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A' Cerca de Coimbra


Terça-feira, 24.05.22

Coimbra: Santa Cruz de Coimbra, uma floresta iluminada 2

O livro traz fotografias de agora, mas também postais-ilustrados e fotos simples ou coloridas a aguarela de inícios do século passado (por exemplo, pp. 44, 114) que demonstram quanto este Jardim se tornou um espaço público da cidade. Depois de ser privativo de monges e clérigos, lá foram vistos e fotografados estudantes de batina negra e tricanas aguadeiras, de bilha à cabeça, pois as águas do parque eram boas e abundantes.

A água é o elemento por excelência em Santa Cruz, nos seus diferentes planos topográficos e significados teológicos ou outros. “A festa da água que acontecia dentro dos seus jardins — afirma Marco Daniel Duarte — era entendida pelos religiosos crúzios como uma página de Teologia” (p. 54; itálico meu).

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Cascata do jarim de Santa Cruz fixada numa fotografia da década de 20 do século XX por Adriano Tinoco. Op.cit., pg. 46

A Cascata, que tem adiante um repuxo, foi construída à maneira dos retábulos de capela-mor, com duas parelhas de Evangelistas (São Marcos e São Mateus, São Lucas e São João) organizadas em torno de dois medalhões de azulejo cobalto e branco onde pinturas representam passagens bíblicas consagradas à importância da água como liberalidade divina, e ao centro, num plano mais elevado, coroando o “retábulo”, surge Nossa Senhora da Conceição numa eclipse vazada.

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Na elipse vazada da grande Cascata, a escultura da Virgem Maria, ali figurada como Nossa Senhora da Conceição. Foto Rui Gonçalves Moreno. Op. cit., pg. 53

Rochas secreções calcárias típicas de gruta ou nascente de água, cuja fictícia entrada uma grande mancha verde de avencas oculta. Pelos lados, em diagonal, sobem degraus de duas curtas escadarias, apoiando a verticalidade do conjunto, entre arvoredo de grande porte.

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Patamar de descanso concebido em volta de uma fonte. Op.cit., pg, 59

A ascensão íngreme rumo à fonte de água pura tem conhecido significado religioso e divino, e a crescente intensificação do elemento líquido nos patamares superiores do jardim de Santa Cruz atingirá no topo da colina “uma omnipresença absoluta”. Patamares de descanso, lance de degraus e balaustradas formam uma sucessão de planos dinâmicos, ilustrados por painéis azulejares com cenas piscatórias e venatórias em que a água é o motivo recorrente, além de outros, com enormes fontenários setecentistas — um trabalho de pincel em oficinais da região Centro, que todavia não se distinguiu pela qualidade, no parecer autorizadíssimo de José Meco. Sombra, verde de folha, azul e branco cerâmicos e o líquido primordial espelhado em fontes e pequenos tanques criam ambientes aprazíveis, pontuados por pirâmides-pináculo que reforçam o caminho para o alto, físico e espiritual.

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Fonte do Lago que toma o lugar onde, segundo as fontes mais antigas, existiria uma ilha com laranjeira. Foto Rui Gonçalves Moreno. Op. cit., pg. 85.

“Uma outra cena”, na opinião de Louis-François de Tollenare, o viajante francês já citado, é o grande largo circular rodeado de altas paredes de cedro, que fica num nível intermédio, porém marginal da ascensão vertical. Uma “ambiência rústica” (p. 91) em contraponto ao resto do parque, porém nobre pelas suas árvores seculares, que H. F. Link elogiou no seu livro de viagem a Portugal, em especial os loureiros de extrema velhice e altura prodigiosa da Alameda de Santo Agostinho — cenário perfeitamente romântico, aliás, muito próprio da época, para túmulo dum jovem militar inglês afogado no Mondego e dum outro homem que viveu à margem das convenções. Uma vocação tardia dos crúzios coimbrões, que o M. D. Duarte apenas sugere, mas admite poder “levar a importantes conclusões acerca do papel dos crúzios na sociedade conimbricense do século XIX, […] para com os que habitavam fora do mundo católico” (p. 96).

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Fonte da Nogueira, pormenor do estado de conservação do Tritão em 1993. Op.cit., pg. 69.

No entanto, o principal caminho não é esse. “A meta do escadório é uma fonte” (p. 67), a Fonte da Nogueira, ou da Sereia (na verdade, do Tritão…, alegoria da criação do mundo), numa das extremidades da cerca do Parque — uma das mais importantes de Coimbra, exclusiva do Mosteiro, como reconhecido num alvará régio de 1588, e objeto de secular contenda por parte do Município. Pela sua simbologia teológica como pela sua importância conventual, esta fonte no patamar mais elevado do escadório, de menor dimensão que a do piso inferior, mais intimista também, recebeu um programa decorativo que começa no desdobrar de frases sapienciais do Antigo Testamento em legendas de cenas azulejares alusivas, umas e outras atualmente muito maltratadas pela erosão natural e pela barbárie humana — como sucede com os rostos picados no painel da comunidade monástica reunida em torno duma fonte de que recebem água (p. 75) ou a brutal decapitação do Tritão fontenário (p. 71).

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Representação da comunidade monástica dos Cónegos Regrantes de S. Agostinho em redor da fonte da qual recebem a água. Op. cit. Pg. 75

Muitos desses painéis representam diferentes gerações de crentes junto de fontes de água, mas num deles observa-se “um elevado chafariz que termina num coração de Maria donde saem jatos de água; em volta crúzios sentados, tendo corações nas mãos, e dois deles recebem nos seus a água” da sabedoria, como relataram os historiadores da arte Vergílio Correia e Nogueira Gonçalves. Sendo qualquer fonte de grande caudal um símbolo de Cristo, o autor acredita que a Fonte da Nogueira constitui verdadeiramente “o coração de todo o Parque” de Santa Cruz e “um dos mais importantes lugares consagrados à veneração do mistério da Encarnação do Verbo” (p. 79).

Rosa, V. Santa Cruz de Coimbra: uma floresta iluminada. In: Observador, edição de 4 de abril de 2018.

 

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por Rodrigues Costa às 12:31

Quinta-feira, 19.05.22

Coimbra: Santa Cruz de Coimbra, uma floresta iluminada 1

No “Observador” de 4 de abril de 2018 o jornalista Vasco Rosa escreveu um artigo sobre o livro do Doutor Marco Daniel Duarte, com o título: “Contemplar o Paraíso. O Jardim de Santa Cruz de Coimbra (do século XVII ao século XXI)”, que intitulou “Santa Cruz de Coimbra: uma floresta iluminada”.

Desse texto levamos até leitores o que seguir fica.

JSC. Artigo cascata.png

Jardim de Santa Cruz, cascata. Imagem inserida no artigo

 "Contemplar o Paraíso" é um guia, mas também é um livro sobre a história de um dos espaços mais emblemáticos de Coimbra. Vasco Rosa escreve sobre a obra e sobre o jardim.

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Contemplar o Paraíso, capa. Imagem inserida no artigo

 O recentemente concluído e notável restauro da Estufa Grande do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra chamou-nos a atenção para este álbum também recente, dedicado a outro “espaço verde” daquela cidade, o Jardim de Santa Cruz, que em 2004 recebeu sete esculturas de Rui Chafes, algumas delas colossais, incorporando no frondoso cenário arbóreo a solenidade artística e a “severidade litúrgica” (a expressão parece-me certeira; p. 139) que lhe são tão peculiares.

Se esta intervenção contemporânea, por si só, justifica plenamente uma visita, que dizer do restante parque, construído em 1723-52 na cerca do Mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, que então dominava a cidade, e também ele erguido de acordo com o que de melhor se fazia à época, de Versailles a São Petersburgo?

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Entrada do jardim de Santa Cruz, ainda sem o murete que o século XX lhe viria a adicionar. Op. cit., pg. 17.

Inicialmente o Pórtico, isolado, tinha uma dignidade simbólica e uma graça volumétrica que muretes nas laterais (1913) vieram perturbar, mas é a partir daí, naturalmente, que o autor nos conduz num passeio pela antiga Quinta de Santa Cruz. Basta entrar nos dois exíguos torreões para nos apercebermos da qualidade investida no programa estético deste empreendimento, com as paredes pintadas a fresco de cima a baixo, em trompe l’œil: uma cenografia de arquitetura rococó que sobe vertiginosamente até a tetos como abóbadas celestes com alegorias.

 

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Pórtico do jardim de Santa Cruz. Foto Rui Gonçalves Moreno. Op.cit., pg.19.

 Medalhões, templetes e frisos evocam cenas monásticas e mitológicas, como a entrega da Regra por Santo Agostinho aos crúzios coimbrãos e o Milagre de Ourique, ou exibem símbolos religiosos, militares e artísticos.

Sob as estátuas da Fé, da Caridade e da Esperança no triplo arco da entrada avança-se para a “utilidade profilática” (p. 37) do parque enquanto lugar de recreio e desporto.

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Registo do terreiro do jogo da Pela através de um postal ilustrado dos finais do século XIX. Op.cit., pg.39

O recinto apropriado ao Jogo da Pela — o jeu de paume gaúlico —, “grandioso terreiro” ou “fermossíssima praça” (p. 41), tem a Cascata como cenário de fundo, ou “extremidade de honra” nas palavras dum viajante francês em 1816, e aos lados canapés corridos em faiança pintada, hoje um tanto danificados, por sinal.

Rosa, V. Santa Cruz de Coimbra: uma floresta iluminada. In: Observador, edição de 4 de abril de 2018.

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por Rodrigues Costa às 15:07

Terça-feira, 17.05.22

Personalidades de Coimbra: Mário Araújo Torres

A importância da reedição de textos, há muito esquecidos e esgotados, de autores que escreveram sobre Coimbra, é inquestionável.

Embora sabendo que Mário Araújo Torres é avesso a agradecimentos, temos repetidamente afirmado, e mais uma vez o fazemos, que Coimbra lhe deve um institucional: OBRIGADO.

Na modéstia do conimbricense que somos, pelo nosso lado, aqui fica esse reconhecimento.

MAT. Mário de Araúno Torres.png

 Mário Araújo Torres. Imagem acedida em: https://www.bing.com/images

 Mário José de Araújo Torres nasceu em 1945, em Cabeceiras de Basto, no seio de uma família com raízes em Braga. Em 1953 vai de Braga para Coimbra, onde conclui a instrução primária (Escola da Sé Velha), frequenta o Liceu D. João III (1955-1962) e se forma na Faculdade de Direito (1962-1968).

Faz-se sócio do Centro Académico de Democracia Cristã, de cuja revista Estudos foi subdiretor (1967).

Em 1969, frequentando o 6.º ano de Direito e o estágio para a advocacia, participa na defesa dos processos disciplinares e judiciais instaurados aos estudantes da Universidade de Coimbra durante a crise académica desse ano. Integra a lista da Oposição Democrática de Coimbra nas eleições legislativas do mesmo ano. Cumpriu o serviço militar em Angola (1972-1974).

Ingressou na magistratura do Ministério Público (delegado do procurador da República nas comarcas da Ilha de S. Jorge, Olhão e Lisboa; adjunto do procurador da República na Relação de Lisboa; membro do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República; representante do Ministério Público no Tribunal Constitucional), sendo fundador e primeiro presidente (1974) do Sindicato dos Delegados do Procurador da República (depois, Sindicato dos Magistrados do Ministério Público).

É fundador da associação MEDEL ‒ Magistrados Europeus pela Democracia e Liberdades.

Foi Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal Administrativo (1993-2000), do Supremo Tribunal de Justiça (2000-2002) e do Tribunal Constitucional (2002-2009).

O Ciclo do Natal. Afonso Duarte.png

Peregrinação ao Mundo encantado das Crianças. O Desenho na Escola e outros textos pedagógicos) de Afonso Duarte. Recolha de textos e notas por Mário Araújo Torres. Imagem acedida em https://www.sitiodolivro.pt/Peregrinacao-ao-Mundo-encantado-das-Criancas

 Após a sua jubilação, dedicou-se à recolha e reedição de textos de autores que em Coimbra desenvolveram a sua atividade, como a produção etnológica e pedagógica do poeta Afonso Duarte (Ereira, 1884 - Coimbra, 1958) e a obra poética completa de António de Sousa (Porto, 1898 - Oeiras, 1981), esta última a aguardar edição pela Imprensa Nacional.

Nos últimos anos procedeu à recolha e reedição de textos injustamente esquecidos sobre a história de Coimbra, da autoria de António Coelho Gasco (Lisboa, c. 1595 - Maranhão, 1666), Bernardo de Brito Botelho (pseudónimo), António Francisco Barata (Góis, 1836 - Évora, 1910), António Moniz Barreto Corte-Real (Angra, 1804 - Angra do Heroísmo, 1888), Francisco António Rodrigues de Gusmão (Tondela, 1815 - Coimbra, 1888), Manuel da Cruz Pereira Coutinho (Almagreira, 1808 - Coimbra, 1880), José Leite de Vasconcelos (Ucanha, 1858 - Lisboa, 1941), Amadeu Ferraz de Carvalho (Tondela, 1876 - Tondela, 1951), Vergílio Correia (Peso da Régua, 1888 - Coimbra, 1944), Joaquim da Silveira (Sangalhos, 1879 - Sangalhos, 1972), António Carvalho da Costa (Lisboa, 1650 - Lisboa, 1715) e Inácio de Morais (Mogadouro, c. 1510 - Alcobaça, 1580).

Sítio do Livro. Mário de Araújo Torres. S/d. Texto acedido em: https://www.sitiodolivro.pt/Os-nossos-autores/Mario-Araujo-Torres

 

 

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por Rodrigues Costa às 09:43

Segunda-feira, 16.05.22

Coimbra: Conversas Abertas, quarto debate

A série de Conversas Abertas aproxima-se, por este ano, do fim.

Trata-se de uma iniciativa do blogue “A’Cerca de Coimbra”, com o apoio do Arquivo da Universidade de Coimbra e do Clube de Comunicação Social que irá decorrer na Sala D. João III do Arquivo da UC, às18h00, na última sexta-feira do corrente mês, dia 27 de maio.

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AUC. Caixa Despeza da meza da fazenda da universidade

A entrada é livre, até ao limite da lotação, e serão respeitadas todas as diretivas em vigor emanadas pela Direção Geral de Saúde e a sessão decorrerá no formato habitual, ou seja, intervenção inicial da Palestrante, seguida de período aberto à participação dos assistentes.

O Palestrante será o Doutor Marco Daniel Duarte diretor Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos do mesmo Santuário, onde dirige o Arquivo e a Biblioteca. É ainda diretor do Departamento do Património Cultural da Diocese de Leiria-Fátima.

Doutorado em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, pertence à Academia Portuguesa da História, como Académico de Número, à Academia Nacional de Belas-Artes, como Académico Correspondente Nacional, é Sócio Efetivo da Associação Portuguesa de Historiadores da Arte, Membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Sociedade Nacional de Belas Artes e da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa.

Autor de vários estudos publicados em revistas científicas e editados em livro – entre , alguns deles premiados, comissariou diversas exposições científicas subordinadas às temáticas da sua especialidade.

O tema que irá tratar será o Jardim do Mosteiro de Santa Cruz ou Jardim da Sereia: Uma imagem do Paraíso na cidade de Coimbra.

Situado hoje num dos centros cívicos da cidade, o popularmente conhecido por Jardim da Sereia foi um dos recantos mais belos da cerca dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz que, sob a ação de Frei Gaspar da Encarnação (1726-1760), ali construíram um lugar de recreio para a comunidade monástica a que não faltou a marca intelectualizada típica daquela ordem religiosa.

Construído entre 1731 e 1736, os diferentes espaços que compõem o Jardim de Santa Cruz revelam-se, ainda hoje, clara imagem do Paraíso, não obstante as alterações a que têm sido sujeitos e os vandalismos por que tem passado.

 

Solicito e agradeço a todos os leitores do Blogue “A’Cerca de Coimbra”, a ajuda na divulgação desta iniciativa.

Com o obrigado do

Rodrigues Costa

 

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por Rodrigues Costa às 10:25

Quinta-feira, 12.05.22

Coimbra: Na Judiaria de Coimbra 2

Desci ao vale por um caminho que representa um outro já multissecular. Fui ter ao sítio da Fonte Nova, Fonte dos Judeus no séc. XII e ainda assim chamada, já partidos, no ano de 1548. A fonte demorava outrora no prédio novo do começo da avenida, acima do mercado.

Fonte Nova ou Fonte dos Judeus 04.jpg

A Fonte Nova, na localização descrita.

Recordamo-nos todos como, durante as obras em que o veio da água foi cortado, caía do alto um jorro, cristalino e abundante, numa época final de quatro anos de sequeira, tal qual a alma perene do povo de Israel.

Vale da Ribela.jpg

Segui pela rua, ladeando à minha esquerda o terreno inicial do almocavar

Segui pela rua, ladeando à minha esquerda o terreno inicial do almocavar ou cemitério dos judeus que irregularmente ia pela encosta até à ladeira do Castelo, de limites indefiníveis hoje.

Entrei de vez na rua, repetindo, como tantas vezes o tenho feito: –que restará nestas paredes das velhas construções que Israel aqui levantou? Nada que apareça nos exteriores. As casas da época manuelina já são posteriores a sua saída. Os cristãos renovaram tudo e muitos já aí habitavam a esse tempo.

É a sina de Israel: passou por toda a terra, regou-a com o seu sangue e com lágrimas das maiores agonias e, logo que desaparece, os seus vestígios eliminados também.

 Aqui estiveram séculos, contribuíram para a riqueza nacional; tinham o comércio e a indústria, num tempo em que os aborígenes só podiam e sabiam cavar a terra para o senhor dela e este, acabado o período da conquista, vivia na ociosidade e na intriga.

Vítimas de ódios mais económicos do que raciais ou religiosos que, nascidos no resto da Europa, abateram com uma ferocidade na Península, quebrando aquele viver harmonioso até ao século XIV, que foi aqui o de cristãos, judeus e muçulmanos sujeitos, desapareceram com a mesma brutalidade que os próximos anos passados viram desencadear-se.

Israel é o novilho gordo que todos os povos imolam. Na sua vida milenária só teve o descanso rápido dos reinados de David e de Salomão. 

O significado do traje cerimonial judaico.png

Imagem acedida em: https://www.coisasjudaicas.net/2011/04/o-significado-das-roupas.html

… Foi neste momento que rápido como relâmpago e esvanecente como alucinação, passou diante de mim a nobre figura do grande arrabi de Coimbra, a labita flutuante, os tefilins ligados e as correias soltando-se, como quem vem da sinagoga no dia ritual.

Depois de pousar em mim um olhar profundo, levantou as mãos descarnadas e translúcidas e eu ouvi:

«Profetisa sobre a terra de Ysrael e dize aos montes, outeiros, rios, e vales: assi diz o Senhor D.: Em meu zelo e meu fervor falei quando padecestes a injúria recebida das gentes, pela qual levantei minha mão para que padeçam também as gentes que cerca de vós outros estão a vossa mesma injúria; e vós, montes de Ysrael, produzireis vossas árvores e ao meu israelítico povo dareis a comer vosso fruto. Isto certo está já para vir, porque eu a vós tenho, ó montes de Ysrael, e por vós olharei; sereis lavrados e semeados e eu multiplicarei em vós homens, os da casa de Ysrael».

Recordei-me, eram as palavras de Samuel Usque, nascidas no coração, na esperança dum português de Israel. Na terra dos avós combatem hoje, com a fé multissecular e, mesmo que vencidos agora, Israel virá a possuir de novo a terra que foi sua; virão de todos os pontos da terra, do setentrião ao meio-dia, do levante ao ocaso, combatentes, e o lar restaurado de Israel renovará as maravilhas da raça.

Esta é também a voz antiga judiaria de Coimbra.

Diário de Coimbra, 1947.10.27.

 Gonçalves, A. N. 2019. António Nogueira Gonçalves. Colaboração em Publicações Periódicas. Coordenação de Regina Anacleto e Nelson Correia Borges. Prefácio de José de Encarnação. Coimbra, Câmara Municipal. Volume II, pg. 483-485.

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por Rodrigues Costa às 11:10

Quarta-feira, 11.05.22

Coimbra: Conversas Abertas, terceiro debate

No âmbito do evento “Conversas Abertas”, iniciativa do blogue “A’Cerca de Coimbra”, com o apoio do Arquivo da Universidade de Coimbra e do Clube de Comunicação Social, vai decorrer na Sala D. João III do Arquivo da UC, às18h00, na próxima sexta-feira, dia 13, a terceira sessão deste evento.

A palestrante será a Dr.ª Berta Duarte que abordará o tema “Judeus de Coimbra”.

A “Judiaria Velha” foi, ao longo da Idade Média, uma das mais importantes no território nacional, ocupando uma parcela considerável da área urbana e detendo os equipamentos considerados prioritários para as comunidades – os Banhos de Purificação, o Cemitério e a Sinagoga.

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Possível, mikveh, descoberto na rua Visconde da Luz, n.ºs 19 e 21

A presença de Judeus em Coimbra atravessou tempos em que a coexistência com os cristãos, grupo maioritário na sociedade, foi relativamente pacífica, mas outros tempos vieram, de intolerância, que a custo permitiram a mera sobrevivência.

Solicito e agradeço aos leitores do Blogue A´Cerca de Coimbra, divulgação desta iniciativa.

Com o obrigado do

Rodrigues Costa

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por Rodrigues Costa às 11:21

Terça-feira, 10.05.22

Coimbra: Na Judiaria de Coimbra 1

Neste último Sabat do mês de Hexevan da era da criação do mundo de cinco mil setecentos e oito [1947] – bendito e Eterno Deus de Israel – os meus olhos de mortal viram a sombra do grande arrabi da judiaria de Coimbra.

Bem pouco preparado estava para tal encontro.

Dia de maravilha esse: luminoso, tépido, a atmosfera pura como frequentemente acontece no outono, as distâncias nítidas e o ambiente vizinho dum encanto subtil. A luz trespassa-nos e convida-nos a gozar estas horas únicas que a Natureza dá antes de nos mergulhar nos sombrios nevoeiros e no horror do frio.

Eis-me por aí à toa, entregue ao prazer do momento.

Errando por Montarroio encontrei-me numa varanda natural, voltado para cidade velha, mais aliciante nesta luz dourada. Parei a olhar para a antiga judiaria, a rua do Corpo de Deus.

Posição sugestiva, hoje que se vê poeticamente o passado, posição de deserdado seria outrora.

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Passava a muralha pela parte de trás, servindo de base agora ao Colégio Novo

 Passava a muralha pela parte de trás, servindo de base agora ao Colégio Novo. Deste ponto o terreno inclina-se violentamente, em escarpas sucessivas, até atingir as linhas demarcadas pela Visconde da Luz e pelo terreno onde assenta o café de Santa Cruz, a sacristia, etc. alongando-se pela antiga Ribela acima.

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Rua de Corpo de Deus, nos anos 50 do século passado

 

Havia um socalco levemente mais largo e nele se alcandoraram as casarias do gheto coimbrão, tendo dois acessos, um para o lado da Calçada e outro para a Fonte Nova; barricados estes, transformavam-se quase em fortaleza, bem precária contudo.

JC. Desci ao vale. Avenida Sá da Bandeira. Manute

Desci ao vale por um caminho que representa um outro já multissecular. Fui ter ao sítio da Fonte Nova.

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Vale da Ribela e Rua de Entremuros. Imagem da coleção particular do Dr. Branquinho de Carvalho

 Pode ver-se de longe esta modelação forte e nobre, sempre repelida de cristãos, nervo do comércio e progresso deles, lançada aqui, como quase em toda a parte, fora das muralhas, como primeira vítima oferecida aos invasores.

Pode ver-se longe esta modelação natural do terreno, por intermédio de certas linhas que servem como que de curvas de nível e que são: a do Colégio Novo, no alto, a da rua do Corpo de Deus, a da parte traseira das casas desta, os diversos socalcos dos quintais até ao ângulo inferior, que serve de esporão terminal aquele dorso da colina, formado pelo ângulo da Visconde da Luz e da linha da rua das Figueirinhas. Representa esta (modificada pelos crúzios) uma estreita vereda que levava à Porta Nova e que nos serve hoje para avaliar rapidamente o declive do terreno.

Pode-se ver de longe esta modelação forte e nobre, sempre repelida de cristãos, nervo do comércio e progresso deles, lançada aqui, como em quase toda a parte, fora das muralhas, como primeira vítima oferecida aos invasores.

Gonçalves, A. N. 2019. António Nogueira Gonçalves. Colaboração em Publicações Periódicas. Coordenação de Regina Anacleto e Nelson Correia Borges. Prefácio de José de Encarnação. Coimbra, Câmara Municipal. Volume II, pg. 483-485.

 

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por Rodrigues Costa às 14:57

Quinta-feira, 05.05.22

Coimbra: Igreja de S. José, estatuária

A Paróquia de S. José editou uma muito interessante pagela dedicada à estatuária ali existente de onde retiramos as imagens que ilustram esta entrada.

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Rosto da pagela

As obras, datadas de 1961, são da autoria de Maria Amélia Carvalheira.

Via Sacra, N.ª Senhora e S José

Esculturas em pedra, com influência do clássico, equilibradas, sóbrias e respeitando o material usado, da autoria de Maria Amélia Carvalheira, artista de arte sacra imbuída dos pergaminhos, que identificam a indiscutível capacidade criativa da escultora e a robustez e qualidade da sua extraordinária obra.

Obra que incute um silêncio de fé amadurecida e acolhedora das formas da tradição, com expressão própria e que revela grande seriedade criativa.

O seu conjunto constitui uma referência da arte sacra do século XX em Coimbra e no país.

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Imagem de Nossa Senhora

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Imagem de Nossa Senhora, pormenor

A imagem de Nossa Senhora é, em particular, reconhecida pela sua expressão e invulgar beleza. Grandiosa na expressiva contemplação que ressalta do seu rosto, na atitude de oração e na simplicidade.

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José e o Menino Jesus

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José e o Menino Jesus, pormenor

São José impõe na estrutura imagética que o identifica, um rosto de pai carinhoso, impregnado da serenidade de homem santo, contemplativo na transcendência que o fortalece, e abrigando no seu manto o Menino.

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I. Jesus é condenado à morte por Pilatos

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XII. Jesus morre na cruz

 

O conjunto de esculturas representativas da Via-Sacra mostra o caminho doloroso de Cristo a caminho do Calvário. Cada quadro documenta de forma impressionante, o sofrimento, a dor, a blasfémia, o aviltante desprezo da dignidade humana, a coragem a resignação, a mística humildade e a grandeza

do Salvador.

Algumas revestidas de movimento. Outras adornadas com a iconografia que preside a uma época e que respeitam a tradição bíblica.

Autoria: Maria Amélia Carvalheira

Maria Amélia Carvalheira, nasceu em Gondarém, Vila Nova de Cerveira, em 5 de Setembro de 1904. Faleceu em Lisboa no dia 31 de Dezembro de 1998, com 94 anos.

Maria Amélia Carvalheira.jpg

Imagem acedida em: https://www.facebook.com/MariaAmeliaCarvalheira/photos.

Escultora de Arte Sacra, com uma vasta, notável e diversificada produção artística que distribui por quase todo o país e estrangeiro. Em Fátima possui um vasto espólio.

Perpassa na sua obra uma “fé amadurecida e acolhedora das formas da tradição ... criando esculturas de grande seriedade … atenta a verdades do reino intemporal''. "A figura de Maria, Mãe de Jesus ... ocupa um lugar de honra nas suas manifestações artísticas".

Entre os prémios recebidos sobressaem: a Condecoração da Santa Sé "Pro Eclesia et Pontificie" e o "Grau de Comendadora da Ordem de Mérito" de Portugal.

Igreja Paroquial de S. José. N.ª Senhora, S. José e o Menino e Via Sacra. 2012. Coimbra, Gráfica de Coimbra, Ld.ª

 

 

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por Rodrigues Costa às 19:17

Terça-feira, 03.05.22

Coimbra: Casa de Sobre Ribas 5

Acerca da Casa de Sub-ripas ainda há poucos anos alguns caturras teimavam a favor da lenda que pusera dentro das suas paredes a tragédia do D. Maria Telles — morta ás mãos do marido por intrigas da irmã rainha.

D._Leonor_Telles_de_Menezes.jpg

Rainha D. Leonor Teles, a origem da intriga. Imagem acedida em https://www.google.pt/search?q=leonor+teles 

assass├¡nio de D. Maria Teles, em Coimbra.jpgO resultado da intriga. Imagem acedida em http://invitaminerva45.blogspot.com/2017/07/estorias-curiosas-da-nossa-historia-2.html 

Isto, apesar de tal invenção estar claramente destruída desde 1871, com a publicação ou aproximação de certas datas históricas e documentos. Entre outros podem ver-se os artigos e cartas publicadas nos n.os 2526, 2527 e 2530 do Conimbricense daquele ano, por J. Martins de Carvalho, Miguel Osório, Senhor das Lágrimas, e Dr. Filipe Simões. Nem mesmo valeria a pena discutir o caso, se não estivéssemos num país onde quase toda a gente prefere seguir e repetir o que ouve a investigar e a refletir por conta própria.
Assim, sempre enfileiro aqui os argumentos que minaram a ingénua invenção.
Em primeiro lugar: da leitura da passagem de Fernão Lopes [Chronica de El-rei D. Fernando – Tomo IV da coleção de livros inéditos de história portuguesa.... pag. 350 a 354] invocada como fundamento da lenda — infere-se exatamente o contrário do que queriam aqueles caturras; pois o pai da nossa história muito positivamente indica como teatro da tragédia uma casa próxima á igreja de S. Bartolomeu — igreja situada no mesmo local onde existe a atual, constituída em 1756. Pertencia essa casa a um homem nobre, de nome Álvaro Fernandes de Carvalho.
— Depois: seguindo Fernão Lopes, também Frei Manuel dos Santos na «Monarchia Lusitana» refere o facto como passado na freguesia ou arrabalde de S. Bartolomeu.
— Há mais: porque é que António Coelho Gasco— escritor do século XVII, autor da Conquista, antiguidade e nobreza da mui insigne e Ínclita cidade de Coimbra —nada menciona do facto? Certamente por estarem já no seu tempo arrasadas ou irreconhecíveis as casas de Álvaro de Carvalho. Mas se a tragédia se tivesse dado na Casa de Sub-ripas ele aí tinha o teatro do crime — e não passaria em silêncio tão importante acontecimento.
— Ainda: nos pergaminhos e papéis do arquivo dos Perestrellos —proprietários históricos das casas de Sub-ripas até há poucos anos — nada apareceu, entre documentos referentes a estas casas, que desse o caso como acontecido nas suas moradas.
Não faço, nesta altura, pesar a circunstância de ver dado como acontecido numa casa quinhentista um facto pertencente ao século XIV; pois os defensores da lenda explicavam: que a casa existente fora levantada sobre as ruínas da casa ou torre do crime. Mas a isto responde-se: no século XVI, mercê de vida nacional mais pacífica e das novas condições da cidade, já podiam ser abandonadas partes da muralhas com as torres — como de resto o prova o documento da doação a João Vaz; enquanto que nos tempos precários — tão abrolhados de perigos o surpresas — do reinado de D. Fernando I não podia estar ainda desprezada a muralha de Coimbra, e convertidas as suas torres do vigia em aposentadorias de princesas.
Este argumento de boa razão fortalece os que nos fornecem os documentos.
Para mais — a lenda é de origem relativamente recente, e nenhum dos escritores que a adotaram o fez como historiador. Sorria-lhes á fantasia.
Mas não há remédio senão passar sem ela.
O interesse que nos merece a Casa de Sub-ripas em nada diminuirá, de resto, por termos afugentado dos seus desvãos e terraços o fantasma da linda e branca Maria Telles, imolada a golpes de bulhão, pelo filho da outra mísera e mesquinha numa madrugada de novembro de 1379.
Coimbra. 25 de março do 1906.
Manuel da Silva Gayo

Gaio, M.S. Palácios, castelos e solares de Portugal. IV – A casa de sub-Ripas, In “Illustração Portugueza”, 9, Primeiro semestre, 2.ª série. Lisboa, 1906, p. 265-272.

 

 

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por Rodrigues Costa às 21:33

Terça-feira, 03.05.22

Coimbra: Conversas Abertas, terceiro debate

Por razões de agenda, no corrente mês de maio, a iniciativa do blogue “A’Cerca de Coimbra”, com o apoio do Arquivo da Universidade de Coimbra e do Clube de Comunicação Social e que tem vindo a decorrer na Sala D. João III do Arquivo da Universidade de Coimbra, terá duas sessões.

A primeira decorrerá no dia 13 de maio, às18h00, com entrada livre, até ao limite da lotação e decorrerá no formato habitual, ou seja, intervenção inicial da Palestrante, seguida de período aberto à participação dos assistentes

Matricula_Antero_Quental.jpg

Matricula de Antero de Quental

A palestrante será a Dr.ª Berta Duarte que abordará o tema “Judeus de Coimbra”.

A “Judiaria Velha” foi, ao longo da Idade Média, uma das mais importantes no território nacional, ocupando uma parcela considerável da área urbana e detendo os equipamentos considerados prioritários para as comunidades – os Banhos de Purificação, o Cemitério e a Sinagoga.

A presença de Judeus em Coimbra atravessou tempos em que a coexistência com os cristãos, grupo maioritário na sociedade, foi relativamente pacífica, mas outros tempos vieram, de intolerância, que a custo permitiram a mera sobrevivência.

Solicito e agradeço a divulgação desta iniciativa.

Com o obrigado do

Rodrigues Costa (responsável pelo blogue “A’Cerca de Coimbra”)

 

 

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por Rodrigues Costa às 10:36


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