Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A' Cerca de Coimbra


Quarta-feira, 01.09.21

Coimbra. Igreja de Nossa Senhora da Graça, visitas guiadas

Está a decorrer um conjunto de visitas guiadas à Igreja de Nossa Senhora da Graça que habitualmente está encerrada, só abrindo para as Celebrações Eucarísticas.

Estão ainda livres as seguintes datas: 3.ªs feiras, dias 7 e 14 de setembro; 5.ªs feiras, dias 2 e 9 de setembro; e sábados, dias 4 e 11 de setembro.

As visitas decorrem em dois horários, às 11h00 e às 15h00 e implicam a prévia inscrição para o telemóvel 924 448 266.

Igreja da Graça, visita 31-8-2021.jpg

Folheto de divulgação

Realizamos ontem esta visita. Foi tempo bem empregue, foi a possibilidade de melhor conhecer uma das igrejas da Rua da Sofia, todas elas tão pouco conhecidas.

Igreja da Graça, exterior.jpg

Igreja de Nossa Senhora da Graça, exterior

Igreja da Graça interior.jpg

Igreja de Nossa Senhora da Graça, interior

Trata-se de uma igreja bela na sua sobriedade e despojamento, enriquecido que por retábulos de belo efeito,

Igreja da Graça, capela mor.jpg

Igreja de Nossa Senhora da Graça, Capela-mor

Igereja da Graça. Sr.dos Passos. Fotografia Nelso

Igreja de Nossa Senhora da Graça, Retábulo do Senhor dos Passos. Foto Nelson Correia Borges

Quer, ainda, pela estatuária ali existente.

Igreja da Graça. NS da Graça.jpg

Imagem de Nossa Senhora da Graça

Igreja da Graça. S. Agostinho.jpg

Imagem de S. Agostinho

Uma visita que se recomenda, enriquecida pelo trabalho bem informado e simpático da Guia,

Rodrigues Costa

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 20:07

Quarta-feira, 25.08.21

Coimbra: Hino dos Quintanistas de Direito do ano de 1876 a 1877

O Arquivo da Universidade de Coimbra apresenta mensalmente um documento do seu vasto e riquíssimo espólio.

No Boletim do mês de agosto deu a conhecer a interessante folha do rosto do Hymno dos Quintanistas de Direito do anno de 1876 a 1877.

Hino.jpg

PT/AUC/COL/SG – Salema Garção (COL); Documentos Relativos a Coimbra (SR) - cota AUC – VI-3.ª-1-2-28

A imagem do documento é enriquecida com o seguinte texto explicativo:

A despedida dos alunos da Faculdade de Direito, no seu último ano de curso, 5.º ano, em 1876-1877, foi marcante no conjunto de todas as manifestações congéneres. Foi assinalada por uma récita de despedida e por um hino em cuja autoria participaram os dois condiscípulos, o elvense António Simões de Carvalho Barbas e o brasileiro, natural do Rio de Janeiro, António Cândido Gonçalves Crespo1.

Ambos os autores, um na colaboração musical e outro em colaboração poética, manifestavam já o que haveria de ser a sua vida futura, em que não singraram tanto pela carreira do direito, mas sim pela artes.

Efetivamente Simões de Carvalho que adotaria o nome de Carvalho Barbas, viria a ser professor da cadeira de Música que estava anexa à Capela da Universidade, lecionando a partir de 1888, sendo também o fundador, nesse ano, da Estudantina Académica.

Estudantina de Coimbra em 1888 (Photo Moderna. Por

Estudantina de Coimbra no ano de 1888 (Photo Moderna. Porto)

Quanto a Gonçalves Crespo, que já era casado com a poetisa Maria Amália Vaz de Carvalho, quando estudante, percorreria junto com sua mulher uma carreira literária e a animação do seu próprio salão literário, até falecer tísico, prematuramente, tendo apenas 37 anos, em 1883. Neste salão conviveram escritores ilustres como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, etc.

Muitas das récitas de finalistas2 tinham lugar no Teatro Académico que existia no local onde hoje se encontra a Biblioteca Geral e onde antes estivera edificada a antiga Faculdade de Letras.

Alçado Norte.jpg

Colégio real de S. Paulo Apóstolo. Fachada norte (Des. de Giacomo Azzolini)

Teatro Academico. Palco.jpg

Sebastião Sanhudo, apontamento de «As festas do Centenário de Camões em Coimbra», in “O Sorvete”, Porto, nº 157, 14.05.1881.

Mas os alunos deslocavam-se também para Teatros fora de Coimbra, no sentido de angariar pecúlio que lhes permitisse organizar as suas festas de finalistas ou contribuir para atos de filantropia. Não esqueçamos que foi com o contributo de donativos angariados com récitas do Orfeão Académico que, em 1882, foi possível inaugurar a construção do primeiro Jardim Escola João de Deus, em Coimbra.

Jardim Escola em construção.jpg

Jardim Escola João de Deus em construção

Este bifólio, de quatro páginas, do qual se apresenta a folha de rosto, contém a partitura para piano, com indicação das vozes e coro, que foi regido por Simões Barbas. É hoje um raro exemplar, pois estes folhetos apenas sobreviveram na posse de bibliófilos e amantes das tradições coimbrãs, como é o caso do colecionador Eng.º Salema Garção que o doou ao Arquivo da Universidade, integrado num acervo conimbricense3.

Por último, uma chamada de atenção para o belo trabalho litográfico, com motivos vegetalistas e grinaldas de flores pendentes, muito ao gosto da época. É visível uma pasta de estudantes, fitada, e decorada, podendo interpretar-se que seja a “pasta de luxo” que começou a ser usada, no final do séc. XIX.

Hino. Pormenor.jpg

PT/AUC/COL/SG – Salema Garção (COL); Documentos Relativos a Coimbra (SR) – cota AUC – VI-3.ª-1-2-28. Pormenor

Pasta de luxo 03 a.jpg

Pasta de luxo de um quartanista de Direito. 1934 (Coleção particular)

1 Foi já divulgado um exemplar desta récita de sua autoria, existente na BGUC. Foi representada no Teatro Académico, intitulada Phantasias do Bandarra, e ficou registada na exposição A Universidade de Coimbra e o Brasil: percurso iconobibliográfico. Coimbra: IUC, 2010. p. 176.

2 SILVA, Armando Carneiro da – «As Récitas do V ano». Arquivo Coimbrão (1955), vol. 13, pp. 149-281.

3 PAIVA, José Pedro (coord.) - Guia de Fundos do Arquivo da Universidade de Coimbra. Coimbra: IUC, 2015, pp. 150-151.

Hymno dos Quintanistas de Direito do anno de 1876 a 1877 / Música de A. Simões de Carvalho; Poesia de A. Gonçalve[s] Crespo. Coimbra: Lith. Academica, 1877.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 19:15

Terça-feira, 10.08.21

Coimbra: Caminho para a canonização da Rainha Santa 2

Com o mesmo objetivo, alguém que com ela convivia de perto redigiu também uma biografia, que viria a servir de fonte e inspiração para a maior parte dos textos que se compuseram ao longo dos séculos sobre D. Isabel; no final desta estão antologiados todos os milagres que, nessa altura, tinham sido objeto de juramentos solenes ou de certificação notarial, com a menção dos respetivos tabeliães e testemunhas. nomeadamente aquele ato notarial (instrumentum) de 27 de Julho de 1336, acima referido, o que revela que o seu autor recorreu a fontes escritas anteriores para se fundamentar. Este relato, consultado em cópia manuscrita existente na biblioteca do mosteiro de Santa Clara, foi editado pela primeira vez por Fr. Francisco Brandão, na Sexta Parte da «Monarquia Lusitana», com o título «Relaçam da vida da gloriosa Santa Isabel Rainha de Portugal», em 1672.

São Bernardo, no frontispício da Primeira Parte

São Bernardo, no frontispício da Primeira Parte da Monarchia Lusytana. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Monarchia_Lusytana

Estes primeiros relatos estão na génese do muito que se escreveu sobre Santa Isabel, ao longo dos séculos, quer em prosa, quer em poesia, quer em relatos hagiográficos ou biográficos, quer em ofícios divinos, quer em discursos comemorativos, panegíricos e sermões.

A chegada da Rainha Santa Isabel à Catedral de Sa

A chegada da Rainha Santa Isabel à Catedral de Santiago de Compostela. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_de_Arag%C3%A3o,_Rainha_de_Portugal

A rainha deposita a sua coroa.pngA rainha deposita a sua coroa aos pés do Arcebispo de Santiago de Compostela. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_de_Arag%C3%A3o,_Rainha_de_Portugal

… Apesar do registo destes acontecimentos, em escrituras públicas, e da redação da biografia muito pouco tempo depois da sua morte, vivendo ainda alguns dos intervenientes mencionados, o culto da Rainha permaneceu circunscrito, muito limitado à cidade de Coimbra e aos seus descendentes. D. Manuel, D. João III conseguem o alargamento do culto a todo o reino e D. Sebastião continua a envidar esforços no sentido de alcançar a santificação de D. Isabel; esta, no entanto, só seria canonizada pelo Papa Urbano VIII em 1625, em pleno domínio filipino, no reinado de Filipe III, na sequência da insistência de Filipe II, que dera uma nova força ao processo em 1611.

Este culto privado, com algumas manifestações públicas, prolongou-se, pois, por aproximadamente dois séculos, até ao reinado de D. Manuel, durante o qual se estabeleceram contactos com as hierarquias superiores da Igreja, para se conseguir o seu reconhecimento oficial e solene.

Santa Isabel de Portugal.jpg

Santa Isabel de Portugal, Retrato idealizado criado por Francisco de Zurbarán. 1635 (Museu do Prado). Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_de_Arag%C3%A3o,_Rainha_de_Portugal

É graças à intervenção de D. Manuel que o culto da rainha toma cunho solene (isto é, passa a ser realizado em nome da Igreja, com intervenção dos seus ministros, através de ritos e cerimónias reconhecidas e aprovadas pela autoridade competente), mas apenas na diocese de Coimbra. Simultaneamente, o papa Leão X, em 1516, ao autorizar o culto solene, alcandorou a Rainha a bem-aventurada, isto é, beatificou-a.

… Quando, em 1556, D. João III obteve do Papa a extensão do culto da Rainha a todo o reino, determinou a realização de um conjunto de iniciativas nas dioceses do país, nos mosteiros, na Universidade e no Colégio das Artes; encomendou a elaboração de uma biografia de D. Isabel, que narrasse a sua vida, obras e milagres; solicitou cópias de documentos antigos relacionados com esta sua antepassada, conservados no cartório do mosteiro de Santa Clara; mandou fazer estátuas da Rainha e averiguar da veracidade dos milagres.

Toipa. H.C.  Rainha Santa Isabel: fontes para o seu estudo – (Documentos). 2020. Coimbra, Imprensa da Universidade. Pg. 1 a 20

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 16:13

Quinta-feira, 05.08.21

Coimbra: Caminho para a canonização da Rainha Santa 1

O culto da Rainha Santa Isabel começou logo após a sua morte que, significativamente, se revestiu de características maravilhosas, envolvendo-a numa aura de sobrenatural:

Santa Isabel de Portugal Curando as Feridas.jpg

Santa Isabel de Portugal Curando as Feridas de uma Enferma, Francisco José de Goya y Lucientes, 1799. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_de_Arag%C3%A3o,_Rainha_de_Portugal

segundo o primeiro relato sobre a sua vida, comummente conhecido por «Lenda da Rainha Santa», nos dias que antecederam o passamento, a Rainha, já moribunda, recebeu a visão de Nossa Senhora que, na opinião dos seus familiares e amigos presentes, a mandara confortar; da mesma forma, durante o cortejo fúnebre de Estremoz para Coimbra, numa viagem de sete dias, em pleno mês de Julho, o cheiro de rosas que emanava do líquido que escorria pelas fendas do caixão causou a maior estranheza e admiração, levando ao registo do fenómeno em escritura pública, atestada por aqueles que tinham acompanhado o préstito.

Nos dias que se seguiram ao sepultamento, foram registadas igualmente em escrituras públicas, antes mesmo de passado um mês sobre a morte da rainha, que ocorreu a 4 de Julho, outras situações de curas maravilhosas, operadas junto do seu túmulo, ou com a sua intercessão, por ação das suas relíquias (por exemplo, as ligaduras que tinham protegido o tumor do seu braço e que curaram uma ama da sua casa, afetada por um “lobinho grande em na mão direita”), com a clara intenção de guardar para a posteridade a sua ação benfazeja e de procurar a sua canonização. Dessas escrituras, existe ainda um manuscrito, escrito a 27 de Julho de 1336, que atesta a ocorrência de duas curas miraculosas: a da freira de Santa Clara, Catarina Lourenço, que tinha um “lobinho” no olho esquerdo, do qual fora curada depois de se encomendar à Rainha, junto do seu túmulo; e a de Dominga Domingues, de Condeixa, que tendo ingerido uma sanguessuga, a expulsara, depois de ter recorrido à intercessão da Rainha Santa.

A Rainha Santa Isabel vestida com o seu hábito re

A Rainha Santa Isabel vestida com o seu hábito religioso e com uma representação do milagre das rosas. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_de_Arag%C3%A3o,_Rainha_de_Portugal

…. É o relato dos milagres, realizados com a intervenção divina por intermédio da Rainha, que dá o sinal do culto popular de que a mesma passou a ser objeto, logo após a sua morte. Os populares, aflitos por doenças ou por calamidades que sobre si se abatiam, acorriam ao seu túmulo, para solicitarem auxílio. De resto, o relato de Rui de Pina, na «Chronica d’El-Rey D. Affonso IV, dá informação sobre esse culto popular já existente e a crença no poder taumatúrgico das suas relíquias, ao referir a reação dos acompanhantes do funeral de D. Isabel, em Coimbra:

«E que por isto em acabando de ser o corpo no moimento metido hum pano grãde vermelho cõ que fora cuberto, as andas em que hia forão loguo rotas, & espadaçadas, & goardados os pedaços, & rachas por grãdes Reliquias as quais tomadas, & lançadas com devação segundo testemunho de muytos, a muytos enfermos aproveytavão.»

Rainha Santa Isabel ao lado de Dom Dinis.jpg

Rainha Santa Isabel ao lado de Dom Dinis, com rosas no regaço. Acedido em https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_de_Arag%C3%A3o,_Rainha_de_Portugal

As iniciativas de registar para a posteridade estes acontecimentos, promovidas provavelmente pelo filho, D. Afonso IV, e pelo bispo de Lamego, Frei Salvado Martins, apontam, por parte dos seus próximos, para um desejo de canonização que coroasse uma vida dedicada à piedade, à conciliação dos seus familiares, ao apoio aos mais necessitados e à edificação de obras de assistência social, como acontecera com a sua tia-avó, Santa Isabel de Hungria, que fora canonizada muito pouco tempo depois da sua morte.

Toipa. H.C.  Rainha Santa Isabel: fontes para o seu estudo – (Documentos). 2020. Coimbra, Imprensa da Universidade. Pg. 1 a 20

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 16:36

Terça-feira, 03.08.21

Coimbra: Terceira invasão francesa e os seus malefícios em Coimbra

Sabemos que as Invasões Francesas deixaram atrás de si um rasto de destruição e morte. Sabemos, também, que a terceira, em 1810-1811, foi terrível para as populações civis. Mas não haverá algum exagero nos relatos da época? O impressivo deve, se praticável, assentar na solidez da investigação em fontes directas. Assim sendo, o que me proponho é esclarecer, com a exactidão possível, a dimensão dos massacres cometidos pelos invasores numa vasta região da zona Centro do nosso país e avaliar os sacrifícios impostos a essas populações.

The Duke of Wellington, por Thomas Lawrence.png

The Duke of Wellington, por Thomas Lawrence, pintado c. 1815-1816. Acedido em https://en.wikipedia.org/wiki/Arthur_Wellesley,_1st_Duke_of_Wellington

[Segundo António José Telo, a estratégia inglesa não visou proteger as populações portuguesas e nem sequer expulsar rapidamente o invasor, mas desgastar na Península os exércitos napoleónicos. Porque não interessava uma vitória rápida, evitaram-se as grandes batalhas e, quando estas foram inevitáveis, como a do Buçaco em 1810, os seus resultados não foram explorados. Wellesley (futuro duque de Wellington) rumou para Sul, abandonando Coimbra ao saque dos invasores, que decorreu nos dias 1, 2 e 3 de Outubro de 1810, até ser reconquistada pelas milícias comandadas pelo coronel Trant.

Batalha do Buçaco.png

… Em Março de 1811 os Franceses iniciaram a retirada. Desesperados pela fome, buscando mais a sobrevivência do que o combate, levaram as atrocidades ao último grau, apanhando as populações em fuga, a quem torturavam e matavam para lhes extorquir víveres. Coimbra foi poupada, pois Massena não conseguiu entrar na cidade. Conduziu então os seus homens para Espanha pela margem sul do rio Mondego, onde a carnificina prosseguiu.

Nos dias 19 e 20 de Março, sem encontrar nada para comer, as tropas francesas espalhavam-se por Pinhanços, Sandomil, Penalva do Castelo, Celorico da Beira, Vila Cortês, Vinhó, Gouveia, Moimenta da Serra, etc.

… Em Coimbra, já no mês de Junho de 1810 se vivia uma situação aflitiva: os sucessivos sacrifícios impostos desde 1808 e a contínua chegada e passagem de tropas com o consequente aboletamento compulsivo, a imundície acumulada, a escassez de víveres e alta de preços, conduzia à miséria e à doença grande parte da população. Em reunião de 17 de Junho da Mesa da Misericórdia, afirma-se que vivendo-se “tantas e tão extraordinárias necessidades”, “... a numerosa classe da mesma pobreza se acha reduzida à maior consternação e miséria, tendo subido o preço do pão a treze e a catorze tostões a medida, com cujo preço não tem proporção alguma os lucros e os meios dos jornaleiros e oficiais mecânicos e geralmente de toda a mesma pobreza, a qual por isso tem padecido e actualmente padece as mais rigorosas fomes, acrescendo a este flagelo o horroroso contágio que tanto tem grassado nesta cidade e suas circunvizinhanças desde os princípios do corrente ano e que infelizmente ate aqui não tem diminuído”.

…As vítimas da diocese de Coimbra

Mapa 1. Op. cit., pg. 9.png

Mapa 1. Op. cit., pg. 9

… A pilhagem de Coimbra, de 1 a 3 de Outubro de 1810, foi absolutamente devastadora e não tem sido devidamente valorizada pelos historiadores, não obstante ter sido cabalmente comprovada já em 1944 por Maria Ermelinda Fernandes Martins. Só a Universidade escapou parcialmente, protegida pelos cuidados dos oficiais portugueses que integravam as tropas invasoras. As residências das populações humildes também não foram poupadas. Quando regressaram não possuíam uma peça de mobiliário ou um fato com que se cobrissem. Aos Franceses tinham-se seguido as pilhagens feitas pelo povo que, entretanto, voltara e pelos refugiados das zonas a sul do Mondego.

Em petições de esmolas dirigidas à Misericórdia de Coimbra na Páscoa de 1813, 63 mulheres evocam ainda estes acontecimentos, responsabilizando-os, pelo menos em parte, pela indigência que sofriam quase três anos depois.

Em inícios de 1811 viveu-se na cidade um cenário dantesco. A Santa Casa da Misericórdia não dispunha dos recursos necessários para acudir aos “imensos pobres que de fora se tinham acolhido a esta cidade”. Por ordem de Trant, todos os habitantes de Miranda do Corvo, Lousã e circunvizinhanças até ao rio Alva haviam sido obrigados a retirar para norte do Mondego. As populações acorreram a Coimbra, refugiando-se nas casas abandonadas, e só regressaram às suas terras a partir de 10 de Abril, quando tal foi autorizado. Os dirigentes da Misericórdia sentiam-se tão vivamente impressionados com o ambiente da cidade em Fevereiro de 1811, que afirmam tratar-se de “uma calamidade incomparável, de que não há memória nos séculos passados”.

Lopes, M.A. Sofrimentos das populações na terceira invasão francesa. De Gouveia a Pombal. In: O Exército Português e as Comemorações dos 200 Anos da Guerra Peninsular. Volume III. 2010-2011. Lisboa/Parede, Exército Português/Tribuna da História, pp. 299-323.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 11:27

Quinta-feira, 29.07.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 29

Os obreiros das novas arquitecturas (continuação)

Mas não foram só os projetistas a imporem a sua marca na cidade, porque as arquiteturas que bordejam estes novos arruamentos apresentam, genericamente, uma matriz comum que passa pela utilização de cantarias lavradas, de azulejos e de ferros forjados. Trata-se da chancela que homens formados na Escola Livre das Artes do Desenho (ELAD) aplicavam nos imóveis que, obviamente não riscavam, mas decoravam.

João Machado.JPG

João Machado

Era esta a modernidade aposta na arquitetura que então se praticava numa cidade do interior, onde os artistas se viam impedidos, por inexistência, de frequentar uma Escola de Belas Artes. Se se compararem estas construções com as erguidas na capital, para já não falar com as das grandes metrópoles europeias, nota-se um atraso considerável. Contudo, a especificidade verificada na cidade do Mondego e patente na maior parte dos edifícios então edificados, permite-me rotular essas construções com o nome de ARQUITETURA ESCOLA LIVRE.

Fig. 51. António Augusto Gonçalves com um grupo

Fig. 51 – António Augusto Gonçalves com um grupo de alunos da ELAD numa visita de estudo.

É verdade que existem em Coimbra muitas obras deste período a caber no âmbito do ecletismo, mas todas elas apresentam a mesma matriz, baseada no gosto dos proprietários ou no saber dos canteiros que nelas trabalhavam. Ao fim e ao cabo, podem considerar-se o produto visível de uma cidade de província, fechada sobre si mesma, sem outros horizontes artísticos a não ser aqueles que a Escola Livre e também a Escola Industrial lhes proporcionavam.

Tem, frequentemente, sido feita referência à ELAD, isto é, à Escola Livre das Artes do Desenho. Como não havia em Coimbra uma escola de Belas Artes, António Augusto Gonçalves, homem dotado de grande capacidade de iniciativa e de vasta cultura, em 1878, acabou por fundar a Escola Livre, alfobre de muitos lavrantes que marcaram o panorama artístico de Coimbra, e não só, até cerca dos finais da terceira década de Novecentos.

A criação desta escola obedeceu “ao desejo de reunir todos os indivíduos que manifestavam aptidões artísticas, de propagar o estudo do desenho nas suas múltiplas aplicações às artes e às artes industriais, de tornar fácil e acessível a aquisição de conhecimentos sobre a forma de trabalhar os diversos materiais ensinando os princípios de estética indispensáveis à compreensão e interpretação das obras de arte”.

Tugúrio de Almedina mudar para JPEG.jpg

‘Tugúrio de Almedina’

No ‘Tugúrio de Almedina’, onde as relações entre professores e alunos se estreitavam e confundiam, formaram-se serralheiros, canteiros, escultores, marceneiros, entalhadores, ceramistas e pintores, que procuraram colher ensinamentos válidos no campo da história da arte e que os utilizavam nas construções onde plasmavam o produto do seu labor.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 21:28

Terça-feira, 27.07.21

Coimbra: Nunes Pereira, uma exposição realizada em 1983, 2

Mas existe um segundo motivo que torna o catálogo da Exposição Retrospectiva da obra de Mons. Augusto Nunes Pereira uma obra que não pode deixar de se referir sempre que se estuda este artista. 

Monsenhor Nunes Pereira.jpg

Monsenhor Nunes Pereira acompanhado do seu caderno para desenhar

Para além do que já se deixou escrito na entrada anterior, esse catálogo registo revela-se uma obra importante na medida em que nos proporciona a leitura de dois textos assaz elucidativos. O primeiro escrito por Fausto Correia, ao tempo Vereador do Pelouro da Cultura e Turismo, que sublinhava:

Monsenhor Nunes Pereira podia ser homenageado também como homem, como cidadão, como sacerdote, como jornalista, como conimbricense adotivo. Preferiu-se salientar - a justo título - a faceta de artista, que, bem vistas as coisas, reflete ineludível e globalmente toda uma personalidade, uma mensagem, uma maneira de ser e estar. … Rende-se agora preito à criatividade, ao valor e à autenticidade do artista, que é também um modo adequado de homenagear o homem, o cidadão, o sacerdote, o jornalista, e o conimbricense por adoção.

E referimo-nos também, e quiçá seja este o escrito mais significativo, à autobiografia traçada pelo próprio Nunes Pereira, peça literária de mérito, que bem espelha o Homem que foi e cuja memória perdura.

A palavra que se espera neste catálogo pudera solicitá-la dum amigo, e seria mais autorizada. Mas escrevo-a eu, mau grado o odioso deste pormenor.

Nasci na Mata, à beira do Ceira, que nessa noite de Dezembro de 1906 devia levar um volumoso e frio caudal.

Nunes Pereira. Contos de Fajão 1.jpg

Nunes Pereira. Contos de Fajão. “Os fidalgos de Fajão com o Juiz ao centro”. [Acedido em https://www.facebook.com/Os-Contos-de-Faj%C3%A3o-30-anos-2139002963080610/] (Saliente-se a inclusão do autorretrato do autor)

Os quinze ou vinte moradores que teria o povoado eram todos agricultores. Meu pai acrescentava a profissão ou arte de escultor-santeiro. A 14 de Abril de1916 despediu-se de nós com um «Adeus até ao Dia do Juízo». Dele herdei este jeito para as artes e um razoável conjunto de ferramentas, com as quais iniciei a minha aprendizagem manual: plainas, serras, formões, goivas e o mais da arte. Que ele repetidas vezes recomendara à minha mãe que não vendesse as ferramentas.

Na escola primária comecei a desenhar. Data de então a minha primeira escultura.

No Seminário ia aproveitando as horas vagas, e nas férias trazia sempre o caderno para desenhar, distintivo este que sempre me tem acompanhado. Depois de ordenado, fui para Montemor-o-Velho, onde havia abundante material para desenhar: igrejas, monumentos, paisagens, como aliás em toda a região. Como escrevia para jornais e revistas, desenhava à pena por ser mais fácil a reprodução. Depois fui para Coja, centro duma região cujos monumentos estavam, na maior parte, inexplorados. Fiz uma grande série de desenhos, que expus em várias terras, com a intenção de difundir a cultura e chamar a atenção dos habitantes para as riquezas que possuíam e nem sempre apreciavam devidamente.

Nunes Pereira. O jogo das cartas.jpg

Nunes Pereira. O jogo de cartas. [Ponta seca. Sobre chapa gravada. 2.º estado. 3/10. Não datado]. Coleção particular

As minhas primeiras gravuras datam do período de Montemor-o-Velho. Tinha começado, como Marques Abreu, por fazer carimbos. Depois fui à xilogravura, e ilustrei o meu primeiro livro de versos, saído em 1934 mas que estava pronto para imprimir em 1933.

Nunes Pereira. Contos de Fajão 2.jpeg

Nunes Pereira. Contos de Fajão. [Xilogravura. Museu Nunes Pereira. Fajão. Acedido em http://www.cm-pampilhosadaserra.pt/pages/428?event_id=252]

Nunes Pereira. Contos de Fajão 2.jpg

Nunes Pereira. Contos de Fajão. [Xilogravura. Museu Nunes Pereira. Seminário Maior de Coimbra. Acedido em https://agencia.ecclesia.pt/portal/evento/coimbra-exposicao-regressar-as-origens-pela-xilogravura-de-nunes-pereira/]

Em Coja, para dar que fazer a dois ou três artistas, dirigi a construção de alguns retábulos para capelas, fazendo eu os desenhos e a obra de talha.

Mas foi sobretudo depois da minha vinda para Coimbra, em1952, que pude entregar-me um pouco mais às artes plásticas, não porque tivesse mais vagar, antes pelo contrário, mas por outros motivos. Redator do «Correio de Coimbra», tive oportunidade de fazer muitas dezenas de gravuras para este jornal, algumas delas feitas apressadamente com a máquina à espera para imprimir o jornal.

. Nunes Pereira. Cabo Mondego.jpg

Nunes Pereira. Cabo Mondego. [Aguarela sobre papel. 22 de Agosto de 1971]. Coleção particular

A certa altura tentei obter uma bolsa de estudos para me aperfeiçoar na gravura, mas não a consegui. Limitei-me a estudar por mim e aproveitar viagens ao estrangeiro para confrontar os meus trabalhos com os de autores competentes. Contactei com Pietro Pariggi, em Florença, e com André Jaquemin em Épinal - mas só de passagem.

Em Coimbra, José Contente explicara-me, numa tarde, a técnica da gravura em metal e o funcionamento do «tórculo», que ele tinha muito bom e que mais tarde, após o seu prematuro falecimento, adquiri. A esse artista, tão modesto como grande, rendo aqui a minha homenagem.

Circunstâncias favoráveis encaminharam-me para o desenho de vitrais. O primeiro foi para a capela da Casa de Saúde da Santa Filomena; seguiu-se a capela de Paleão, e depois uma série de igrejas e capelas. Se tinha contribuído para o ressurgimento da gravura de madeira, também contribuí para o ressurgimento do vitral.

A par disso, vendo que as matrizes das gravuras de madeira, independentemente da sua reprodução no papel, constituíam por si um quadro interessante, gravei grandes painéis em xilogravura, o maior dos quais mede 4,16 x 2,80 m.

Na base de todos os meus trabalhos está, sem dúvida, o desenho. Desenho em casa, na rua, nos cafés, nas reuniões, nos almoços. Em Montemor e em Coja desenhava nas feiras. A rapidez com que desenho vem desse treino contínuo. O meu desenho, salvo o que faço no gabinete, é um desenho de viagem, aproveitando ocasiões e às vezes escassos minutos.

Há poucos anos que pinto a aguarela, pois a primeira tentativa não me entusiasmara. Quanto à monotipia, que tem muito mais criatividade, não tem logrado interessar muito os visitantes, habituados à cópia servil da natureza que viram.

Nunes Pereira. Presépio.jpg

Nunes Pereira. Presépio. [Gravura. 1990. 2/20. Coleção particular]

 

Por fim o calhau rolado. Privado das arestas, pronto e quase envernizado, é um belo material oferecido à imaginação do escultor, que chegado a esta idade vê nele o símbolo do seu próprio batalhar na vida.

Exposição Retrospectiva da obra de Mons. Augusto Nunes Pereira. Coimbra Abril 1983. Catálogo. Organização Serviços Municipais de Cultura e Turismo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:57

Quinta-feira, 22.07.21

Coimbra: Nunes Pereira, uma exposição realizada em 1983, 1

A entrada publicada em 7 do corrente relacionada com a exposição “As Últimas Ceias de Nunes Pereira. Das Ceias à Ceia”, patente no atual Museu Nunes Pereira, instalado no Seminário Maior de Coimbra, levou-me a buscar outras realidades relacionadas com esta, por adoção, ímpar personalidade conimbricense.

Foi neste contexto que me reencontrei com o catálogo da “Exposição Retrospectiva da obra de Mons. Augusto Nunes Pereira”, acontecida no edifício Chiado, de 7 a 17 de abril do já longínquo ano de 1983. 

Exposição Retrospectiva , capa.jpg

Exposição Retrospectiva da obra de Mons. Augusto Nunes Pereira. Catálogo, capa

Guardo com carinho e saudade um exemplar desse catálogo, onde Mons. Nunes Pereira esboçou a minha caricatura a que acrescentou a seguinte dedicatória: Ao meu Querido Amigo Sr. Dr. Rodrigues Costa, com a gratidão do P.e Nunes Pereira.

A referência a este pormenor que me enche de orgulho, e seja-me perdoado o atrevimento, de vaidade, justifica-se pela ternura e pela saudade que ainda sinto pelo meu Mestre da Brotero, pelo meu Companheiro das lides da Comissão de Arte, integrada nas estruturas da Câmara de Coimbra, pelas nossas longas conversas quando o levava à sua casa pré-fabricada, situada na Portela, casa modesta, mas repleta de obras de arte, de tranquilidade e de irradiante felicidade. 

Exposição Retrospectiva, contracapa.jpg

Exposição Retrospectiva da obra de Mons. Augusto Nunes Pereira. Catálogo, contracapa

Exposição Retrospectiva , ilustração.jpg

Exposição Retrospectiva da obra de Mons. Augusto Nunes Pereira. Catálogo, ilustração

Os Serviços Municipais de Cultura e Turismo, com a colaboração do Movimento Artístico de Coimbra, foram os responsáveis pela organização da mostra que, para selecionar e recolher as obras expostas, para levar a cabo a sua montagem no rés-do-chão do edifício Chiado e para organizar o Catálogo, se viu a braços com as exíguas possibilidades económicas do Município. Todo o trabalho, a que se procurou dar a dignidade que a exposição e o seu Autor mereciam, foi levado a cabo por uma pequena equipa que, então, tive a honra de liderar.

O ato inaugurativo, acompanhado de uma homenagem prestada pela edilidade a Monsenhor Nunes Pereira na Câmara Municipal, constituiu, na cidade, um evento relevante. A abertura da mostra encontra-se perpetuada em várias imagens da autoria de Varela Pècurto e que este ofereceu à Câmara, estando ora depositadas na Imagoteca Municipal.

Bmc_g281.jpg

Inauguração da exposição. Câmara Municipal de Coimbra, BMC-G281. Fot. Varela Pécurto (?)

bmc_d018.jpg

Inauguração da exposição. Câmara Municipal de Coimbra, BMC-D018. Fot,.Varela Pécurto

O Catálogo então delineado constitui uma componente importante no contexto expositivo na medida em que, por um lado, o Autor traça a sua autobiografia e, por outro, insere uma listagem das peças apresentadas acompanhada de uma reprodução parcial.

Exibiu-se um espólio significativo, composto por cerca de centena e meia de trabalhos, onde constavam 6 desenhos, 13 aguarelas, 6 monotipias, 29 xilogravuras, 35 fotografias de xilogravuras, 8 xilografias, 12 gravuras a buril, ponta seca e água forte, 1 gravura em metal, 12 fotografias de trabalhos em ferro forjado, 2 fotografias de mosaicos, 2 fotografias de trabalhos em arquitetura, 106 diapositivos de vitrais, 11 esculturas, 3 fotografias de esculturas em pedra e madeira, 17 figuras esculpidas em calhau rolado e algumas medalhas. Inseriam-se também na exposição 10 livros, alguns da sua autoria e outros em coautoria, recortes de jornais, catálogos de anteriores exposições anteriormente efetivadas.

Todo este material mereceu a Joaquim Matos Chaves o seguinte comentário:

Cultor eclético da arte, Monsenhor Nunes Pereira prestou, contudo, maior atenção a duas técnicas, a dois processos: a gravura, sobretudo a gravura em madeira e o vitral. Mas justificam, igualmente, menção o desenho, algumas vezes aguarelado, a pintura e ainda outras Técnicas, que, penso, não teria sentido enumerar exaustivamente aqui. Delas deixará a exposição constância de modo que torna as palavras supérfluas.

Exposição Retrospectiva da obra de Mons. Augusto Nunes Pereira. Coimbra Abril 1983. Catálogo. Organização Serviços Municipais de Cultura e Turismo.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 10:43

Terça-feira, 20.07.21

Coimbra: Forma e tipos de matrículas na Universidade

Até à Reforma Pombalina da Universidade em 1772 o registo de matrícula apresenta geralmente a seguinte informação:

Nome do aluno, naturalidade e filiação, sendo neste último caso apresentado apenas o nome do pai, seguido da informação sobre a data de matrícula e assinatura do aluno. No caso de alunos de ordens religiosas não é apresentado o dado de filiação.

Livro de Matrículas (1724-1725), fl.23.png

Livro de Matrículas (1724-1725), fl.23

Não é igualmente indicado o ano de curso, pelo que só compulsando todos os anos de frequência do aluno se pode saber exactamente os anos frequentados. No entanto, é comum ser indicado o grau de Bacharel no caso de o aluno já possuir este grau quando efectua a matrícula. Os livros apresentam as matrículas por ordem de Faculdades, sendo apresentada em primeiro lugar a Faculdade de Teologia, seguida de Cânones, Leis e Medicina. A matrícula na cadeira de Instituta (os designados alunos Institutários) ficou geralmente lançada antes dos registos da Faculdade de Medicina, mas pode também surgir depois destes.

Depois de 1772 são acrescentados os registos de matrícula das Faculdades de Matemática e Filosofia e deixa de existir a cadeira de Instituta. Os registos passam a ser apresentados por ordem alfabética e por ordem de ano de curso. A partir de 1793 passam a ser utilizados formulários impressos, com espaços em branco para neles se registar o nome do aluno, naturalidade e filiação. Na matrícula que ocorre no primeiro ano do curso ficou ainda regista a informação sobre as habilitações do aluno, em estudos preparatórios para o ingresso na Universidade (por exemplo: Latim, Retórica, Filosofia, Geometria).

Livro de Matrículas, Vol.21. (1792-1793), fl.17.p

Livro de Matrículas, Vol.21. (1792-1793), fl.17

O registo de matrícula apresenta ainda informação sobre a classe de ordinário ou de obrigado de cada aluno. Quanto aos alunos voluntários existem volumes próprios para o registo da matrícula nas Faculdades de Filosofia e de Matemática. Pode, eventualmente, surgir a informação, sobre a mudança de uma classe para outra, designada por trânsito do aluno, por exemplo de ordinário para obrigado, ou de voluntário para ordinário.

Livro de Matrículas, Vol.41 (1813-1814), fl.132.p

Livro de Matrículas, Vol.41 (1813-1814), fl.132

Após a reforma de 1911, de acordo com o Decreto com força de lei de 19 de Abril de 1911, no seu cap. IX, a matrícula é o acto pelo qual o aluno dá entrada na Universidade; por seu lado, a inscrição permite ao aluno, depois de matriculado, a frequência das diversas cadeiras e cursos. A partir desta data, os livros de matrículas passam a estar ordenados por cada Faculdade e não é dada indicação do ano de curso, uma vez que a matrícula diz respeito ao ingresso na Universidade e respectiva Faculdade. Até 1937 não indicam o ano de curso, ou mesmo o próprio curso a frequentar dentro de cada Faculdade. Estes dados só podem ser colhidos nos livros de Inscrições.

Livro de Inscrições, Vol.25 (1921-1934), fl.173v

Livro de Inscrições, Vol.25 (1921-1934), fl.173v

Bandeira, A.M.L. Percurso académico na Universidade de Coimbra, nos séculos XVI a XX (orientações para pesquisa). Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra. Acedido em: https://www.uc.pt/auc/orientacoes/UC_GuiaPercursoAcademico.pdf

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 13:00

Quinta-feira, 15.07.21

Coimbra: Alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. 28

Os obreiros das novas arquitecturas

Os projetistas dos imóveis que neste período se iam edificando na cidade e especificamente no novo Bairro de Santa Cruz, a muitos dos quais já fomos fazendo referência ao longo do texto, eram, na sua maioria construtores civis, embora também encontremos o nome de condutores, mestres-de-obras e similares a riscarem prédios, a responsabilizar-se pela sua construção e a comprometerem-se, de acordo com regras estipuladas pela edilidade, com a segurança do operariado.

Através das deliberações tomadas na sessão da Câmara Municipal de Coimbra a 10 de setembro de 1908, fica-se a saber que, para poder assinar a planta de um edifício ou o projeto de modificação de uma qualquer fachada, teriam os autores de ser “engenheiros, arquitectos, desenhadores, ou condutores de obras públicas, ou mestres de obras devidamente inscritos”.

Contudo, um mestre-de-obras, para conseguir o diploma submeter-se-ia, obrigatoriamente, a um exame que, de acordo com o anúncio publicado na folha O Operario de Coimbra, constava “1.º Da leitura de um trecho facil da língua Portugueza; 2.º Das quatro operações sobre inteiras e decimaes; 3.º De calculos de areas e volumes das figuras mais usuaes; 4.º Da intelligencia e explicação de um plano de construcção civil; 5.º Do traçado de um pequeno projecto, copia ou original á escolha do candidato, que poderá servir-se de papel quadriculado; 6.º De noções geraes sobre materiaes de construcção, especialisando-se o que mais directamente se refira a estabilidade da cosntrucção e a segurança dos operários n'ella empregados”.

De entre os mestres-de-obras e os construtores civis a laborar na cidade, e naquele período, podem referir-se os nomes de “Abílio Augusto Vieira, de Cellas; Accacio Theodoro, da Portella da Cobiça; Antonio Augusto Pedro, Mont'Arroyo; Antonio da Silva Feitor, R. dos Militares; Antonio Simões; Benjamim Ventura; Francisco Antonio de Meira; Francisco de Campos; Francisco Collaço; João Antonio Maximo; João Gaspar Marques Neves; Joaquim Augusto Ladeira; Joaquim dos Santos Porto; Joaquim Simões Misarella; José Pedro de Jesus; José dos Santos Marques; Manuel Cardoso”.

Se se pensar, a nível de arquitetos e de acordo com o Annuario Commercial de Portugal, entre 1901 e 1925, apenas um, Augusto de Carvalho da Silva Pinto, aqui residia e mantinha atividade regular; contudo, não se pode escamotear a importância que neste período Raul Lino exerceu no contexto arquitetónico da cidade, quer através dos edifícios que projetou quer através da influência que a exposição dos seus trabalhos desempenhou tanto, lato sensu, na mentalidade da urbe, como no gosto de potenciais encomendantes.

Fig. 49. Assinatura do arquiteto Silva Pinto.jpg

Fig. 49 – Assinatura do arquiteto Silva Pinto.

O primeiro, Silva Pinto, nasceu em Lisboa no ano de 1865 e faleceu na mesma cidade, onde foi procurar cura para os seus males, em 1938. Depois de ter terminado o curso especial de Arquitetura da Escola de Belas-Artes de Lisboa vai completar a sua formação na École des Beaux-Arts parisiense. Quando regressa de Paris, em 1895, fixa residência em Coimbra, dado que o arquiteto José Luís Monteiro, amigo do conde do Ameal, lho recomenda a fim de dirigir as obras de adaptação do colégio de S. Tomás, sito na Rua da Sofia, a residência do titular. A verdade é que se radicou na cidade e nela permaneceu até ao fim da vida, envolvendo-se nos mais diversos empreendimentos arquitetónicos e culturais que então se desenvolviam na urbe. Da sua mão saíram muitos e variados projetos de edifícios que espalham e espalhavam, porque alguns já desapareceram sob o camartelo cego dos poderes públicos, pela cidade; alem disso exerceu o magistério na Escola Brotero e envolveu-se com os cometimentos e com a “política” da urbe, e não só.

Silva Pinto.jpg

Silva Pinto

O arquiteto Raul Lino nasceu em Lisboa a 21 de novembro de 1879 e aí faleceu a 14 de julho de 1974.

Fig. 50. Arquiteto Raul Lino.jpg

Fig. 50 – Arquiteto Raul Lino.

Iniciou a sua formação em Inglaterra e, depois de 1893, continuou-a na Alemanha, onde foi discípulo de Albrecht Haupt, mestre que marcou profundamente o seu pensamento e a compreensão da corrente modernista.

Nos últimos anos do século XIX, certamente por influência de um take off tardio, Lisboa começou a crescer e muitas das novas zonas foram projetadas a partir dos princípios do design moderno vindo de Paris. Mas esses projetos não interessavam a Raul Lino, para quem os valores tradicionais e nacionais, como o amor pela pátria, para além de terem feito parte da sua formação, exerciam sobre ele uma profunda influência.

O alarife nutria uma grande simpatia pelos artistas de Coimbra ligados à ELAD, utilizando mesmo, e frequentemente, nos imóveis que projetava as cantarias e os ferros forjados saídos das suas oficinas; o gosto pela utilização azulejar como elemento decorativo também era comum. Esta afinidade talvez encontre explicação, porque Lino nutria o mesmo empenho, admiração e culto artístico pela arte nacional que encontrava seguidores em António Augusto Gonçalves e nos seus discípulos, homens que, em Coimbra iam “modestamente fazendo a renovação das nossas indústrias de arte”.

Joaquim Martins Teixeira de Carvalho.jpg

Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, ‘Quim Martins’

Quim Martins, no seu jornal Resistencia, escrevia que em Raul Lino se encontra, o que era raro nos arquitetos, a preocupação com “physionomia da região, e com a côr da paysagem” e, além disso, “tira partido de tudo que possa dar um ar pittoresco e regional, á sua construção”.

Casa na Avenida Marnoco e Sousa. Projeto do Arquit

Casa na Avenida Marnoco e Sousa. Projeto do Arquiteto Agostinho da Fonseca. Foto Daniel Tiago, 2006

O artista, que frequentemente se deslocava a Coimbra, ao ter conhecimento de que se encontrava em projeto a abertura do Bairro do Penedo da Saudade, levou a cabo na sede do Instituto uma exposição dos seus trabalhos, porque, de acordo com o «Noticas de Coimbra» “ficariam ali muito bem prédios daquele tipo”; a mostra inaugurou-se no dia 14 de março de 1908.

Av. Marnoco e Sousa, placa toponímica.JPG

Av. Marnoco e Sousa, placa toponímica

O “festejado artista” vira já os seus méritos reconhecidos pela intelligenza da cidade que o fizera, em 1904, sócio do Instituto de Coimbra.

Anacleto, R. Coimbra: alargamento do espaço urbano no cotovelo dos séculos XIX e XX. In: Belas-Artes: Revista Boletim da Academia  Nacional de Belas ArtesLisboa 2013-2016. 3.ª série, n.ºs 32 a 34. Pg. 127-186. Acedido em https://academiabelasartes.pt/wp-content/uploads/2020/02/Revista-Boletim-n.%C2%BA-32-a-34.pdf

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Rodrigues Costa às 18:36


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Setembro 2021

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930