de experiências e módulos interativos possibilitam a observação de fenómenos, desde a experiência de decomposição da luz, de Newton, até à neurobiologia da visão.

 BORGES. Nelson Correia, Coimbra e região, Lisboa, Presença, 1987.

CORREIA, Vergílio; GONÇALVES, António Nogueira, Inventário artístico de Portugal. Cidade de Coimbra, Lisboa, Academia Nacional de Belas Artes, 1947.

DIAS, Pedro; GONÇALVES, António Nogueira, O património artístico da Universidade de Coimbra, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1991.

VASCONCELOS, António de, Escritos vários, vol. I, Coimbra, AUC, 1987 [Reedição].

http://www.museudaciencia.org/index.php?module=content&option=museum&action=project&mid=5

http://www.museudaciencia.org/index.php?module=content&option=museum

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:19

Quinta-feira, 24.05.18

Coimbra: Tipos de Coimbra 6

 

O Cego da Abrunheira e seu Moço (Des. Eduardo Mac

 O Cego da Abrunheira e seu Moço (Desenho de Eduardo Macedo)

 A galeria popular coimbrã é vasta, e se nela há vultos de somenos originalidade como lembrando, ao acaso, O Cego da Abrunheira, lugar próximo de Coimbra, que vinha, ás vezes, á cidade em companhia de um moço, ganhar a vida tocando e cantando alguns improvisos, verdadeiros disparates, a quem lhe desse alguma coisa, outros há que merecem um pouco de atenção, como, por exemplo, o Francisquinho Tanana, a Feliciana Pereira, a Maria do Gato Negro e tantos outros que passarei a citar. 

O Chiquinho Tanana  (Retrato a óleo Eduardo Maced

 O Chiquinho Tanana  (Retrato a óleo de Eduardo Macedo)

O célebre Francisquinho Tanana, um velhito magro como um junco, de pele encarquilhada, morava junto ao cemitério, lá no alto do Pio, e passava à tarde para o rio a buscar água num pote de barro que, à volta, trazia à cabeça com muito cuidado. A pobreza do seu vestuário era tão grande que chegava a ser imoral, pois tanto importava esse conjunto de andrajos como nada, o corpo andava quase todo à mostra, e uma vez vi-o eu nesse estado, a gritar como um possesso nuns gritos selvagens e a arrepelar-se todo porque os garotos, além de lhe chamarem Tanana, tinham-lhe feito partir o pote que levava à cabeça e que se desequilibrou ao atirar uma pedra, arma com que se defendia da rapaziada brejeira.

Quando se ouvissem uns gritos agudos, por vezes em falsete, acompanhados de um choro ridiculamente convulso, era certo e sabido que andava por perto o Francisquinho Tanana e toda a gente assomava às portas e ás janelas para ver esse espetáculo miserável da vida das ruas.

O José Maria Mudo.jpgO José Maria Mudo

Facto quase idêntico se dava com O Mudo, um calceteiro que a Câmara Municipal tinha admitido ao seu serviço. 

Esse não tinha nada com os garotos, só se importava com o pessoal que dirigia, mas, para lhe transmitir as suas ordens, para se fazer compreender, desfazia-se em gestos desesperados e gritos tão agudos que se ouviam com certeza sete léguas em redor. Olhar a fronte cheia de rugas do Francisquinho é trazer à ideia toda uma série de magníficas cabeças de estudo que se encontram nesses mendigos vadios perdidos pelas ruas de Coimbra.

O Rabino.jpg

 O Rabino

É ver o D. Sebastião, de que já falei, o Rabino, um belo tipo de judeu, de rosto bem vincado, de linhas bem definidas, que vivia de expedientes e tinha o seu dito espirituoso lá de vez em quando.

Monteiro, M. Typos de Coimbra, In Illustração Portugueza, 40, Série II, Lisboa, 1907.01.28.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:18


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Junho 2018

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930