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A' Cerca de Coimbra



Quinta-feira, 23.03.17

Coimbra: O retábulo-mor de Santa Cruz

Tem a igreja de Santa Cruz de Coimbra um impressionante acervo de obras artísticas marcantes na História da Arte em Portugal: restos do vasto legado daquela que foi uma das mais importantes casas monásticas portuguesas. São merecidamente famosos os túmulos reais, o púlpito, o cadeiral, a sacristia, o claustro... Mas há uma obra a que não se tem dado o devido realce e que teve uma importância enorme pela definição de um estilo que se espalhou por toda a Beira até ao Douro: o retábulo-mor.

Santa Cruz a.jpg

A igreja de Santa Cruz já não apresenta hoje o aspeto que os frades crúzios lhe deram até ao tempo da extinção. A primeira metade do século XVIII fora de grandes mudanças arquitetónicas, devidas à ação de D. Fr. Gaspar da Encarnação, a quem se deve o Santuário, o Jardim de Santa Cruz e a transformação da igreja. As modificações que então se operaram tinham como objetivo dar-lhe uma feição mais moderna, num gosto que pode considerar-se vanguardista, um barroco moderado, mais classicista, em que são peças marcantes os retábulos. Desta reforma restam a Santa Cruz sobre o arco cruzeiro e os retábulos. Retiraram-se as grades conventuais que separavam a igreja dos fiéis do espaço clausurado; demoliram-se as pilastras de dourados capitéis que encobriam os elementos manuelinos, substituíram-se os retábulos colaterais de talha barroca por outros de pedra ao estilo neorrenascença.

Três fatores estão na origem desta inovação: a ação de Fr. Gaspar da Encarnação, a existência no mosteiro de livros com gravuras de retábulos, vindos de países germânicos (agora na Biblioteca do Porto) e os desenhos esclarecidos do Dr. António de Andrade, arquiteto com realizações de vulto, como o coro do mosteiro de Lorvão e a igreja do mosteiro de Salzedas.

O retábulo-mor causou grande impressão nos meios artísticos da cidade. Em breve foi imitado na capela da Ordem Terceira de S. Francisco, na igreja de S. Bartolomeu e em inúmeras outras realizações. Foi o pai de uma imensa prole espalhada pelo centro de Portugal. Se o riscador foi o Dr. António de Andrade, quem poderia ter sido o entalhador? Talvez Gaspar Ferreira, notável artista estabelecido em Coimbra e com outras obras em Santa Cruz. Mas não faltavam em Coimbra entalhadores de igual mérito, como João Ferreira Quaresma e Domingos Moreira.

Anterior ao estilo pombalino de Lisboa, com ele se relaciona, embora com características próprias que lhe conferem o direito de ser considerado estilo regional, justamente designado por rococó coimbrão. Apresenta um embasamento de linhas direitas, sobre o qual se erguem colunas de fuste liso, pintadas a imitar mármores raros. Esta visão classicista altera-se quando se chega ao remate superior. Aí a arquitetura movimenta-se de recortes e curvas e sobre os lados sentam-se figura alegóricas ou de anjos, em atitudes gesticulantes.

O retábulo crúzio é enriquecido com quatro anjos de grande porte e de muito bom nível escultórico: dois laterais e dois sentadas nos acrotérios. As roupagens esvoaçantes vinculam-se ainda ao barroco, mas as expressões são suaves e dulcificadas, características do rococó. A mensagem iconográfica que o retábulo pretende transmitir é evidente e acessível: a exaltação da Santa Cruz. No painel que tapava o camarim do trono, uma figura feminina mostrava aos crentes a Santa Cruz, envolta em anjos, tendo, na parte inferior, outras figuras da humanidade, em adoração. Os anjos laterais exibem o cálix e a lança; o acroterial esquerdo, o martelo e os cravos das mãos; o da direita, o cravo dos pés e a torquês. Rematando esta exibição ostensiva dos instrumentos da Paixão, o dístico da cruz, INRI, circundado pela coroa de espinhos, “explode”, no cume, em enorme glória solar, qual girândola de raios dourados e cabecinhas aladas de querubins.

Atualmente encontra-se a descoberto o trono eucarístico, outrora só visível em certas solenidades. É muito belo, mas, sem a tela que o ocultava, o programa iconográfico que presidiu à conceção do retábulo fica adulterado.

Borges, N.C. 2016. O retábulo-mor de Santa Cruz de Coimbra, In Correio de Coimbra, n.º 4634, de 23.02.2016.

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por Rodrigues Costa às 09:19



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